Lista telefônica

Olhando a Maré - Jornal Cruzeiro do Vale

Por Herculano Domício

22/01/2018

 

DESASTRES ANIMAM O GOVERNO DE GASPAR

Era sexta-feira. Mais um dia depois de um ano de governo. Sem ter o que anunciar como uma promessa de campanha cumprida. Uma necessidade política imensa para dizer que está trabalhando duro; realizando pelos gasparenses. Então, cercado de iluminados (a maioria deles estão nas fotos para fazer volume e aplaudí-lo) e orientado pela superintendência de Comunicação – a que falha permanentemente -, o prefeito de Gaspar, Kleber Edson Wan Dall, MDB, convocou a imprensa, a que não pergunta, ao auditório da prefeitura. Tudo em busca de manchetes e voltar ao noticiário.

Novidades? Que nada! Era para ouvi-lo no óbvio, no necessário e que é inerente à sua função: de que havia assinado o decreto de situação de emergência para o município de Gaspar. Ele e sua equipe apuraram, até nos centavos, os prejuízos da última enxurrada: R$2.736.580,00. Com o decreto e com sorte, Gaspar vai conseguir um dinheirinho nos governos Federal e Estadual para cobrir parte dos prejuízos e os comprovadamente atingidos, terão o Fundo de Garantia, se tiverem ainda saldo, liberados para também mitigar os eventuais prejuízos que tiveram contra o patrimônio.

Sobre a falta de mais de 1.100 vagas nas creches de Gaspar, nada! Sobre a anunciada implantação imitação de Anel de Contorno e que fragiliza o secretário técnico que Kleber contratou para fazer a diferença nesse assunto, nada! Sobre o crítico funcionamento dos postinhos de saúde, policlínica e das farmácias básicas que deixa os pobres e doentes em filas e piorando na doença, nada! Sobre a retificação, alargamento, urbanização e asfaltamento da Bonifácio Haendchen e da Vidal Flávio Dias, ambos no Belchior Baixo e Central, nada! Sobre o projeto para melhorar a iluminação urbana, com mais tecnologia e menor custos para os gasparenses depois da equipe de Kleber aumentar a Cosip em 40% na Câmara, nada! Sobre como melhorar o atendimento dos consumidores do Samae reféns de sucessivos erros técnicos banais, nada! Sobre tudo o que prometeu na campanha para ser realidade nesse primeiro ano de governo, nada! Sobre a concessão do serviço público de ônibus urbano, que funciona a título precário por quem nem experiência tem no assunto, nada! Sobre como vai lidar com a suposta minoria na Câmara, nada! A tal burocracia, não deixou fazê-lo o que prometeu, reclama aos que cobram. Os seus “estrategistas” falharam, mas eles e o prefeito culpam os outros e até a imprensa que ousa tocar nesses assuntos. Então paro aqui. A lista é comprida.

O prefeito Kleber, o vice Luiz Carlos Spengler Filho, PP, o prefeito de fato, o secretário da Fazenda e Gestão Administrativa, e presidente do MDB de Gaspar, a sua equipe e a assessoria de imprensa precisaram de um desastre natural para criar um factoide, convocar a imprensa e dizer que está fazendo o que qualquer um no lugar dele, por obrigação, faria. Os outros prefeitos da região fizeram a mesma coisa: assinaram o tal decreto de emergência. Entretanto, ao invés da “coletiva”, postaram e distribuíram “press release”, assessores lançaram-se às entrevistas, alguns deles, até mostrando ao povo como antes do decreto e por sua iniciativa – e obrigação, pois foi para isso que se elegeu - em favor do povo, resolveram o que a enxurrada estragou.

Administradores de primeira viagem, ou fracos e principalmente, os orientados pelas velhas raposas da velha política em vestes de novos, usam o desastre, o acidente, o temporal, a enxurrada, a enchente, para montar o palanque e dele arrotarem discursos de vítimas. E por quê? Para com isso, diminuir à responsabilidade daquilo que prometeram realizar e não conseguem por fatores bem conhecidos da sociedade. Gestores de verdade, fazem do problema uma solução diferencial. Os fracos, nem isso conseguem. Sentem-se vítima do ocaso, dos adversários, das leis que impede à farra nessa hora emergencial, dos críticos e da imprensa que não se alinha com a fraqueza administrativa.

Quem é mesmo orienta o prefeito Kleber. Resta-lhe ao seu grupo de beneficiários, a vingança e repetir as administrações de Bernardo Leonardo Spengler, o Nadinho e Adilson Luiz Schmitt. O resultado será inevitável. Acorda, Gaspar!

SEM GESTÃO. SEM NOÇÃO I

Na administração de um modo geral e não me refiro unicamente ao setor público, há um conceito clássico, verdadeiro e ao mesmo tempo, trata-se de uma advertência para a essência do perigo: um grande problema se torna grande para o administrador, quando o gestor permite o acúmulo de pequenos problemas não resolvidos. É desastroso. Tenho exemplos e experiências com esse assunto.

E os pequenos problemas na administração pública têm quase sempre uma mesma origem: as indicações políticas de incompetentes. Eles reinam absolutos e não são cobrados, nos escalões inferiores, um lava a mão do outro, ninguém se incomoda. Afinal, no topo da cadeia o foco é outro: os grandes projetos e os consequentes resultados para mover mentes, corações e a máquina de votos. No que não está totalmente errado. Gaspar não é diferente. Todavia...

Um exemplo de pequeno problema e que se somaram com outro e pode virar uma percepção de que nada funciona. O Cemitério Municipal possui uma estrutura cara e ampla para cuidar dele, em algo que deveria ser concedido ou privatizado. Gente encostada. Desafiadora com o povo que lhe paga. Este é mais um exemplo dessas coisas pequenas, que não recebem a devida atenção e por isso, tornam-se um problema não para o político, mas para a sociedade.

Vejam essas fotos. Ao invés de parque santos, limpos, acessíveis, o cemitério do Santa Terezinha parece que virou área de preservação permanente diante do mato que cresce nos caminhos de lá. E adianta reclamar? Não! O administrador e funcionários ficam fulos e até distratam que tenta registrar a situação em filmes e fotos. Não querem provas contra si, a teta e a mamata “Não custa vocês limparem o matinho?” Retrucam aos reclamantes! Como assim? Quem é pago pelo povo de Gaspar para fazer esse serviço, supervisionar e dar a limpeza do cemitério municipal? Todos os indicados por Kleber. E quem vai ao campo santo, testemunha, que o maior tempo dessa gente é estar sentados naquelas cadeiras de plástico à espera de um morto (veja a foto). O que está morta, de verdade, é a obrigação de dar conta daquilo para os quais foram concursados, contratados ou indicados politicamente. Falta gestor. Falta cobrança de resultados. Falta ouvir e ter respeito pelo povo. Acorda, Gaspar!

SEM GESTÃO. SEM NOÇÃO II

O assunto é antigo. Faltou espaço entre tantos outros que já abordei e que ganharam prioridade. Mas, ele se enquadra nesta de que a soma dos pequenos problemas, torna-se um grande problema. E depois que o grande problema se instala dessa forma, a percepção para mudá-lo, como já escrevi, no mundo da administração pública é algo problemático e que leva tempo, sem antes dar prejuízos a quem não cuidou devidamente desse assunto: falta de votos.

Gaspar voltou a ter os pardais eletrônicos. Bom. E a empresa ganhadora, por orientação e por necessidade (pois ganha pelas multas) passou a instalá-los pela cidade. Fez do jeito que queria. E só fez do jeito dela, porque a Ditran – Diretoria de Trânsito – de Gaspar permitiu. E por causa desse desleixo administrativo e responsabilidade, foi possível ver a instalação de um desses pardais, como mostra a foto, em cima de uma calçada, obstruindo-a quase totalmente. Ou seja, para controlar e multar, a empresa, a Ditran e a prefeitura de Gaspar, preferiam que os gasparenses ficassem expostos à acidentes na faixa de rodagem. Vergonhoso!

