Indignação e revolta em relação aos atendimentos do Hospital de Gaspar - Jornal Cruzeiro do Vale

Indignação e revolta em relação aos atendimentos do Hospital de Gaspar

10/05/2019

A população gasparense sonha com o dia em que a saúde pública será de qualidade e atenda com eficácia a demanda de todo o município. Até que a cidade Coração do Vale alcance o que tanto almeja, algumas precariedades envolvendo o Hospital Nossa Senhora do Perpétuo Socorro e o descontentamento da comunidade seguem sendo registradas.

Uma família moradora da região Arraial dos Claudinos, próxima à divisa com o bairro Macuco, passou por umaituação inconveniente ao procurar a Casa de Saúde. Na noite de 2 de maio, a costureira Eliane Zimmermann, juntamente com sua nora, levou a neta de dois anos ao hospital. “Ela estava passando mal e, como temos Unimed, iríamos à Blumenau. Mas, com a febre alta e tanto vômito, resolvemos parar em Gaspar para ver se tinha pediatra”, conta.

De acordo com elas, ao chegar, se depararam com uma grande fila. “Uma multidão esperava para ser atendida. Acho que tinha umas 100 pessoas pro lado de fora. A recepção também estava cheia. Todos amontoados”, descreve Eliane. Diante disso, ela deixou a criança com a mãe na área externa e entrou para pedir informações. “Perguntei se tinha algum médico disponível para dar atenção para a menina, mas tinha só um Clínico Geral para atender todo mundo”, completa.

Assustada com a realidade do Hospital de Gaspar, Eliane questionou os recepcionistas sobre sugestões de médicos particulares que atendessem durante a noite na cidade. “Falei que tinha plano de saúde e que poderia pagar no dinheiro e queria uma indicação ou telefone. Me responderam que não tinham e que, infelizmente, eu teria que esperar”. A família então foi para Blumenau, onde o atendimento aconteceu com rapidez.

Eliane afirma estar indignada com a situação. “Ao sair, ouvimos um homem falar que a gente ainda tinha a opção de pagar, mas que ele e a maioria daquelas pessoas que estavam na fila, não”. A frase mexeu com a costureira, que se solidariza com os demais pacientes: “Aquele povo deve ter virado a noite lá. Eu podia fechar a minha boca e não arrumar confusão. Mas eu quero fazer a diferença e cobrar dos políticos mais médicos”.

 

"Eu podia fechar a minha boca e não arrumar confusão. Mas eu quero fazer a diferença e cobrar dos políticos mais médicos”.

 

 

 

 

 

 

 

 

Final infeliz

O depoimento de Eliane chama atenção e dá margem para diversas discussões. A principal delas diz respeito à procura pelo diagnóstico correto que possibilite o início de um tratamento eficaz que cure ou, se não for possível, ao menos devolva parte da qualidade de vida ao paciente.

Para analisar o atendimento na recepção e informar com mais propriedade e clareza, a reportagem do Cruzeiro do Vale foi até o Hospital Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. Por volta das 10h30 de terça-feira, 7 de maio, os jornalistas se depararam com uma família claramente abalada, já sem forças, às lágrimas.

Parentes de Marcos Antônio da Silva (foto), internado desde o dia 27 de abril, enfrentavam o luto. Mãe, filha, irmãos e sobrinhas lidavam com a notícia da morte de um homem prestes a completar 52 anos. De acordo com Adriana Maria da Silva, irmã da vítima, ele foi levado ao hospital com suspeita de úlcera e não voltou mais.

Conforme ela conta, Marcos passou mal ao sair do trabalho e reclamava de muita dor. Vizinhos chamaram o Corpo de Bombeiros e ele foi encaminhado ao Hospital de Gaspar. “Foi atendido e disseram que podia ser pedra nos rins e estavam avaliando se não era apendicite. Ficou nesse empurra-empurra. Só na quinta-feira [2 de maio] veio um cirurgião e disse que precisavam operar. E, mesmo naquele estado, sem saber o que era, continuavam o alimentando”, conta.

