A história de Gaspar não é das mais antigas. Suas páginas começaram a ser escritas há pouco mais de 83 anos, quando a cidade se emancipou politicamente. Desde então, a narrativa foi construída por grandes personalidades. Alguns se destacaram pelo governo que fizeram, outros por meio da cultura que trouxeram. Já Alfons Sieber marcou o município por sua fé e seus valores religiosos. Ele é o Frei Godofredo.
Nesta semana, dois importantes acontecimentos fizeram com que os gasparenses se lembrassem de Frei Godofredo com muita saudade: os 25 anos do seu falecimento e os 18 anos da vinda de seus restos mortais para Gaspar. Ambos acontecimentos tem data celebrada em 12 de outubro.
Passados 25 anos de sua morte, o Cruzeiro do Vale relembra a trajetória de Frei Godofredo por meio do livro ‘Frei Godofredo e Gaspar: o homem, o franciscano, o legado’, escrito pela historiadora Leda Maria Baptista, escrito em outubro de 1999.
Nascido em 12 de agosto de 1902 na cidade de Dietingen, na Alemanhã, Alfons Sieber cresceu com interesse na vida religiosa. Filho de agricultores pobres, ele ajudou no sustento da família desde cedo. Na adolescência, começou a trabalhar como pedreiro e auxiliar de ferreiro numa metalúrgica. Aos 21 anos ingressou no seminário da Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil, na Bélgica.
“Desde pequenino, sempre quis ser padre. Li num jornal uma propaganda da Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil, que procurava jovens com vocação sacerdotal”, disse Frei Godofredo em 1983 para o jornal Tribuna de Petrópolis. A entrevista falava sobre o início da sua caminhada religiosa.
Em 1927, Alfons embarcou para o São Francisco do Sul, no Brasil. Dois anos mais tarde, ele se tornou noviço em Rodeio, onde fez seu voto religioso e adotou o nome de Frei Godofredo. Ele ainda cursou Filosofia e Teologia em Curitiba e, aos 35 anos, foi ordenado padre na igreja Sagrado Coração de Jesus, em Petrópolis, no Rio de Janeiro.
Na mesma cidade, em 1934, Frei Godofredo celebrou sua primeira missa e, no ano seguinte, tirou licença para ser vigário. Logo se seguida, ele assumiu a Paróquia de Palhoça. Seu primeiro contato com Gaspar foi em 11 de janeiro de 1938, quando o religioso chegou com a missão de ser pároco e guardião. Por aqui, ficou dez anos. Passado esse período, Frei Godofredo voltou ao Rio de Janeiro, quando foi eleito Definidor da Província.
Ele ainda passou por cidade diversas cidades paulistanas, como Guaratinguetá, Água de Lindóia, São João dos Campos e Aparecida. Seu retorno para Gaspar aconteceu em 1962, quando assumiu a Paróquia. Nesta mesma época, foi agraciado com o título de ‘Cidadão Gasparense’. Logo depois, se despediu da cidade e embarcou em sua nova missão: foi para Israel em maio de 1968.
Devido a problemas de saúde, Frei Godofredo pediu dispensa dos serviços de capelão para permanecer no convento. Quando melhorou, passou a atender confissões, benzer casar e levar comunhão. Ele celebrou 50 anos de vida religiosa em São Paulo, no dia 5 de janeiro de 1979, mesmo ano em que recebeu outro título. Desta vez, foi nomeado ‘Professor emérito, por estudantes de Teologia em Petrópolis’.
Comemorou seus 80 anos de vida ao lado da família em viagem à Europa em 1982. Dez anos mais tarde, em 6 de agosto, fez sua última celebração para o público. No dia seguinte sofreu um derrame e só depois de uma semana voltou aos seus aposentos no convento. Frei Godofredo faleceu no Hospital Santa Tereza, no dia de Nossa Senhora Aparecida, 12 de outubro.
O religioso foi sepultado no dia 13, no cemitério do Convento de Petrópolis. Seus restos mortais foram trazidos para Gaspar em 1999, onde permanecem até hoje guardados em uma sala na Igreja Matriz São Pedro de Apóstolo.
A construção da Igreja Matriz São Pedro Apóstolo teve início em 19 de agosto de 1942, quando Frei Godofredo estava em Gaspar. O religioso coordenou os trabalhos, que eram realizados manualmente, em forma de mutirão, e seguiam um cronograma.
A primeira fase da construção foi marcada pelo transporte das pedras para o fundamento e pelo estudo do projeto arquitetônico. Essa etapa se estendeu até 1945, quando foram definidos detalhes de colunas, torres, presbitério, telhado e portas.
A primeira missa celebrada na igreja, mesmo antes de ser concluída a obra, aconteceu em 1947, com a festa do Senhor Bom Jesus. No início do ano seguinte, as missas dominicais passaram a acontecer na Matriz. Em 1948, Frei Godofredo foi transferido para Concórdia, mas o espírito participativo do povo não deixou que a obra fosse paralisada. A majestosa igreja ficou pronta para inauguração no dia 3 de maio de 1956.
Antigamente, a Paróquia São Pedro Apóstolo promovia quatro festas populares: São Sebastião (20/01), Nossa Senhora da Gruta (03/05), São Pedro (29/06) e Bom Jesus (06/08). Para animar as celebrações, era necessário contratar músicos de outras cidades. e foi pensando nessa necessidade que Frei Godofredo teve uma ideia: ele fundou o Clube Musical São Pedro. Com a ajuda de gasparenses e empresários que colaboram financeiramente, foi possível adquirir instrumentos. “Que os músicos sejam concisos da sua dignidade e importância de apresentar bela música para solenizar acontecimentos religiosos e sociais, enobrecendo s sentimentos humanos e fraternos”, disse Frei Godofredo na época.
Onde hoje existe o famoso Salão Cristo Rei, até 1965 havia uma construção velha, que oferecia insegurança e perigo à comunidade. Com um olhar para o futuro, Frei Godofredo pediu que fossem realizadas melhoria no local com uma mão-de-obra técnica, contratada por meio de mutirão. O local então deu lugar para um pátio, salas de aula, auditório e um grande salão.
Frei Godofredo tinha um grande sonho: construir uma escola que formasse jovens para uma profissão em Gaspar. Foi diante desse objetivo que aproveitou o encontro que teve com Ivo Silveira, candidato a governador na época, numa comitiva para inaugurar o Grupo Escolar Ivo D’Aquino. O religioso pediu que o político pensasse com carinho na construção de outra instituição de ensino na cidade. Foi então que surgiu o Colégio Frei Godofredo, que inicialmente tinha como sede o Salão Cristo Rei.
Quem entra na Igreja Matriz São Pedro Apóstolo pela entrada lateral próxima da secretaria paroquial logo vê a imagem de Frei Godofredo. O busto está exposto como forma de homenagear o religioso que tanto contribuiu com o desenvolvimento da cidade.
Para marcar os 25 anos da morte de Frei Godofredo e os 18 anos da vinda de seus restos mortais para Gaspar, a Igreja Matriz São Pedro Apóstolo recebe uma celebração especial neste sábado. A missa inicia às 19h e será celebrada pelo pároco, frei Paulo Moura. Os momentos de oração terão a participação do corpo docente e alunos do Colégio Frei Godofredo, também funcionários do hospital e membros da paróquia. Além disso, haverá na igreja uma exposição fotográfica sobre a trajetória do religioso. “Frei Godofredo foi um homem trabalhador e muito amado pelo povo. Deixou suas marcas como forma de gratidão”.
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