Precisou-se do berreiro dos transeuntes pelas redes sociais, para que tudo fosse olhado, julgado como errado e consertado. E por que isso aconteceu? Porque a Ditran – dirigida por uma indicação política com José Marildo Azevedo – não cumpriu a sua obrigação: primeiro não viu o que estava acontecendo, segundo orientou à empresa permissionária ao bom senso, e terceiro: acompanhou o serviço. E aí a prestadora achou que Gaspar era a casa da mãe joana e tascou o totem do pardal, no meio da calçada e interrompeu o ir e vir dos pedestres. Resumindo: precisou o erro, o desgaste, o retrabalho, os custos para colocar as coisas no seu devido lugar. Se não fossem as redes, até a maior parte da imprensa teria ficado quieta para não incomodar o paço, o prefeito, os secretários, todos amigos dos amigos...

SEM GESTÃO, SEM NOÇÃO III – SAMAE INUNDADO

É impressionante como na gestão do mais longevo dos vereadores de Gaspar, José Hilário Melato, PP, e agora licenciado para ser presidente do Samae, a autarquia se tornou uma fonte de problemas e não de água potável. Melato se jacta como um “experiente” executivo e não um político matreiro que é. Devia era ter vergonha desta auto-intitulação que assume pensando em ser mais poderoso, qualificado e ter melhor currículo do que a de político, que mais recentemente levou até à derrota do prefeito Kleber Edson Wan Dall, MDB, na eleição da mesa diretora da Câmara. A maioria dos problemas do Samae de Gaspar, hoje é exatamente a soma de pequenos, sucessivos e repetidos problemas, todos oriundos da má gestão técnica, principalmente, de pessoas.

E olha que o Samae nunca foi um exemplo de profissionalismo. Sempre foi ocupado por gente curiosa, mas humilde, porque sabia ela que estava lidando com algo sério e ao mesmo tempo importante para a cidade, os cidadãos e que vigilantes e insatisfeitos, deixaram os gestores expostos, vulneráveis e marcados perante o poder.

Cito alguns, e pedindo desculpas aos demais, que não eram do ramo e se deram bem à frente do Samae de Gaspar: Jorge Luiz de Souza, Luiz Carlos Spengler, Lovídio Carlos Bertoldi, Elcio Carlos de Souza... Nenhum deles entendia de água tratada, distribuição, química, manutenção, estação de tratamento, booster, captação.... Se duvidar, nem sabia o que queria dizer as palavras manancial, montante, jusante, saneamento... quando chegou ao Samae. Mas, todos deram conta do recado e fizeram do Samae ser melhor do que quando eles chegaram lá.

Mas, o Melato, entende de tudo: só nas palavras, porque nos gestos é a negação viva do que afirma. E ai de quem o contrarie nisso! Gaspar não recolhe um milímetro, nem trata um mililitro, mas possui estrutura para cuidar de esgotos. Todos que não somem em fossa séptica, por erros de projetos e por falta de fiscalização, ganham os ribeirões e o Rio Itajaí Açú pela rede pluvial, trazendo doenças às pessoas e poluição às cidades. Agora até de esgotos, Melato entende. É coisa que ele vai tratar para dar vantagens nas próximas eleições ao prefeito Kleber, ao MDB e ao seu PP. Só se for com esgoto que o Samae vai mudar a imagem da autarquia e do seu presidente, porque com água tratada, dessa para beber, está cada vez pior.

Na semana passada, o Bateias e o Barracão, além do Belchior e Margem Esquerda, sofreram com falta de água por dias seguidos, segundo os consumidores da região à coluna. Por dias seguidos, a operação da ETA da Bateias não conseguia nem se quer colocar 50% de água dentro do reservatório e os canos de distribuição, vazios. No Belchior, já relatei aqui. É coisa de filme do Gordo e o Magro, dos Três Patetas....

A coisa está tão feia, que o diretor externo do Samae, e braço direito de Melato, José Bonetti já ameaçou jogar a toalha se a situação não melhorar na equipe, que acha estar lhe boicotando para deixar Melato exposto. Então, é ver para crer. Lá para as bandas da Rua Luiz Franzoi e transversais, bem como nos pontos mais altos do Sertão Verde, só chega água a noite. É que a bomba ainda estava operando no manualmente. Verdade! Logo na era da tecnologia, da automatização e robotização. Uma enrolação só para arrumar o que é simples e óbvio. Para não se incomodar mais com as tantas reclamações que fez, o sogro do líder do MDB, o Chicão do Canarinhos e que mora alí perto da BR e da rua Mário Werner, está pensando em fazer ele próprio um poço artesiano. Enquanto isso, Eder Luz, está firme, sob proteção política do próprio MDB, na direção da automação do Samae. Só na direção, ao que parece. Porque de fato, tudo está cada vez mais manualizada. Acorda, Gaspar!

CARTA COM UM ANO DE ATRASO

Luciano Odair Coradini, leitor assiduo do jornal e portal Cruzeiro do Vale, bem como desta coluna, o cabo eleitoral de Franciele Daiane Back à presidência da Câmara que já foi da executiva do PSDB de Gaspar e hoje não é mais nada (apesar de dizer na carta que ainda é) revelou o que Gaspar já conhece há décadas.

Coradini é também o porta-voz do atual vice-presidente do diretório de Gaspar, Claudionor da Cruz Souza, funcionário da prefeitura tucana de Blumenau. Claudionor, esperto não está entrando em divididas e deixou o queixume (e os recados) para Coradini. Na edição da sexta-feira do jornal Cruzeiro do Vale, o mais antigo, de maior circulação de Gaspar e Ilhota e o de maior retorno para os anunciantes de jornais e portais por aqui, publicou uma carta de Coradini. Ela foi escrita logo após as eleições. Ao ser consultado pela editora do jornal Indianara Schmitt para publicá-la, pediu que a guardasse. Agora, Coradini foi até a redação para resgatá-la e dar o sinal verde. “Era hora de publicá-la”, segundo ele.

E para que? Para atestar a credibilidade do jornal. Fez bem! Mais um. Por isso, o jornal e o portal são líderes. E liderança não se faz com negócios, silêncios e fraquezas, mas com trabalho, opinião e suportando às pressões – que não são poucas - dos interesses contrariados, principalmente pelos poderosos, os ignorantes e os políticos no poder de plantão.

Segundo Coradini na carta, as pesquisas eleitorais que o jornal publicou há 15 meses, continham números parecidos com as que o partido possuía e ele, pela transparência, teve pleno acesso no comitê de campanha. Esses resultados foram assemelhados ao que se deu na apuração daquele três de outubro. Aliás, em todas até aqui, o Cruzeiro acertou nas pesquisas, exatamente porque as contratou bem e não cedeu às dúvidas dos que se acham donos dos veículos sem sê-los nas responsabilidade e custos. Ou dos que os usam para seus interesses particulares ou versões convenientes. Tudo é passageiro, menos a credibilidade.

Resumindo: antes de abrir as urnas, as pesquisas do Cruzeiro e do próprio PSDB davam conta que o MDB era o líder na corrida à prefeitura e o PSDB, estava na rabeira. E que as queixas que o partido fazia sobre ambas, eram descabidas. Jogo. Coradini está certo! Todavia, atrasado demais na atitude, na consciência e no depoimento de que o jornal Cruzeiro é isento, e por isso, não agrada a todos. Ao contrário. Resultado: é líder e acreditado, doa a quem doer.

Mas, por quê mais de um ano depois Coradini, o dissidente do PSDB, resolveu fazer o que ele não teve capacidade de fazer no dia seguinte às eleições quando escreveu a carta, para salvar a si próprio entre poucos, mas não a tornou pública? Porque agora coordenou, com Claudionor, a candidatura de Franciele Daine Back, PSDB, à presidência da Câmara, não  pelo exatamente pelo PSDB, mas pelo MDB. Todos perderam. Neste jogo, nada dependia de pesquisas. E com a vitória garantida, não perceberam os sinais, mesmo que remotos, de que tudo poderia cair por terra. E caiu! Mais uma vez, o Cruzeiro, por meio desta coluna, anunciou que Silvio Cleffi, PSC, poderia ser o plano B. E foi!

