Chegaram em um desses carros de luxo, tipo SUV. Estacionaram sobre o retângulo pintado de azul com bordas brancas a um metro da porta de acesso ao shopping. Quatro pessoas desceram do veículo ? dois homens e duas mulheres. Nenhuma gestante. Nenhum idoso ou deficiente.
- Gostou do carro? ? perguntou um dos homens, bem vestido e confiante, notando que eu olhava interessado para eles.
- Sim, é bonito ? respondi, - meu primo tem um desses, só que o dele não vem com permissão para estacionar em vaga especial.
- É que o meu é modelo novo, mais completo ? disse o cara abraçando uma das mulheres, tão bonita e elegante quanto sua amiga, que sorriu divertida e até piscou um olho verde e delineado quando passaram por mim fazendo vento e deixando um perfume agradável. Fiquei observando enquanto entravam pela porta automática, e a última coisa que vi foi o homem que falou comigo dar um tapa no glúteo da mulher que ainda sorria, até que sumiram dentro do shopping.
Havia muitas vagas livres àquela hora no estacionamento, inclusive vagas especiais. É horário de almoço e todos querem estacionar perto da porta para ganhar um tempinho extra, porém ocupar uma vaga que é por lei destinada a atender usuários com algum tipo de necessidade especial é o mesmo que estacionar encostado a um hidrante só porque não há nenhum incêndio ocorrendo naquele momento.
Durante a Copa do Mundo surgiram diversas listas sobre curiosidades que foram divulgadas, principalmente, nas mídias digitais. Lista dos melhores pratos provados e aprovados pelos estrangeiros, lista dos melhores hotéis, lista dos melhores isso e dos melhores aquilo. Uma, em particular, chamou bastante atenção: oito hábitos e costumes que os turistas gostariam de importar para seu país. Um deles é o tão nosso Jeitinho Brasileiro. Não sei se estacionar em vaga imprópria pode ser considerado como tal, afinal normas de trânsito são desrespeitadas em todas as partes do mundo, mas parece que o jeitinho está institucionalizado como patrimônio público nacional e já seduz admiradores mundo afora.
Tem aquela máxima: ?se queres conhecer o caráter de um homem, dê poder a ele?. Muitos se sentem poderosos atrás de um volante. Embora quatro pessoas estivessem naquele veículo a decisão de onde estacionar foi do motorista; sua escolha pode afetar a vida de muitas pessoas, tanto das que lhe acompanham quanto das que eventualmente, no caso aqui ilustrado, possam precisar da vaga por legítimo direito.
Mas se aquele pessoal fazia uso do jeitinho brasileiro, pelo menos praticava também outros hábitos tipo exportação da curiosa lista: a higiene, a carona, o abraço e o almoço.
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