
O fim de semana foi de surpresas e decepções para a família de Olívia Bottcher, 58 anos. A mulher levou um grande susto ao ver que os dois jazigos que a família mantém no Cemitério Municipal de Gaspar, no bairro Santa Terezinha, foram utilizados por outras famílias.
Olívia comprou os espaços há 21 anos, em novembro de 1990, e desde então realizava a manutenção e limpeza do local. ?Minha mãe teve um infarto e faleceu naquela época. Ela sempre quis um jazigo, por este motivo decidimos comprá-los?, diz a mulher de 58 anos. Na ocasião, Olívia adquiriu o jazigo da mãe e mais dois espaços, por meio da empresa Marmoraria Granivale e até hoje possui o contrato, o qual traz a informação de que ela realmente pagou pelos espaços.
Além de sua mãe, outros quatro familiares estão enterrados ao lado dos jazigos. ?Eles estavam lacrados. Ninguém tem o direito de mexer na nossa propriedade, nem mesmo a Prefeitura. É inaceitável?, destaca Olívia. Segundo Sônia Regina Pereira, 38 anos, filha de Olívia, um homem foi enterrado no local no sábado, 16, e uma mulher no domingo, 17. ?Chegamos a falar com essas famílias, e elas nos disseram que até acharam estranho o lugar estar limpo e organizado. Agora, é ruim para nós e pior ainda para essas famílias, que terão que tirar seus familiares de lá de qualquer maneira?, aponta.
Os dois espaços já foram concretados, mas mãe e filha avisaram às duas famílias para não colocar granito. ?Vamos lutar para tirá-los de lá o quanto antes, é claro. Os espaços são nossos e estamos no direito?, lembra Olívia. O que mais preocupa as duas mulheres é incômodo pelo qual elas terão que passar, já que um advogado precisará ser contratado. ?Minha mãe sofre de hipertensão e já está bastante nervosa com essa situação?, fala Sônia.
Falsas Negociações
Em maio deste ano, uma reportagem do Jornal Cruzeiro do Vale revelou diversas irregularidades por parte da empresa Say Muller, até então administradora dos Cemitérios Municipais do Santa Terezinha e Barracão, no contrato assinado para a prestação dos serviços de zeladoria, limpeza, portaria e sepultamento. As denúncias apontam que a empresa estaria cobrando valores de R$1.000 a R$1.500 para a aquisição de túmulos nos cemitérios municipais, porém, a comercialização de espaços no cemitério não é permitida por lei, pois o espaço pertence à Prefeitura e é cedido gratuitamente para a comunidade.
O fato chamou a atenção das autoridades policiais e políticas da cidade. Uma CPI foi instalada na Câmara de Vereadores para investigar as denúncias da comunidade e a Polícia Civil e Ministério Público também investigam o caso, em sigilo. A CPI vai se reunir nesta quarta-feira, 20, para definir como serão feitas as apurações do caso.
Os documentos de Olívia Bottcher, que comprovam o pagamento pelos jazigos há mais de 22 anos, revelam que a venda dos espaços nos cemitérios municipais é uma prática antiga na cidade. Segundo o atual administrador dos cemitérios, Natalino José da Silva, nunca foi permitido vender ou alugar uma propriedade que é de poder do órgão público. ?Hoje, estamos vendo que este fato aconteceu em diversas administrações, e infelizmente quem precisa pagar é a própria comunidade. Eles não têm identificação alguma dizendo que pertencem a tal pessoa e isso é proibido?, destaca. Sobre o caso da família de Olívia, Natalino diz que não será possível retirar os dois corpos sepultados neste fim de semana, pois o túmulo só poderá ser aberto, se necessário, daqui a cinco anos.
De acordo com o administrador, todas essas pessoas que dizem possuir um espaço nos cemitérios municipais foram enganadas, e a Prefeitura ainda não tem como reverter essa situação. ?Se precisarmos enterrar alguém, seremos obrigados a pegar os espaços livres dos cemitérios, pois a lei é clara ao dizer que o município deve oferecer sepultamento gratuito a todos?.
Natalino reforça ainda que as reservas não existem, mas que o poder público está procurando uma solução cabível para não prejudicar ainda mais aqueles que foram enganados pelas empresas em todos estes anos.
Edição 1398

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