Coradini queria desde antes da eleição do ano passado que o PSDB fosse um apêndice do MDB, o mesmo que o traiu novamente ou não entregou o que prometeu (a eleição de Franciele e sempre será assim, basta olhar o passado e a história), ou então se associasse ao PSD, de Marcelo de Souza Brick, que não abriu nenhuma negociação, a não ser para submissão total e integral dos tucanos à aventura de ser poder com o PCdoB e PSB, ambos representantes do PT que se camuflava para não perder o poder de oito anos.Logo o PT que prometia esmagar o PSDB. É que as mesmas pesquisas, que Coradini elogia e as tinha no PSDB, davam conta que o PT de Pedro Celso Zuchi, com Lovídio Carlos Bertoldi, perderia para um ou para outro grupo, em qualquer cenário.

No parágrafo final da carta só permitida a publicação na sexta-feira passada, Luciano Coradini é traído pela coerência do processo do qual participou ativamente até o final para que nada desse certo no ninho tucano, a candidata e o DEM.

O PSDB – ao contrário do PT, PMDB e PSD -, não foi exatamente às eleições de outubro passado  em Gaspar para ganhar a prefeitura. Antes, fez esse movimento, e todos diziam isso, para se recuperar como partido e assim ser uma opção aos que não estavam alinhados com o MDB, com o PSD ou com o PT. O objetivo era, principalmente, fortalecer-se, pois tinha sido engolido e enfraquecido, em negociatas anteriores pelo então PMDB, em sucessivos insucessos políticos e eleitorais nos anos anteriores, na maioria dos casos com o MDB.

Escreveu Coradini: “sempre defendi que tínhamos que avaliar o risco de irmos com a coligação DEM e PSDB sozinhos. As pesquisas mostravam que não era hora e a sociedade dava sinais claros disso. Podia dar certo, mas a probabilidade era muito remota. Feita a escolha, acho que é natural participar do jogo desde que o trabalho alheio seja respeitado. A grandeza está em se arriscar, mas muito mais em reconhecer. Parabéns pelo belo trabalho, Cruzeiro do Vale”.

Ou seja, para Coradini, não importa como se ganha, o importante é ganhar. Se ele se importasse com isso e olhasse o passado de traições e submissão a que foi submetido e enfraquecido o PSDB em Gaspar, talvez Franciele fosse hoje presidente da Câmara. Coradini experimentou do próprio veneno: a vitória com sócios que não dividem o poder.

Para encerrar e sobre a carta. Verdadeiramente bonito seu gesto, Coradini, mas ele não é tarde demais? Precisou se isolar o partido, ser traído mais uma vez pelo MDB e PP (que MDB desmantelou o PSDB em Gaspar) naquilo que não dependia de pesquisa alguma, que não dependia de votos populares, que não dependia de palanque, para ver que o jogo não é uma questão de escolha, mas uma opção de vontades onde os mais articulados superam os sinais claros de vitória dos outros e transformam a probabilidade remota em realidade?

Enquanto o PSDB de Gaspar não se depurar e insistir em ser uma sucursal do velho MDB, não será respeitado como força política. Acorda, Gaspar!

Edição 1835

Comentários

Herculano
22/01/2018 12:00
TEMER EVITA NOTICIÁRIO E ALTERA ROTINA POR MEDO DO "EFEITO SARNEY"

Conteúdo do jornal Folha de S. Paulo. Texto de Marina Dias, da sucursal de Brasília. Virou costume. Quase um ritual. Quando televisores e jornais dentro do Palácio do Planalto começam a priorizar notícias negativas para o governo, o presidente da República decide criticá-los ou, até mesmo, abandoná-los de vez.

Foi assim com Fernando Collor, que às vésperas da votação de seu impeachment disse que a televisão servia apenas para "poluir sua cabeça", com Fernando Henrique Cardoso, que classificava os jornais como "desastrosos", e com Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff.

A petista deixou de acompanhar tudo que lia sobre o Brasil ?"de colunas de opinião a revistas estrangeira?" depois da Copa do Mundo de 2014, quando a crise de seu governo começou a recrudescer.

Não foi diferente com Michel Temer. Antes audiência assídua da maior parte dos jornais e revistas do país, o presidente tem diminuído a leitura que fazia dos principais veículos de imprensa e se informado com o resumo de relatórios elaborados por sua equipe de comunicação.

Com reportagens e análises adversas para o governo desde maio do ano passado, quando a delação da JBS veio a público implicando-o diretamente, Temer diminuiu o tempo dedicado às notícias diárias e se aprofundou nas articulações para que não seja alvo do que auxiliares têm chamado de "efeito Sarney".

"Ninguém gosta de noticiário negativo, ainda mais quem foi vítima de 'fake news' ou de 'ilação news' para derrubá-lo. Não se pode ficar feliz com meses de uma exploração midiática dessa", diz Elsinho Mouco, marqueteiro do governo, referindo-se às denúncias apresentadas pela Procuradoria-Geral da República.

"Agora, na média, Temer aceita o noticiário com serenidade. Ele sabe que quem tem coragem de mudar é criticado e demora a ser compreendido", completa Mouco.

O presidente, porém, não quer parecer alienado e instalou alertas em seu smartphone que o avisam das notícias de última hora. No mais, prefere conversas com ministros, senadores e deputados, geralmente com a TV de seu gabinete desligada.

Os baixíssimos índices de popularidade e as poucas chances de aprovar sua principal bandeira, a reforma da Previdência, fizeram com que assessores passassem a temer que o presidente não tenha poder político suficiente para chegar ao fim do mandato com alguma influência eleitoral.

Ministros avaliam que, na ânsia de não ficar isolado na formação de uma aliança de centro, Temer tem feito movimentos erráticos e pode terminar como o ex-presidente José Sarney (1985-1990).

Alçado ao Planalto após a morte de Tancredo Neves, Sarney encontrou seu auge em 1986, com o Plano Cruzado. Após o fracasso das medidas, no entanto, terminou o governo com popularidade baixa, reações negativas do mercado e sem força política ?"nem mesmo o candidato de seu partido, Ulysses Guimarães, defendeu seu mandato.

Assessores de Temer querem evitar repetir o histórico.

NA PRÁTICA

O presidente tem se movimentado para tentar mostrar que ainda é capaz de liderar um bloco de centro-direita.

Publicamente, colocou restrições a uma possível candidatura do ministro da Fazenda, Henrique Meirelles (PSD), e tentou erguer barreiras às articulações do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM), enquanto ensaiava uma reaproximação com Geraldo Alckmin (PSDB) ?"os três disputam o posto de candidato ao centro que pode ser apoiado pela coalizão governista.

O tucano, porém, não dá indícios de que se venderá como o nome do Planalto. Mas trabalha para ter as siglas da base de Temer em sua órbita.

Na outra ponta, a avaliação de aliados de Meirelles é a de que Maia conseguiu capitalizar melhor o debate da reforma da Previdência. Se ela for aprovada, o deputado consegue surfar no sucesso da articulação do governo. Caso contrário, pode transferir o ônus do fracasso ao Planalto.
Herculano
22/01/2018 11:22
da série: a leitura repetida daquilo que não muda em Santa Catarina

JORGE BORNHAUSEN ABANDONA A VIDA PÚBLICA - MAS NEM TANTO, por Moacir Pereira, no Diário Catarinense, da NSC, Florianópolis.

O ex-governador Jorge Bornhausen está sem filiação partidária e abandonou a vida pública. Mas continua em franca atividade nos bastidores. A Praia Brava, onde passa todos os anos a temporada, continua sendo o destino de várias lideranças e parlamentares. Entre os que foram conversar com Bornhausen, o senador Paulo Bauer, do PSDB,e o governador Raimundo Colombo, do PSD.

