Por Jean Laurindo
O reajuste da tarifa de ônibus em Gaspar trouxe à tona o questionamento sobre a forma mais vantajosa de se deslocar no dia a dia, para ir ao trabalho ou à escola. A reportagem do Cruzeiro do Vale ouviu o economista Nazareno Schmoeller, professor da Furb, para tentar calcular qual a melhor opção de deslocamento para cada trajeto percorrido pelos moradores gasparenses.
Com o novo valor de R$ 3, o usuário do transporte coletivo gasta R$ 6 para ir e voltar do trabalho, independentemente da distância. De carro, o indivíduo percorre um trajeto de 10 quilômetros ao custo médio de R$ 4,10, segundo cálculos do economista. Neste caso, a diferença entre o custo de deslocamento de ônibus é 46% maior do que o do carro.
Já num percurso de 20 quilômetros ? 10 quilômetros de ida e 10 de volta ?, o custo estimado para deslocamento de carro salta para R$ 7,80, considerando R$ 5,20 relativos a dois litros de gasolina e o restante para custos fixos do carro. De ônibus, o valor permanece R$ 6, o que torna neste caso o transporte coletivo mais vantajoso. ?Apesar disso, normalmente nossas distâncias de casa ao trabalho não ultrapassam cinco quilômetros?, pondera o economista.
Para calcular o custo de deslocamento de carro, Schmoeller usou como parâmetros um veículo que percorra 10 quilômetros com um litro de combustível e fixou o valor do litro da gasolina em R$ 2,70, média atual encontrada nas bombas. Além disso, acrescentou à conta 50% do valor do litro de combustível para custear despesas extras dos automóveis como manutenção, seguro e documentação.
Resultado
A conclusão do economista é de que, para trechos de até sete quilômetros ? 14, se consideradas ida e volta ?, o carro é a opção mais vantajosa. A distância equivale ao trajeto percorrido por alguém que vá da região do Paraíso dos Pôneis, no bairro Bela Vista, até a altura da Plasvale, no bairro Santa Terezinha, ou de um local próximo à Bunge, no bairro Poço Grande, até a rua Prefeito Leopoldo Schramm, no bairro Gaspar Grande. Acima disso, o ônibus passa a ser a opção mais vantajosa para o deslocamento. ?É uma questão matemática clara?, assegura o economista.
O economista Nazareno Schmoeller, professor da Furb, elaborou os cálculos que apontam a opção mais vantajosa de transporte em cada caso, mas ele aproveita para fazer algumas ressalvas. ?Além do combustível e de toda a parte de seguro obrigatório, IPVA e manutenção, há outras questões econômicas importantes como a depreciação do carro e o valor que você ganharia se tivesse aplicado o dinheiro com o qual comprou o carro. Chamamos isso de custo de oportunidade. Observando apena esse lado financeiro, o carro não é vantagem. Mas é claro que há toda a questão do conforto e da comodidade que o automóvel oferece?, esclarece.
Porém, em boa parte dos casos o carro é visto como sonho de consumo e já está na garagem, com os custos anuais sendo cobrados. Nesse caso, Schmoeller revela que é melhor usá-lo do que optar pelo transporte coletivo. ?No fundo, o valor do carro vai se depreciar igual. É a mesma coisa que guardar o dinheiro debaixo do colchão. Com a inflação, o dinheiro vai perdendo poder de compra. Se for para usar apenas no final de semana, do ponto de vista econômico seria melhor pegar um táxi?, assinala.
Para o economista, o transporte público oferecido no país é muito caro e isso não é exclusividade de Gaspar. No caso gasparense, aliás, ele acredita que os custos da empresa que administra o serviço devem ser maiores do que em outras cidades com malhas viárias mais amplas. ?Em Gaspar, é preciso manter uma estrutura cara para fazer linhas que talvez não atendam a tantas pessoas. Numa cidade como Joinville, por exemplo, os ônibus podem estar sempre rodando e deslocando mais passageiros. Em função disso, comparativamente a tarifa em Gaspar pode não ser tão cara?, explica.
