Malbec, conta, taxi. Fui. - Jornal Cruzeiro do Vale

Malbec, conta, taxi. Fui.

19/06/2012 08:53

Era uma senhorinha, trinta e alguns anos. Livre do marido, vitoriosa nos negócios, inteligente, sensível, dona de si. Com a vantagem de saber que era isso e mais. Havia de jantar, fez-se mais bela, saiu. Foi caminhando. Entrou, sentou-se, pediu Malbec. Ela, o vinho, ninguém mais e um monte de gente: Facebook. Conversa com o filho, concorda, discorda, ajuste de conduta. Agora, filhos, deu.

Adicionados... adicionados... quem seria interessante? Nada de gente corriqueira. Alguém que não seja igual, mas que se permita conhecer. ? Oi, como vai? ? Bem... mas você quer mesmo saber? ? Ah!, incomodo? ? Não, a pergunta foi para deixá-la em desvantagem por um instante. ? E, nesse instante, você quer vantagem para quê? ? Para saber. ? Saber? ? Claro. Por que você necessita falar com alguém?

Parou de teclar, havia que se recompor. Retomou, cautelosa. ? Porque você acredita que necessito? ? Ora, porque você está, exatamente, procurando alguém para conversar. Simples assim. E perceba a reação ao necessita, como se necessitar fosse um mal. ? Eu não necessito, eu quero. ? Olha, querer é direcionar desejos. E você pode trocar necessitar por sentir vontade. Você conjugue-se no verbo que lhe apeteça.

Estava atônita. Não podia concordar. Não tinha argumento para contestar. Lágrimas viriam, se ela permitisse. ? Desculpe. ? Pelo quê? ? Não sei, ai, desculpe. ? Não desculpo, não há culpa, ou ambos somos culpados. Se estou com esse negócio on, também quero conversar. ? Você só teve a coragem de iniciar. Não desculpo. Antes agradeço. ? Você já me transtorna, você já me apazígua, rsrsrs.

Aí, então, ela deixou-se, um pouquinho, chorar. ? Fiquei tão desarmada. ? E eu vou me desarmar, conversa-se melhor. ? Foi de propósito? Você sabia onde ia dar? ? Não, não... Mas não podia ser comum. Foi um pedido de patamar, agora sabemos que não virão mediocridades. ? Sabe? Ganhei. ? Diga melhor. ? O aleatório da vida: há um tanto na vida que não é mais do que aposta. Apostei em você. Ganhei.

Tempo dele. Votou a teclar. Letra por letra. ? Onde você está? Em um restaurante, por quê? ? Restaurante!? ? Não é um bom lugar para conversar? ? Pelo Facebook? ? Por que não? ? Hummm, já pediu? ? Já sou uma mulher mais meia garrafa de vinho. ? Endereço, preciso ir. ? Não entendi. ? Ganhei você. ? Ah!, não vale, eu disse isso. ? Você faz caça de busca; eu, de espera. Você me pegou, eu peguei você.

Ela tomou-se de precaução. ? É meio precipitado, gostaria de conhecê-lo melhor. ? Pra isso vou. ? Não pode ser pelo face? ? Bem, pode, mas não será verdade, não será suficiente, jamais será igual. ? Eu sei, eu sei. Endereço, vou eu. ? Que reviravolta. ? Você me convenceu: a vida está além da digitação. ? Isso, mas posso ir, faço questão. ? Nem sei se as terei, mas aqui há limites às vontades. Prefiro não.

Tempo longo dos dois. Ela retomou. ? Eu não disse? Precipitação. Era fácil você sair de casa, proteger-se de mim em um local público. Pelo face, me garantia eu. ? Você é inteligente. ? E sensível, e carente, ai, confessei. ? Prometo deletar. Olha, pensei. Tem as informações, consulte os amigos, se quiser, e desista, se achar melhor. ? Também pensei. Já pedi outro Malbec, a conta, um taxi. Fui.

 

Léo Rosa de Andrade
Doutor em Direito pela UFSC.
Psicólogo e Jornalista.
Professor da Unisul

 

Edição 1398

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