A preferência

Jorge Bornhausen defende a tese de definição há de acordo político entre o PSDB, o PSD e o PP com o lançamento dos candidatos majoritários. Teria Paulo Bauer (PSDB) ao governo, Gelson Merísio (PSD) de vice, Esperidião Amin (PP) e Ramiundo Colombo(PSD) ao Senado. Esta seria, na avaliação do ex-senador, a chapa ideal para alavancar a candidatura de Geraldo Alckmin(PSDB) à presidência em Santa Catarina.

Nova chapa

Outra proposta de formação de uma chapa com a liderança do PSDB vem sendo cogitada nos bastidores políticos do Estado. Teria o senador Paulo Bauer (PSDB) candidato a governador, o deputado federal João Rodrigues (PSD) de vice;Esperidião Amin(PP)e Napoleão Bernardes (PSDB) de vice. A nova tríplice aliança depende, em primeiro lugar,do julgamento de João Rodrigues pelo STF em fevereiro.
Herculano
22/01/2018 10:36
NÃO APOSTEM CONTRA ECONOMIAS DE MERCADO, por Luiz Carlos Mendonça de Barros, engenheiro, economista, ex-presidente do BNDES e ex-ministro das Comunicações, para o jornal Valor Econômico

O título desta minha primeira coluna do ano de 2018 nasceu da experiência como analista das coisas da economia por mais de 40 anos. Neste longo período de tempo, vivenciei várias vezes os mercados financeiros decretarem a crise terminal de uma - ou de várias - economias de mercado em função de graves desajustes macroeconômicos que ocorreram. Lembram os leitores do Valor quando em 2012 o colapso final da Grécia era para muitos uma questão de dias e os juros dos títulos em dólares emitidos pelo governo grego chegaram a mais de 20% ao ano? E que, com o derretimento da economia grega, iriam juntos a Itália e a Espanha, arrastando de forma definitiva o modelo da Europa Unida em torno do euro?

A mesma leitura catastrofista tinha acontecido poucos anos antes sobre os Estados Unidos, com a crise do chamado Sub Prime que levou à quebra de bancos e grandes empresas como a Ford e a GM. Alguns chegaram até a sugerir que os títulos de 10 anos de prazo do tesouro americano perderiam sua nota máxima de qualidade de crédito, afundados por um déficit fiscal que chegou a 10% do PIB. Lembram-se? E o Japão que, engolfado em longa depressão econômica, na previsão de muitos teria um fim terrível para uma sociedade que não conseguia aumentar seus gastos em consumo com medo do futuro?

Mas o alvo preferido para os arautos de uma crise terminal nas economias de mercado nos últimos anos tem sido a China. Pelo menos uma vez ao ano os mercados elegem um tema para especular com o colapso de economia chinesa. O mais recente, em 2017, foi a desvalorização do yuan em relação ao dólar americano em função de uma fuga de capitais que reduziu em mais de US$ 1 trilhão o volume de reservas do Banco da China. Medidas tomadas pelo governo de Beijing estabilizaram a taxa de câmbio do yuan e provocaram uma valorização de mais de 6% nos últimos meses.

Nenhuma destas previsões ocorreu e chegamos agora em 2018, 10 anos depois da crise do sub prime, com a maior economia do mundo novamente perto do pleno emprego e com juros pelo menos 100 pontos abaixo do padrão de períodos semelhantes no passado. As Bolsas de Valores em Wall Street atingem números recordes refletindo o entusiasmo dos investidores com os resultados operacionais das empresas em vários setores.

Do mesmo modo, a Europa venceu os obstáculos que encontrou pelo caminho e inicia o Ano Novo também sob o signo do otimismo, com a economia crescendo a taxas próximas de seu potencial, inclusive nos países mais frágeis como Itália e Espanha. Também os preços das ações europeias estão nas nuvens, embalados pelo otimismo com os resultados das empresas. O euro recuperou sua força em relação ao dólar e nem mesmo a saída do Reino Unido da comunidade europeia interrompeu este movimento. Até os títulos públicos emitidos pelo governo grego voltaram a ser negociados a taxas consideradas normais e o Plano de ajuda financeira, articulado pelo FMI e a Comunidade Europeia no auge da crise de confiança, está sendo liquidado normalmente pelo governo em Atenas e com recursos próprios.

Apesar de pouco noticiada, no Japão a economia saiu do abismo da recessão em que se encontrava desde a década dos noventa do século passado e apresenta um crescimento adequado para uma sociedade com as características da japonesa. E a China voltou a acelerar seu crescimento depois de vários anos de desaceleração e que foi diagnosticado, pelos pessimistas de sempre, como o início de um período de crescimento bem mais reduzido.

Em outras palavras, depois de um longo período de crises o mundo sincronizou o crescimento econômico global perto de seu potencial e deixou para trás os murmúrios e previsões sobre o fim do capitalismo. Mesmo no Brasil, embora a crise e a recuperação cíclica que estamos vivendo tenham uma natureza diversa da que atingiu o mundo desenvolvido, podemos sentir a força de uma economia de mercado quando submetida a uma gestão de qualidade.

Na reflexão de hoje, procuro entender como é possível ocorrer uma mudança tão radical na percepção sobre o funcionamento das economias de mercado, apesar de todo o arcabouço teórico existente para orientar os analistas em sua missão. Pergunto: como explicar as flutuações selvagens nos preços das ações, das taxas de câmbio e de juros que ocorrem em curto espaço de tempo sob o impacto de previsões que acabam não ocorrendo? No caso das bolsas americanas, nestes últimos cinco anos, ocorreu uma valorização de mais de 80% depois que o Fed adotou a política de ultra expansão monetária para estimular a economia americana. O mesmo fenômeno ocorreu na Europa depois que o BCE, sob o comando do italiano Mario Draghi, mandou às favas a oposição dos monetaristas radicais do Banco Central alemão e adotou a mesma política do Fed.

Para encontrar uma explicação razoável para esta questão, vou recorrer ao comentário de John Maynard Keynes durante um debate sobre os defeitos do capitalismo, como era chamado o regime de economias de mercado. Para ele, o capitalismo tem uma fragilidade intrínseca que é a influência de erros de política econômica cometidos pelas autoridades na administração do ciclo econômico e que provocam importantes desequilíbrios nos mercados. Nestes momentos, a influência das fragilidades humanas dos agentes econômicos podem transformar desequilíbrios de curto prazo em crises sistêmicas mais graves e mais longas, como nos Estados Unidos em 2008. Ao citar esta fragilidade das economias de mercado Keynes sempre terminava com uma observação otimista. Mas se as economias de mercado criam suas próprias crises elas também acabam por desenvolver forças autônomas para sua superação.

Foi o que ocorreu neste período dramático que vivemos.
Herculano
22/01/2018 10:34
BOTSUANA VÊ O BRASIL PELO RETROVISOR, por Vinicius Mota, secretário de redação do jornal Folha de S. Paulo

Não há grande mistério na fórmula que faz um país pobre progredir para um nível remediado de renda. Basta uma certa dose de centralização política, não importando sob qual regime, de urbanização e de tecnologias baratas que derrubam a mortalidade precoce e "voilà".

Por volta de 1980, a grande maioria das populações da Europa e da América havia atingido esse estágio. A Ásia tirou o atraso nas décadas seguintes. A renda média de um asiático está a poucos anos de equiparar-se à de um sul-americano. Há 38 anos, a primeira era 1/4 da segunda.

É provável que tenha chegado a vez da África. Há sinais no continente de avanços sobre duas chagas que costumam perpetuar a pobreza: a fragmentação granular do poder político e uma epidemia genocida, como tem sido a Aids para povos ao sul do Saara nas últimas duas décadas.

Chegar é uma coisa, passar é outra, diz o narrador Galvão Bueno. Vale para as corridas de carro, vale para a marcha das nações que atingem a renda média. Poucas ao longo da história subiram ao andar de cima, o dos países desenvolvidos.

