Xuxu, a nossa pinscher que estava quase completando vinte anos de idade, mas mesmo assim era o bebê da nossa casa, foi-se, no dia seguinte ao Dia dos Pais deste ano de 2014. A nossa casa, que já parecia grande demais, depois que a nossa filharada saiu pelo mundo para viver a vida deles, ficou maior ainda.
É, a casa ficou silenciosa, mas ainda ouço o latido abafado dela, quando estava sonhando. No meio do silêncio da madrugada, acordo com o barulho dela andando pela casa, esbarrando nas coisas, cega que estava há algum tempo. As unhas dela, que não gastavam porque ela já andava pouco, faziam barulho ? um tic-tic característico ? no piso.
À noite, quando vou ao banheiro ou à cozinha para beber água, levanto o pé, no escuro, para não derrubar os tapumes ? almofadas de espuma ? que espalhávamos pela casa para que ela, a nossa Xuxu, não batesse nas paredes. Tapumes que não estão mais lá...
Às vezes, ainda a procuro, para saber como está e me lembro que não está mais. Já me surpreendi procurando o pote de água dela ? ela tomava muito água ? para ver se não estava vazio. Levanto do sofá, de vez em quando, para ver se ela está no cantinho dela e disfarço, ao lembrar que todas as mantas, almofadas, todo o aparato para cuidar dela, tudo foi guardado, porque ela não está mais aqui.
Saudade, mais uma saudade que vai doer um tantão, por um tempo que não tem tamanho. O coração fica apertado, a saudade fica ali, latejando, e eu penso que não dei todo o carinho que Xuxu merecia. Tanta lealdade, tanta fidelidade, tanta amizade, tanta alegria, tanta ternura, que acho que não retribuímos à altura.
Queria que Xuxu tivesse ido serenamente, que não tivesse sofrido, indo devagarinho, devagarinho. A dor ia ser a mesma para nós, mas não para ela. Espero que haja um céu para os cães, um céu onde já estaria Dona Menina, a mãe de Xuxu, que morreu aos doze anos, bem como eu sempre ouvia que os cachorros iam: uma manhã, ela foi cavar no jardim, embaixo de um arbusto e, quando a vimos fazer aquilo, brigamos com ela. Ela foi para debaixo da nossa cama e não saiu mais de lá. Fomos ver o que ela tinha e ela já estava indo. Quando chegamos ao veterinário, ela se foi. Serena, sem sofrimento, como deve ser. Foi uma tristeza para toda a família, mas para ela foi rápido. Quisera que tivesse sido assim com Xuxu.
Saudade, Xuxu. Saudade, dona Menina. Muita saudade. Nossa casa está tão grande e tão vazia... Às vezes a tua falta, Xuxu, faz meus olhos ficarem aguados, sabe? Mas é só um cisco no coração, eu disfarço e enxugo.
Por Luiz Carlos Amorim ? Escritor
Edição 1633
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