Crises de estar no mundo - Jornal Cruzeiro do Vale

Crises de estar no mundo

22/10/2013 10:13

O  pensamento  de  Heráclito  é  complexo.  Ao  conhecimento  popular  chegou que  ?não  se  pode  percorrer  duas  vezes o  mesmo  rio?.  Heráclito  entendia  que  a realidade  era  dialética:  o  real  era  resultado  do  conflito,  da tensão  entre contrários. Ora,  em  sendo  a  realidade  um  resultado,  então  ela  estaria  sempre  no  devir.  A parábola do  rio traduz seu pensamento: ao se  retornar a um rio, ela já não terá as mesmas águas, então se estará a entrar no que o rio tornou-se, não no que o rio era quando nele se entrou.

O Livro de Areia, conto de Borges, me diz que eu posso tentar decifrar o livro que  comprei  do  vendedor  que me  bateu  na porta.  Leio-o, tento  decifrá-lo. Mas  ele me diz infinitas  coisas; e  se  volto a ele, percebo dizeres que antes não percebera; e  se  não  cuido,  escapam-me  aspectos  que  antes  notei.  Parece  que  caio  em  uma trama:  o  livro  e  eu  jamais chegaremos  a  uma  conclusão  sobre  o  que  ele  quer me dizer, ou sobre as leituras que faço dele.

Heráclito  fala  das  mudanças  nas  coisas  do  mundo,  nunca  me  permitindo encontrá-lo  igual.  Borges  diz  das  relações necessariamente  instáveis  da  minha relação  com  tudo,  inclusive  com  as  ideias  que  se  me  foram  entranhando. Mas eu gostaria  de  falar  ainda  de  uma  terceira  coisa  que  creio  que  existe:  o  eu  de  uma natureza humana que nunca está pronta; o eu resultante do meu passado, mas que também é o meu devir.

O  mundo  não  para  de  se  modificar  (Heráclito).  As  certezas  com  que  eu poderia  compreender  o  mundo  não  se estabelecem  (Borges).  E  eu  mesmo?  Fico eternamente  inconcluso?  Não  é  nada  simples  jamais  estar  rematado,  pois nunca nos sabemos o suficiente para nos apaziguar. Isso me faz pensar sobre mim a partir de mim mesmo: nunca estou na condição de compreender o mundo, as coisas e as ideias, porque jamais permaneço igual a mim. Então, acabo não me entendo a mim.

Eu,  que me  quero  indivíduo  único,  penso  que  sou  inexplicável,  acredito  que isso  só  acontece  comigo.  Mas  minha instabilidade,  minhas  incertezas,  minhas emoções  alteradas,  meus  sentimentos  me  traindo,  isso  tudo  é  exatamente o  que sou,  mas  também  é  o  que  é  toda  a  humanidade.  Sim,  temos  algo  de  particular, mas  mesmo  nisso  entra a  tentação  da  estrutura  social,  que  me  oferece  modelos de  adaptação  às  ideologias  dominantes,  aos  modos  de produção,  aos  costumes Eu  quero  ser  eu,  mas  quero  ser  eu  com  reconhecimento  dentro  de  um sistema estabelecido: se sou um  ser social, quero uma receptividade pública. Para isso, sem contar com a estabilidade das coisas (Heráclito) em um mundo sempre se me  apresentando  de maneira  diversa  (Borges),  não me  reconhecendo  igual  a mim mesmo, tenho que me impor socialmente. Não suporto a tarefa, entro em crise.

Essa  natureza  humana  move  a  História.  Mas  me  interessa  como  me  movo a  mim  mesmo.  Não  gostamos  de admitir,  mas  nossas  crises  têm  um  padrão.  As sociedades  primitivas  tinham  rituais  de  passagem.  Os  indivíduos submetiam-se  a celebrações  que  marcavam  o  seu  status  na  comunidade.  Sua  condição  social  lhe era dada pelo rito. A sociedade contemporânea não tem ritos que nos leve a algum lugar, mas competição anônima por um lugar não sabido. Pomo-nos a competir por uma  posição  no  sistema,  mas  não  sabemos  exatamente  o  que  disputamos,  nem Tenho, em  crise, que me fazer guerreiro e disputar meu lugar  social incerto. 

Não será simples me governar quando, na puberdade, meu corpo mudar de repente; ou  quando,  adolescente,  me exigirem  os  códigos  de  ingresso  na  vida  adulta;  ou quando,  adulto, me  ditarem  as  normas  impessoais  do  que  se chama  de  ?ganhar  a vida?, ou quando, depois de contribuir com o ?mercado?, me pedirem para cair fora. 

Agora, se eu souber que não devo nada disso nem a mim nem a ninguém, tudo será mais divertido, até as crises de estar no mundo.

Léo Rosa de Andrade - Doutor em Direito pela UFSC, Psicólogo e Jornalista

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