Na Ásia, a ditadura chinesa desafia o postulado de que só democracias chegam à elite, embora falte percorrer um pedaço longo e arriscado de estrada até lá. Na nossa região, o Chile destoa da geleia geral e deve sagrar-se o primeiro sul-americano desenvolvido na próxima década.

Na África negra, o candidato é Botsuana, que decuplicou o PIB nas últimas quatro décadas. Sua renda per capita, em medida que compara os poderes de compra, ultrapassou a brasileira em 2014 e não vai parar tão cedo de abrir distância.

A pequena nação mediterrânea do sul da África, com 2 milhões de habitantes, pratica versões dos regimes abertos e competitivos na política e na economia em modo estável há 50 anos. O baixo nível da corrupção percebida indica boa adesão ao primado da lei. Lá se foi Botsuana.
Herculano
22/01/2018 10:30
O QUE ESTÁ EM JOGO NO DIA 24, por Roberto Livianu, para o jornal O Estado de S. Paulo

A declaração de Gleisi Hoffmann nega a essência da República e chantageia a democracia

"Para prender o Lula, vai ter que prender muita gente. Mas, mais do que isso, vai ter que matar gente. Aí vai ter que matar." O pensamento, que se refere ao julgamento do próximo dia 24 pelo Tribunal Regional Federal da 4.ª Região (TRF-4), remete-nos aos tempos da pistolagem, do cangaço, da matança impune. É uma ameaça criminosa ao Estado e às instituições republicanas, feita sem cerimônia pela senadora Gleisi Hoffmann, do PT do Paraná, que também preside nacionalmente o Partido dos Trabalhadores.

A declaração mostra a magnitude da degradação ética das instituições. O quanto inexiste, em primeiro lugar, o compromisso de um parlamentar com o decoro ?" afinal, Gleisi Hoffmann ocupa uma cadeira no Senado e tem deveres no plano da dignidade comportamental em relação ao Parlamento e aos representados. Se bem que a pesquisa Latinobarómetro 2017 detectou que, para 97% dos brasileiros, os políticos no Brasil exercem o poder em benefício próprio, despreocupando-se do bem comum. Em segundo lugar, a declaração patenteia também a decadência dos partidos políticos no País, que a pesquisa Lapop da Universidade Vanderbilt 2017 verificou terem atingido o pior grau de credibilidade como instituições, comparando todas as edições da pesquisa.

No comando do PT, Gleisi afirma que será necessária matança para realizar uma prisão determinada pela Justiça. Ou seja, instiga a militância do partido e a própria sociedade à beligerância.

Na mesma linha de degradação, há poucas semanas Antônio Carlos Rodrigues, o presidente nacional do PR, foi preso por corrupção. Ele não renunciou e a executiva do partido não exigiu sua renúncia. Com Aécio Neves não foi diferente no PSDB.

Vale lembrar que o PT foi fundado, em 1980, sob o comando de Lula, um retirante nordestino obstinado, uma ascendente liderança do mundo sindical que se tornou conhecida liderando greves no ABC na categoria dos metalúrgicos.

Em plena ditadura, o PT veio trazendo a promessa do novo, apresentando-se como um partido para representar a classe trabalhadora, a classe média, a intelectualidade, o mundo artístico, contra o coronelismo. Pregou a ética e apresentava algo aparentemente inovador na cena política brasileira.

Nas primeiras tentativas eleitorais, Lula falava em romper com o FMI e simplesmente não pagar a dívida externa, entre outros temas que amedrontavam o mercado. Em candidaturas seguintes o discurso foi se modificando e amoldando às diretrizes dos marqueteiros antenados às expectativas dos eleitores, até, finalmente, a chegada à Presidência, em 2002.

Mas o processo do mensalão, por fatos ocorridos já no primeiro mandato, logo revelaria que as promessas não correspondiam exatamente à prática concreta quando da conquista do poder, o que, aliás, Antônio Palocci, que pertencia ao núcleo duro petista, escancarou na histórica carta de saída, quando chegou a afirmar que o PT tinha métodos que lembravam seita religiosa. Aliás, não se tem notícia de punições do PT aos corruptos do partido condenados em definitivo pela Justiça.

Ali ficou claro que a prática política petista não era diferente da dos demais grupos que assumiram o poder, perdendo-se a oportunidade de mudar o rumo da História do País, que, infelizmente, logo se viu imerso em gravíssimas denúncias de corrupção por atos cometidos por pessoas ligadas ao PT e a muitos outros partidos, na maior investigação de que se tem notícia no mundo, em magnitude de valores ?" a Lava Jato, em que, por sinal, Gleisi é investigada.

No mensalão evidenciava-se a atrofia do Legislativo. Os deputados eram comprados com mesadas e quem legislava na prática era o Executivo, totalmente hipertrofiado, violando-se o princípio da separação dos Poderes, essencial no sistema republicano democrático.

Nesse contexto, Lula é acusado criminalmente em sete processos e num deles foi já condenado a uma pena de nove anos e seis meses de reclusão por lavagem de dinheiro e corrupção. Sua condenação, sem sombra de dúvida, fere a sociedade brasileira. Mas, por outro lado, representa o amadurecimento do sistema de Justiça brasileiro, que hoje não mais se verga a intocáveis.

Não é admissível que qualquer indivíduo, da direita ou da esquerda, reivindique a condição de intocável. Precisamo-nos livrar urgentemente do foro privilegiado, para a prevalência da igualdade de todos perante a lei.

Uma democracia sólida funciona com instituições sólidas, com valores sólidos, com respeito ao povo. O eixo fundamental das atenções é o ser humano, e não o Estado ou a Igreja, como era no tempo do Absolutismo, de direito divino dos reis.

Essa ideia dos intocáveis e da cultura dos privilégios remete aos tempos da monarquia absolutista, em que tudo era determinado pelos humores do rei.

Hoje temos Judiciário independente, Ministério Público forte e corajoso e a distribuição de justiça tem evoluído a cada dia, não se intimidando com as velhas raposas.

No próximo dia 24 haverá o julgamento da apelação de Lula pelo TRF de Porto Alegre. Ele não é melhor nem pior que ninguém. Deve ser julgado na forma da lei. E a condenação por essa instância poderá torná-lo inelegível, nos termos da Lei da Ficha Limpa, e levá-lo à prisão, nos termos de posição firmada no STF em fevereiro de 2016.

A declaração de Gleisi nega a essência da República. Nega o Estado Democrático de Direito. Chantageia a democracia. É uma afirmação no sentido de não se submeter o acusado ao império da lei. Como se dissesse: Lula é um ser que não pode ser preso jamais, é imune perenemente, quase como um deus, inalcançável pela lei.

Mas ainda há juízes no Brasil!

*Doutor em direito pela USP, é promotor de Justiça em São Paulo - atua na Procuradoria de Justiça de Direitos Difusos e Coletivos -, idealizador e presidente do Instituto Não Aceito Corrupção
Herculano
22/01/2018 10:29
DOSSIÊ FAZ MEIRELLES SEGURAR MP ILEGAL DAS AÉREAS, por Cláudio Humberto, na coluna que publicou nesta segunda-feira nos jornais brasileiros

O ministro Henrique Meirelles (Fazenda) recebeu discos com 10 gigabytes de documentos e dados sobre a ilegalidade das medidas do governo Dilma autorizando a compra direta de passagens às empresas aéreas sem licitação, pagando com cartão corporativo e dispensando-as de tributos na fonte e das certidões legais. As aéreas são as únicas fornecedoras que não são multadas por irregularidade fiscal, porque trataram de incluir isso no edital que negociaram com a turma de Dilma.

PODE ISSO?
?"rgãos de controle como AGU, Procuradoria da Fazenda Nacional, CGU etc pagaram passagens sem checar preços, nem exigir certidões.

DRENO DE DINHEIRO
O governo federal pagou R$290 milhões em passagens, em 2017, por acreditar que os preços eram menores, sem fazer verificação externa.

MALANDRAGEM
Cartão corporativo usado para pagar passagens, com CNPJ do Banco do Brasil, estimula pagamento a empresas com irregularidades fiscais.

