Mulheres, é com vocês - Jornal Cruzeiro do Vale

Mulheres, é com vocês

20/12/2011 11:13

A situação das mulheres no mundo. Como se teria estabelecido o lugar social das mulheres? De onde vieram as relações de poder que as colocaram na história como seres-objeto? Quem se aventura a especular sobre condições de tempos distantes sabe que jamais conferirá suas hipóteses. Ademais, há tantas obras de vulto cuidando do assunto que se torna um tanto temerário explorar conjecturas de alta indagação intelectual nesta lauda que habito. Mas, ainda assim, vou ?pensar? a respeito.

As características somáticas teriam estabelecido o papel cultural e ponto? Por terem determinadas distinções de corpo (constituição anatômica, composição bioquímica, função genética etc.), as mulheres teriam restado no lugar a que foram relegadas no caminhar da história? Tenho dúvidas. Nas condições primitivas da vida na selva admito funções diferentes para homens e mulheres: funções exigidas pelas regras brutas da sobrevivência. Mas papel social é coisa de cultura, de civilização.

Estudos antropológicos supõem que a longevidade em condições selvagens não alcançava vinte anos. A mulher adulta estava sempre grávida. Nesse estado, ficava limitada e dependente. Nascendo-lhe a cria, tornava-se ainda mais frágil e exposta à selva. Sangue, leite e carne atraem predadores. Acredito na hipótese de, então, a defesa de mãe e rebento competir aos homens. Mas isso que acontecia era o que chamo de função, decorria de condição física. Não havia papel social.

Suponho que mesmo no início da era histórica ainda eram as condições objetivas da brutalidade do mundo que ditavam as regras. Guerra, fome, agressividade eram dados materiais relevantes. Corpos menos habilitados para essas situações tornavam-se cativos dos que possuíam força física. Crianças e mulheres eram tomadas como se tomava gado, mas por utilidade de rês, não por desconsideração sexista. Até aqui o feminino era mais exatamente fêmea, não era, ainda, mulher.

Agora, pulemos para a Idade Média: sabe-se que a mulher, a ideia, mesmo, de mulher, era um desvalor. Quer dizer, a mulher tinha um lugar social, mas era um lugar social desqualificado, odiado até. O que viesse da mulher era indigno: seu corpo era instrumento do demônio (súcubo); seu saber era bruxaria; em muitos lugares, sua presença era azar; era interditada nas posições públicas relevantes; o seu lar, um confinamento; o seu destino, um acerto entre homens.

O Renascimento pretende prestigiar a mulher. As imputações de ser execrável são-lhe retiradas, mas lhe é dada o estigma de belo sexo. Belo, porém tolo sexo. Sexo incapaz. Sexo a ser seduzido, sexo passivo. Mesmo o Iluminismo trai a mulher: o discurso de igualdade não a inclui; foi-lhe negado qualquer protagonismo público; seu papel era doméstico; suas tarefas eram a de esposa; suas atribuições mais relevantes, o lar, a reprodução, o marido, os filhos.

Só a Segunda Guerra libertou ? ou começou a libertar ? a mulher. Foi sem querer, mas aconteceu. Resumo: os homens norte-americanos foram lutar na Europa, as ?suas? mulheres foram trabalhar; muitas, fora da vigilância do lar, ficaram grávidas. Diante do dano moral que isso estava a provocar, foi liberada, como mal menor, a pílula anticoncepcional. As mulheres controlaram o seu corpo, trabalharam, ganharam o dinheiro. As mulheres experimentaram objetivamente o poder.

Ao fim da Guerra, tentou-se devolver as mulheres ao lar. As feministas abriram polêmica. Desde então, conquistas são festejadas. ?De fora?, considero essa etapa ainda ruim, mas ?menos pior?. É um tempo de batalha por poder. Muitos homens não arrefecem: não querem e não vão ceder; tantos outros, todavia, são aliados da causa feminina. Os aliados, entretanto, não podem decidir. Defendo que o traço das estratégias e o comando dessa luta ? ainda necessária ? são ?coisa de mulher?.

Léo Rosa de Andrade

Doutor em Direito pela UFSC.
Psicólogo e Jornalista.

Edição 1353

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