Do ponto de vista do trabalhador, porém, ele reforça que a tarifa é cara e representa muito da renda mensal. Com casos em que o carro se torna uma opção mais vantajosa, uma das consequências acaba sendo mais congestionamentos e menos adesão dos usuários. ?A tarifa de ônibus no Brasil é muito tributada. As empresas costumam ser as maiores arrecadadoras de ISS dos municípios. Uma solução seria que o serviço fosse administrado por associações sem fins lucrativos, o que permitiria reduzir os impostos e baixar em até 30% o valor?, sugere.
Distância entre a casa e o local de trabalho: cinco quilômetros
Custo diário para ir e voltar:
De carro: R$ 4,10 (R$ 2,70 de combustível + 50% para custos de manutenção e documentação)
De ônibus: R$ 6,00 (uma passagem de ida e uma de volta)
Mais vantajoso: carro
Diferença: 46%
Distância entre a casa e o local de trabalho: 10 quilômetros
Custo diário para ir e voltar:
De carro: R$ 7,80 (R$ 5,20 de combustível + 50% para custos de manutenção e documentação)
De ônibus: R$ 6,00 (uma passagem de ida e uma de volta)
Mais vantajoso: ônibus
Diferença: 30%
Se em distâncias curtas o carro individual já pode se tornar uma opção vantajosa, a união com mais pessoas pode fazer com que os benefícios se multipliquem. Maiara Marquioli Martins, 18 anos, enfrenta uma jornada dupla durante a semana, quando divide o tempo entre o trabalho no Sindicato dos Trabalhadores da Indústria do Vestuário de Gaspar e o curso pré-vestibular que frequenta à noite, em Blumenau. Moradora do bairro Macuco, ela cita não só o valor da passagem, mas também as poucas opções de horários na região em que mora como fatores que dificultam a adesão ao transporte público.
Todos os dias ela acorda cedo e parte para o trabalho de carona com a vizinha Liane Andreia da Cunha, 33 anos, funcionária do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Gaspar. A distância entre os locais de trabalho das duas não ultrapassa 300 metros e elas resolveram unir esforços na hora de ir ao trabalho. ?Ajudo semanalmente nas despesas com combustível, mas mesmo que houvesse linhas de ônibus próximo a minha casa nos horários que preciso, sairia mais caro?, acredita.
A atitude é uma das formas de conseguir se deslocar para o trabalho com eficiência, sem abrir mão do conforto e da economia. Estimulada mundo afora sob o nome de carona solidária, a iniciativa é incentivada em outros países inclusive com faixas de trânsito especialmente dedicadas a veículos que transportam mais de uma pessoa. No Brasil, a adesão ainda é baixa, mas ela pode se tornar numa forma de fugir dos preços ou das condições do transporte coletivo, sem prejudicar situações já graves como congestionamentos ou meio ambiente.
A ida ao trabalho não é o único momento do dia em que Maiara opta por outras formas de deslocamento. Ao final do expediente, ela segue de ônibus para Blumenau, onde permanece até as 22h20 na aula. Na volta para Gaspar, retorna de carona com uma amiga até o Centro de Gaspar, onde encontra um vizinho que divide o carro com ela no retorno para casa. ?É bom para quem precisa da carona, mas é bom também para o dono do carro, que divide o valor da gasolina e para o trânsito, já que são menos carros nas ruas. É bom pra todo mundo?, ensina a estudante.
A companheira de trabalho de Maiara, Rosana Quintino Pereira Fantoni, 35 anos, admira a atitude da colega e também se diz adepta da estratégia. ?Quando saio do trabalho também combino com as amigas e dividimos os custos para ir a Blumenau. Só tem lado bom?, destaca.
Após o reajuste na tarifa de ônibus de Gaspar, surgiu na internet um abaixo-assinado cobrando melhorias no transporte coletivo gasparense para justificar o reajuste. O autor da ação, Felipe Pawlowski da Costa, conta que a ideia surgiu após saber do reajuste e constatar que alguns bairros ainda têm poucos horários de ônibus disponíveis. ?Se compararmos com Blumenau, o valor da passagem não vale a pena em função das poucas linhas e horários em alguns bairros?, assinala. É possível aderir ao abaixo-assinado acessando: www.abaixoassinado.org/abaixoassinados/10235.
Edição 1443

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