Ainda segundo a família, os batimentos cardíacos de Marcos estavam mais rápidos do que o normal. “Um outro médico chegou e disse que meu irmão precisava de uma cirurgia urgente, pois estava morrendo. Disseram que demorou mais tempo para limpar ele, que estava todo infeccionado, do que para fazer o resto”, detalha Adriana. Abalada, ela comenta que tudo poderia ter sido evitado. “No sábado já deveriam ter feito uma bateria de exames. Se não dão conta, deveriam ter mandado para Blumenau”.

No momento da entrevista, cerca de uma hora após o falecimento de Marcos, a família ainda não sabia ao certo a causa da morte. Mas, acreditavam ter sido uma úlcera.

“Ela entrou com suspeita de pedra na vesícula e saiu dentro de um caixão”

Ângela Maria Tanholi Schramm faleceu na manhã de 5 de maio, aos 51 anos, no Hospital Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, onde esteve internada desde o dia 28 de abril. O marido, Sérgio Schramm, exterioriza a dor que sente pela perda. “Ela entrou com suspeita de pedra na vesícula e saiu dentro de um caixão”.

De acordo com a família, o problema de Ângela, aparentemente, não era grave, mas foi se tornando maior com o passar dos dias em que passou hospitalizada. O caso deixou a todos preocupados. “Ela estava falando até a manhã de sábado [4 de maio]. Depois, foi entubada. Todos os parentes começaram a tentar agilizar uma vaga em outra UTI da região. Afinal, se o hospital daqui não tem estrutura, porque não transferiu logo?”, questiona Sérgio.

 

 

 

 

 

Direção do hospital se posiciona

Diretor administrativo do Hospital Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, Elson Marson Junior esclarece que está ciente do falecimento dos pacientes Ângela e Marcos, mas garante que tudo foi feito para evitar o pior. “Nós temos dificuldades financeiras. Porém, a equipe é excelente, está em constante treinamento e, sim, fez o possível para salvá-los”.

Ele ressalta que a causa da morte e demais detalhes sobre os casos são secretos. “Tudo é guardado com sigilo médico por uma questão de ética e respeito aos pacientes. Inclusive, nem eu tenho acesso ao prontuário. A família precisaria autorizar”, completa Elson. Quanto a não transferência, o diretor diz que o procedimento foi aberto e planejado corretamente, mas Gaspar dependia de outros fatores para efetivar a mudança.

A gerente de Enfermagem do Hospital de Gaspar, Maria Gilvani Kinel, também destaca que todos os casos são tratados com seriedade. “Os atendimentos exigem de nós e também de fatores externos, no caso de transferências, por exemplo. A gente perde, infelizmente. Mas nós também salvamos muitas vidas”.

Sobre a situação relatada por Eliane Zimmermann, a diretoria do hospital pede desculpas. “A gente lamenta não ter dado a assistência necessária. É imprescindível que, na próxima vinda, você se identifique na recepção, peça para falar com algum enfermeiro e aguarde pelo atendimento. Se quiser um esclarecimento maior, pode vir conversar conosco. Estamos à disposição”.

Ao longo do dia 2 de maio, data em que Eliane levou a neta ao hospital, foram registrados 133 atendimentos no Pronto Socorro. Além disso, 55 pessoas passaram pelo ambulatório e sete pelo centro obstétrico. Foram registradas ainda quatro cirurgias, a presença de 27 pacientes internados e um nascimento.

A orientação da diretoria é que qualquer pessoa que procure o hospital preencha a ficha na recepção e sigam as orientações dos recepcionistas e enfermeiros, pois facilita a organização. Dessa forma, os pacientes passam por uma triagem, momento em que são verificadas a pressão, temperatura e frequência respiratória. A prioridade vai para quem apresentar dores no peito, febre alta, diabetes e também crianças.

 

“Nós temos dificuldades financeiras. Porém, a equipe é excelente, está em constante treinamento e, sim, fez o possível para salvá-los”.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Edição: 1900

 

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