INTERMEDIÁRIO
"Venda direta" é falácia, porque há a intermediação de uma empresa de tecnologia, Envision, que custa R$4,7 milhões por ano ao governo.

SUSPEITA: 80% DA MEGA-SENA NÃO TÊM VENCEDOR
Aumentaram as suspeitas envolvendo os sorteios da Mega-Sena pelo insustentável sigilo dos nomes dos ganhadores: levantamento indica que 80% dos sorteios de 2017 não tiveram ganhador. Dos 110 concursos no ano passado, apenas 22 tiveram acertadores (nas seis dezenas). A maioria dos prêmios sai após cinco acúmulos, em média. Em 2018, o primeiro pagamento saiu apenas no quarto sorteio.

SEM TRANSPARÊNCIA
Ao todo, foram 43 apostas vencedoras da Mega-Sena durante todo o ano passado, 17 só na Mega da Virada. Nenhum nome foi divulgado.

ERRO SUSPEITO
Na Mega da Virada houve três apostas vencedoras na mesma lotérica. A Caixa jura que o problema foi "validação" de um bilhete três vezes.

ISSO NINGUÉM SABE
Cerca de 10% do prêmio não são pagos nos sorteios de forma alguma e acumula até cinco vezes antes de ser pago em concursos específicos

APOIO À DERRUBADA DO VETO
Michel Temer não está contrariado com o movimento de deputados e empresários, e com apoio do presidente do Sebrae, Afif Domingos, pela derrubada do veto presidencial à Lei do Refis. Muito pelo contrário.

CORONELISMO TUCANO
Vencendo novamente em São Paulo este ano, o PSDB completará 28 anos à frente do maior Estado brasileiro. É a mais longa hegemonia da política brasileira, incluindo os célebres coronéis do Nordeste.

NOMES AOS BOIS
Em artigo na Folha, Floriano Marques Neto e Sebastião Tojal criticaram a presença do Tribunal de Contas da União em acordos de leniência de empreiteiras que roubaram a Petrobras. Assinaram como "professores", e omitiram que são advogados da OAS e da Andrade Gutierrez.

O BRASIL PRENDE POUCO
Dado citado pelo promotor de Justiça gaúcho Bruno Carpes desmonta a surrada alegação de "prendemos muito e prendemos mal": o Brasil é apenas o 59º lugar o número de presos por 100.000 habitantes.

QUE VERGONHA, SENHORES
Deveria envergonhar os defensores do chamado "direito penal mínimo", que pregam o esvaziamento das prisões, o fato de o Brasil sozinho responder por 12,5% de todos os homicídios do planeta.

OUTROS TEMPOS
Há 33 anos, o PT expulsava deputados que participaram em 1985 do Colégio Eleitoral que elegeu Tancredo. Hoje, petistas condenados por corrupção não são expulsos: viram heróis da quadri..., ops, do partido.

DEMORA POR QUÊ?
Dos 75 projetos de concessão previstos pelo governo para este ano, na área de infraestrutura, 11 estão sob análise do Tribunal de Contas da União. Somados, preveem investimentos de R$132,7 bilhões.

CAIXA PRIVATIZADA
O processo de privatização das loterias da Caixa Econômica Federal está atualmente na "fase de estudos". Isso quer dizer: está parado, esperando que seja esquecido nas gavetas da Esplanada.

PENSANDO BEM...
?são tantos cargos ocupados por indicação política que o slogan poderia ter mudado para "Vem afanar a Caixa você também"
Herculano
22/01/2018 10:27
OS POLÍTICOS ANTI-LULA BLEFAM OU DE FATO QUEM ENFRENTÁ-LO NAS URNAS, por Leandro Colon, diretor da sucursal de Brasília do jornal Folha de S. Paulo

Afinal, quem tem medo do ex-presidente Lula nas urnas? Sua presença como candidato à Presidência ameaça os adversários?

É curiosa a reação da elite política anti-Lula ao falar do futuro do petista após o julgamento do TRF-4, na quarta-feira (24), que vai delinear o enredo dos próximos capítulos da disputa pelo Palácio do Planalto.

Em entrevista à Folha, o presidente Michel Temer declarou que prefere uma derrota política de Lula ao risco de vê-lo ser transformado em vítima por um possível revés na Justiça.

"Se o Lula participar (da eleição), vai ser uma coisa democrática, o povo vai dizer se quer ou não", afirmou. "A vitimização não é boa para o país e um ex-presidente", disse.

O mesmo tom foi adotado por outras figuras de alto calibre e que terão relevância no xadrez eleitoral.

No discurso de posse na presidência do PSDB, em dezembro, o governador Geraldo Alckmin afirmou querer "derrotar Lula nas urnas". O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), disse recentemente à Folha: "Para o Brasil, é melhor Lula perder nas urnas".

Duas leituras naturais podem ser extraídas do palavreado acima:

1. Estão todos blefando. No fundo no fundo, morrem de medo de encarar o líder de intenção de voto nas pesquisas e adotam a retórica na base do "vamos ganhar dele nas urnas" para evitar a acusação de que estimularam o Judiciário a tirá-lo da corrida presidencial.

2. Ou, supostamente destemidos, preferem de fato enfrentar o petista cara a cara a lidar com a provável força que teria um fantasma de Lula rondando a campanha sob o discurso (populista e irreal) de vítima de um complô da elite para afastá-lo.

Mesmo com a condenação do ex-presidente, o PT promete ir até o fim na batalha jurídica por sua candidatura. O placar em Porto Alegre pode significar derrota importante para Lula, mas não vai impedi-lo de discursar por aí como candidato, nem que seja na condição de fantasma.
Herculano
22/01/2018 10:25
CÁRMEM LÚCIA SUSPENDE POSSE DE CRISTIANE BRASIL NO MINISTÉRIO, por Reinaldo Azevedo, na Rede TV

A presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), Cármen Lúcia, suspendeu a posse marcada para esta segunda-feira (22) da deputada federal Cristiane Brasil (PTB-RJ) para o comando do Ministério do Trabalho.

Em despacho na madrugada, durante o plantão judiciário, ela acolheu "parcialmente" reclamação apresentada pelo Movimento dos Advogados Trabalhistas Independentes (Mati).

O pedido era para derrubar decisão do vice-presidente do STJ (Superior Tribunal de Justiça), Humberto Martins, que suspendeu os efeitos de liminar concedida pelo juiz Leonardo da Costa Couceiro, da 4ª Vara Federal de Niterói, que impedia a posse.

Nas redes sociais, o grupo de advogados, que já havia ingressado com uma ação popular no Rio, chamou de "grande imoralidade" a nomeação.

De acordo com a nota envidada pela assessoria de imprensa do Supremo, Cármen Lúcia "suspendeu temporariamente a posse da deputada Cristiane Brasil até que venha ao processo o inteiro teor da decisão do STJ (proferida no sábado). Se for o caso, e com todas as informações, a liminar poderá ser reexaminada".

A equipe do presidente Michel Temer avalia agora se irá recorrer da decisão da ministra ou se pedirá ao PTB que indique um novo nome para o cargo.

Após a liminar do STJ, o Palácio do Planalto chegou a marcar a posse da ministra para as 9h desta segunda, exatamente para evitar a possibilidade de uma nova decisão barrando a cerimônia durante a segunda-feira (22).

O evento seria para poucas pessoas, na sala de audiências, local onde não é permitida a entrada da imprensa, de forma atípica.

Antes de ingressar com recurso no STJ, assessores do presidente chegaram a consultar a equipe da presidente do STF e tiveram o aceno de que ela manteria a posse suspensa caso o episódio chegasse a ela.

Faz duas semanas que a parlamentar tenta assumir o cargo, mas tem sido impedida pelo Poder Judiciário. A causa são condenações contra ela na Justiça do Trabalho.

A deputada foi condenada a pagar R$ 60 mil a um de seus motoristas. Em outro caso, fez acordo com um profissional, pagando R$ 14 mil, para evitar outra sentença.

