Luiz Henrique da Silveira
Senador da República
O trenzinho caipira, aquele ?maria-fumaça? que levava gente, paciente; levava pacotes mal embrulhados, levava cabra, porco e galinha; levava torresmo, fubá e cocada; levava a paisagem seca e pobre do sertão nordestino; tornou-se universal pelo gênio de Villa Lobos.
Na verdade, o trenzinho é uma crônica musical de uma paisagem humana pobre, sofrida, indigente, indolente; de uma vida de mulheres envelhecidas precocemente pela procriação e de homens de pele enrugada pela dureza da lida e do clima.
O jornal do interior é o trenzinho que caminha, de casa e casa, de mão em mão, retratando o cotidiano de cada lugar. Quanto menor é a cidade, mais fidedigno e atento à realidade de sua gente ele é.
O jornal, matriz das comunicações, é um acervo da família. É ali, em casa, que a gente aprende a ler as notícias.
Quando a economia globalizou-se, impulsionada pela rede da informação, pensou-se que o jornal e a rádio do interior desapareceriam. Afinal, se passamos a ver tudo o que acontece no mundo num só noticiário de TV, era natural que assim se pensasse.
Pois, aconteceu exatamente o contrário. