Lane bebeu um pouco a mais de vinho. Alguém na mesa brincou: ?O vinho que molesta o corpo lava a alma.? Lane devolveu com ironia: ?Não tenho alma, e se tivesse eu a queria suja.? O garçom não se conteve, soltou com os lábios cerrados: ?Deus seja louvado.? Lane falou mais alto: ?Define o teu deus.? O garçom não titubeou: ?É um espírito perfeitíssimo que não teve princípio e não terá fim.? Lane indagou: ?Quem disse?? E o garçom: ?A mulher da primeira comunhão.? Lane: ?E quem disse para a mulher da primeira comunhão?? O garçom expressou-se com mímicas de não sei. Lane arrematou: ?Pois devias saber.?
Sossego na mesa, alguém perguntou: ?Como assim não tens alma?? Lane, com desdém: ?Prova.? O alguém, espantado: ?Provar o quê?? Lane: ?Prova que tenho alma.? Alguém gritou: ?Prova tu que não a tens.? Lane bateu na mesa: ?Embusteiros, vocês inverteram o ônus da prova. Inventaram a alma, pois que a provem.? Silêncio. O óbvio caiu como surpresa sobre todos. Alguém mediu a própria calma: ?Tens razão, mas vai berrar com a mãe.? Lane se descontrolava: ?Só se ela disser imbecilidades.? Outra intervenção: ?Os ateus são intolerantes.? Lane sorriu, aguardava essa intromissão: ?Sim, claro, nós queimamos religiosos por séculos, por isso só sobraram ateus.?
Eu não estava com disposição para o debate, mas pensava que esse negócio de ser ateu não é mesmo para amador. Lembrei-me, então, da preocupação de outro amigo meu, William Souza (Facebook): ?Temo que, algum dia, o conceito de ateísmo mudará para ódio às religiões e desprezo à crença alheia, como ele já é, de fato, concebido pelo senso comum.? William pede tolerância também aos ateus, e prossegue: ?Ser ateu significa acreditar que o mundo e as pessoas podem desejar ser melhores sem esperar nada em troca ou sem temer o porvir.? Sua preocupação é que a manifestação ateia agressiva e equivocada alimente preconceitos.
É pertinente a apreensão, contudo, pondero-a. De fato, a ação ?malcriada? não é uma boa forma de militância. Se não justifico essa ?malcriação?, explico-a, entretanto. Ora, os ateus são forçados a assumir comportamento de excluídos, sofrendo injustas restrições sociais. Fábio Ulhoa Coelho publica no Estadão ( A última minoria, 25out10, editado): A posse de Obama demonstrou que a luta das minorias ainda tem chão pela frente. Além do tradicional juramento com as mãos sobre a Bíblia, abriu-se a palavra à bênção de dois pastores. Sendo os EUA um Estado laico, a reverência dada à questão religiosa no transcorrer do ritual de transmissão da Presidência liga-se a um aspecto importante da política: refiro-me ao preconceito contra uma minoria, os ateus.
Mas por que, no Brasil inclusive, a cor, o gênero e a opção sexual do candidato a cargos eletivos são, hoje, considerados atributos irrelevantes, mas a crença dele não? Por que o eleitor resiste a eleger um político assumidamente ateu? Os ateus compõem uma minoria. São socialmente discriminados por suas convicções. Preferem, muitas vezes, ocultar a falta de crença a se expor a tais discriminações. O preconceito contra os ateus origina-se da ideia de que a crença serve como freio moral. Um ateu seria desprovido de valores para discernir o certo do errado e, por isso, só conseguiria nortear sua conduta a partir de interesses egoístas. Essa ideia é falsa.
Quem respeita as normas de convivência social com medo da punição divina ou para obter beneplácitos celestiais é, sob o ponto de vista moral, uma pessoa bem mais frágil do que o ateu. Quando este age conforme tais normas, a despeito de qualquer temor de castigo ou desejo de recompensa futura, é porque está convencido da importância dos preceitos morais, tanto para sua própria vida como para a dos outros. O combate ao preconceito contra os ateus contribui, portanto, para o fortalecimento da democracia. Lido Ulhoa Coelho, concluo que, talvez, alguns arroubos estridentes de ateus pela internet sejam uma forma imprópria, todavia legítima, de marcar existência. Não obstante, sempre vale apurar o conteúdo e cuidar da forma.
Léo Rosa de Andrade
Doutor em Direito pela UFSC
Psicólogo e Jornalista
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