Cristiane Brasil é filha do ex-deputado Roberto Jefferson, presidente nacional do PTB, que denunciou o esquema do mensalão à Folha, em 2005.

O partido faz parte da base de apoio do presidente Michel Temer e não abre mão da indicação ao Ministério do Trabalho.

O ministro Carlos Marun (Secretaria do Governo) chegou a comemorar a decisão do STJ neste sábado com um vídeo publicado nas redes sociais.

"O governo está contente pois poderemos contar com o trabalho da ministra nessa árdua luta de continuar fazendo com que o Brasil cresça para o bem de todos nós brasileiros", disse.

CONFLITO

A decisão de Cármen Lúcia é mais um capítulo de um embate entre o Executivo e o Judiciário na questão da nomeação de ministros.

Em fevereiro do ano passado, a nomeação do ministro Moreira Franco para a Secretaria-Geral da Presidência chegou a ser suspensa por juízes federais.

Os pedidos acolhidos argumentavam que a escolha de Temer tinha o objetivo de proteger Moreira, que passaria a ter foro privilegiado. Ele foi citado por executivos da Odebrecht que fecharam delação premiada com a PGR (Procuradoria-Geral da República). A AGU, porém, conseguiu reverter as decisões.

Dilma Rousseff (PT) também teve o mesmo obstáculo quando tentou nomear o ex-presidente Lula para ser ministro da Casa Civil, em março de 2016, pouco antes da votação do impeachment.

A escolha chegou a ser publicada no Diário Oficial, mas não foi em frente. Além de decisões da Justiça Federal, o ministro Gilmar Mendes, do STF, também impediu a posse do petista, dizendo entender que havia um desvio de finalidade na nomeação.

À época, o ministro ainda determinou que as investigações da Operação Lava Jato sobre o Lula ficassem sob a condução do juiz Sergio Moro, responsável pelas apurações do esquema de corrupção da Petrobras no Paraná.
Herculano
22/01/2018 10:22
LAVA JATO NÃO PERDOOU NENHUM LADO, MAS POLITICAMENTE Só A ESQUERDA PERDEU, por Celso Rocha de Barros, sociólogo, no jornal Folha de S. Paulo

Na próxima quarta (24) mais de um terço do eleitorado brasileiro deve ficar sem candidato na eleição presidencial. O terço em questão será o de sempre: os eleitores de Lula estão concentrados na população mais pobre, a turma que só tem a chance de fazer lobby de quatro em quatro anos. E Lula deve se tornar inelegível após a confirmação de sua sentença daqui a dois dias.

Há gente melhor que eu para discutir os aspectos jurídicos do caso. Mas isso aqui eu sei: as consequências podem ser bem piores do que os pobres terem que encontrar outro representante na democracia brasileira.

Não acho que a Lava Jato seja uma conspiração de direita. O pessoal de esquerda reclama muito de mim por isso. Por exemplo, o blog pró-Lula "O Cafezinho" escreveu um texto lamentando minha "ingenuidade" em acreditar na Lava Jato. Outro dia um amigo me disse que, no momento, até o Reinaldo Azevedo está à minha esquerda. O colega, como se sabe, anda xingando muito a operação (que às vezes lhe dá razão).

O foco da denúncia dos amigos petistas está errado.

As evidências não sugerem que a Lava Jato poupe os adversários da esquerda. Todos os maiores adversários do PT já foram denunciados, embora seja de se lamentar a falta de um braço paulista da investigação (semelhante ao braço carioca).

É quando você sai da esfera de responsabilidade dos investigadores, quando você olha para os efeitos da Lava Jato na luta política, que a história é outra.

Após o julgamento de quarta, a Lava Jato terá tido apenas dois grandes efeitos políticos: a queda do governo de Dilma Rousseff e a impossibilidade legal da candidatura de Lula. Vamos ver se vocês notam o padrão.

Eduardo Cunha foi preso, mas foi escandalosamente poupado (inclusive pela imprensa conservadora) até o dia em que garantiu a queda de Dilma. Se tivesse caído durante o processo de impeachment, a direita teria sofrido uma derrota. Não sofreu. Cunha só caiu quando se tornou politicamente irrelevante.

Há mais provas contra Michel Temer do que jamais houve contra qualquer outro presidente. Se tivesse caído ano passado, a direita teria sofrido uma derrota. Não sofreu. Se Temer for investigado, o será quando já tiver se tornado politicamente irrelevante.

Ninguém esperou Dilma Rousseff ou Luiz Inácio Lula da Silva se tornarem politicamente irrelevantes para responsabilizá-los pelo que quer que fosse.

Os investigadores da Lava Jato não pouparam nenhum lado. Mas, politicamente, só a esquerda perdeu durante a operação. A direita é mais poderosa que a esquerda, e conseguiu defender melhor seus acusados. A esquerda não tem imprensa, não tem Gilmar, não tem maioria parlamentar, não tem apoio empresarial. Que me desculpem os companheiros que se meteram em falcatruas: se era para roubar, escolheram o lado errado.

O cenário de pesadelo para a democracia brasileira é Lula ser o único condenado politicamente relevante da Lava Jato. Não procurem um condenado da direita que "compense" Lula; isso não existe. Cunha depois do impeachment? Temer depois do mandato? Aécio a esta altura do campeonato? Por favor. Se Lula cair, é melhor cair todo mundo, ou esta história terá sido muito, muito feia.

Podemos torcer, mas, sejamos honestos: está com cara de que vai cair todo mundo?
Herculano
22/01/2018 10:20
A BATALHA DE PORTO ALEGRE, por Denis Lerrer Rosenfield, filósofo, nos jornais O Globo e O Estado de S. Paulo

O divórcio entre o PT e a democracia representativa se revela na imagem da 'morte'

Longínqua é a época em que o PT se vestia de defensor de outra forma de participação política, procurando seduzir não somente os incautos do Brasil, mas também os do mundo. A soberba já naquele então desconhecia limites, mas apresentava-se com as sandálias da humildade.

Era o mundo da dita "democracia participativa" e da mensagem, no Fórum Social Mundial, de que um "outro mundo era possível". Porto Alegre tornou-se o símbolo que irradiava para todo o País, e para além dele, transmitindo a imagem de uma grande solidariedade, de uma paz que o partido encarnaria.

Para todo observador atento, contudo, a farsa era visível. Porém foi eficaz: levou o partido a conquistar três vezes a Presidência da República. Mas deixando um rastro de destruição, com queda acentuada do PIB, inflação acima de dois dígitos, mais de 12 milhões de desempregados e corrupção generalizada. Dirigentes partidários foram condenados e presos a partir do "mensalão" e do "petrolão". Antes, o partido tinha um currículo baseado na ética na política; hoje, uma folha corrida.

No dito orçamento participativo das administrações petistas de Porto Alegre já se apresentavam o engodo, a enganação e, sobretudo, o desrespeito à democracia representativa, tão ao gosto dos petistas atuais. Reuniões de 500 pessoas em bairros da cidade, nas quais um terço dos participantes era constituído por militantes, decidiam por regiões inteiras de mais de 150 mil ou mesmo 200 mil habitantes. Impunham uma representação inexistente, numa espécie de autodelegação de poder. O partido tudo instrumentava, arvorando-se em detentor do bem, o bem partidário confundido com o público.

Num Fórum Social Mundial, os narcoterroristas das Farc foram recepcionados no Palácio Piratini, sob o governo petista de Olívio Dutra. Lá, numa das sacadas do prédio, em outra ocasião, discursou, com sua arenga esquerdizante, Hugo Chávez, líder do processo que está levando a Venezuela a um verdadeiro banho de sangue, com a miséria e a desnutrição vicejando como uma praga ?" a praga, na verdade, do socialismo do século 21.

Eis o "outro mundo possível", louvado pelos atuais dirigentes do PT. A vantagem hoje é a de que a máscara caiu. O partido, pelo menos, tem o benefício da coerência.

A máscara caindo mostra com mais nitidez que a democracia representativa nada vale e que a violência é o seu significante. A mensagem de paz tornou-se mensagem de sangue. A presidente do partido não hesitou em afirmar que a prisão de Lula levaria a "prender" e a "matar gente". A tentativa de conserto posterior nada mais foi do que um arremedo.

Conta o fato de ter ela expressado uma longa tradição marxista-leninista de utilização da violência, da morte, acompanhada, segundo essa mesma tradição, de menosprezo pelas instituições democráticas e representativas, na ocorrência atual, sob a forma de desrespeito aos tribunais. A democracia, para eles, só tem valor quando os favorece. Desfavorecendo-os, deve ser liminarmente deixada de lado. Mesmo que seja sob a forma jurídica de pedidos de liminares, para que a luta continue.

Não sem razão, contudo, o PT e seus ditos movimentos sociais consideram este dia 24 como decisivo, o de seu julgamento. Para eles, tal confronto se exibe como uma espécie de luta de vida e morte. Nela, ao jogar-se a candidatura de Lula à Presidência da República e caindo, em sua condenação, o ex-presidente na Lei da Ficha Lima, está em questão a "vida" do candidato e do seu partido. Este, aliás, escolheu identificar-se completamente com seu demiurgo, selando com ele o seu próprio destino. O resultado é uma batalha encarniçada, o seu desenlace constituindo-se numa questão propriamente existencial.

A imagem da "morte", segundo a qual os militantes fariam sacrifício por seu líder, por não suportarem a prisão dele, nada mais faz do que revelar o profundo divórcio entre o partido e a democracia representativa, com as leis e suas instituições republicanas. Pretendem sujar a Lei da Ficha Limpa com o sangue de seus seguidores.

Assim foi na tradição leninista: os líderes mandavam os seguidores para o combate e a morte, permanecendo eles vivos; e depois, uma vez conquistado o poder, usufruindo suas benesses. O sangue do ataque ao Palácio de Inverno e a vitória da revolução bolchevique levaram aos privilégios da Nomenklatura, dominando com terror um povo que veio a ser assim subjugado.

Segundo essa mesma lógica "política", sob a égide da violência, Lula e os seus dividem apoiadores e críticos nomeando os primeiros como "amigos" e os segundos, "inimigos". Sua versão coloquial é a luta do "nós" contra "eles", dos "bons" contra os "maus", dos "virtuosos" do socialismo contra os "viciados" pelo capitalismo. Ora, tal distinção, elaborada por um teórico do nazismo, Carl Schmitt, é retomada por esse setor majoritário da esquerda, expondo uma faceta propriamente totalitária. Lá também a morte, o sangue e a violência eram os seus significantes.

O desfecho do julgamento do dia 24, estruturante da narrativa petista, será vital para o destino do partido. Em caso de condenação, o que é o mais provável, o partido continuará correndo contra o tempo, numa corrida desenfreada por meio de recursos jurídicos, procurando esgotar os meios à sua disposição do Estado Democrático de Direito.

Assim fazendo, tem como objetivo produzir uma instabilidade institucional que venha a propiciar-lhe a reconquista do poder, produzindo um fato consumado numa eventual eleição sub judice. Seria consumar a morte da democracia representativa, solapando seus próprios fundamentos.

Resta saber se o partido conseguirá, para a concretização de seu projeto, realizar grandes manifestações de rua. Se lograr, a democracia representativa correrá sério risco. Se malograr, o partido estará fadado a divorciar-se ainda mais da sociedade. A narrativa soçobraria na falta de eco.
Herculano
22/01/2018 10:18
COMO MARIA ENGRAVIDOU SEM RELAÇõES COM SEU MARIDO, JOSÉ? por Luiz Felipe Pondé, filósofo, no jornal Folha de S. Paulo

Afinal, como Maria apareceu grávida se não tinha ainda tido relações sexuais com seu marido prometido José, o carpinteiro?

Essa resposta sempre foi simples: o anjo avisou a ela que Deus a havia escolhido para ficar grávida sem ter feito sexo porque seu filho seria o Messias, e sua concepção seria "sem pecado", isto é, sem sexo com o marido.

Mas essa resposta está caindo de moda entre cristãos cultos. E esse processo é uma "constante cultural" desde o século 19.

Antes de tratarmos desse tema sério, uma pequena anedota: algum tempo atrás, tive a oportunidade de ouvir um sujeito que se dizia a reencarnação de Jesus. Vive no Brasil. Segundo o que ele explicou na "palestra" que ministrava, sua mãe Maria e seu pai José tinham de fato transado, mas Deus os havia posto em condição sonambúlica, por isso depois disseram que nunca tinham transado, e "inventaram" a história da concepção sem pecado, por intervenção direta de Deus sobre os óvulos de Maria.

Essa "explicação", para ele, era "científica" e "racional", e ele tentava, assim, agradar à sensibilidade cética da plateia. Mas nosso Jesus "fake", com essa história trôpega, não estava tão distante assim de uma sensibilidade de raiz hegeliana de meados do século 19 até hoje.

Sim, devo minhas desculpas. Misturei crenças "new age" (Jesus reencarnado) com gente de peso como o filósofo alemão G. W. F. Hegel (1770-1831). Mas tenho um motivo pra isso.

Em 1835, David Strauss (1808-1874), um hegeliano da chamada "escola histórica de Tübingen", na Alemanha, publicou um livro chamado "A Vida de Jesus", que criou uma tendência "científica" nos estudos teológicos protestantes liberais, atingindo também os católicos e os judeus na sequência.

O momento era de enorme importância: para você ter uma ideia, figuras como Karl Marx estavam em formação nesse mesmo caldo cultural, mas esse não é nosso assunto aqui.

A propósito: a biografia "Karl Marx, Grandeza e Ilusão" de Gareth Stedman Jones (Cia. das Letras), é uma pérola, não só se você quiser conhecer melhor essa figura essencial que foi Karl Marx, mas também para entender o contexto social, cultural, religioso e político da época.

Não chega a tanto, mas se aproxima em densidade da descrição do painel cultural russo da época descrita na biografia em cinco volumes que Joseph Frank dedicou a Dostoiévski (1821-1881), no Brasil, publicada pela Edusp. Essa biografia de Marx é fundamental para quem quer entender o próprio, sua formação e sua época. Mas voltemos a Jesus.

O trabalho de Strauss visava "curar" o evangelho do "sobrenaturalismo" ignorante do passado. Para Hegel e seus discípulos, o cristianismo era a religião mais avançada porque encarnara Deus num homem e, com isso, indicara que Deus está na história, e nela deve ser encontrado, porque o "Espírito Absoluto", Deus, "é" a história e nossa "autoconsciência".

Com isso, para Strauss, a tarefa era encontrar o Jesus histórico e não o Jesus mítico, "fantástico", muito ao sabor dos conservadores evangélicos, que adoram mágicas e mulheres grávidas por milagre.

É verdade que gente de peso, tanto entre cristãos como judeus (não vou citar mais ninguém para não encher sua paciência no início do ano, ok?), se levantará contra essa tendência "naturalizante" ou "historicizante" de Jesus e da Bíblia como um todo.

Mas, o fato é que tanto o cristianismo quanto o judaísmo pós-Hegel, quando se querem "cultos" ou "progressistas", pensam seu ícones em chave histórica desmitologizada.

E aí chegamos ao debate "culto" sobre como afinal uma menina (Maria) ficou grávida sem ter transado com o marido. Para a tradição "fundada" por Hegel e Strauss, as explicações sempre devem buscar o "racional".

Hoje se fala, por exemplo, que ela foi violentada por soldados romanos, e que seu marido, José, sem nenhuma gota de machismo em seu sangue, a tomou como esposa e assumiu como seu filho o fruto da violência sexual.

Outros, mais radicais, que ela simplesmente traiu seu marido, e que ele, "#superantimachista", a aceitou grávida. Eis os santos pós-modernos

Deixe seu comentário


Seu e-mail não será divulgado.

Seu telefone não será divulgado.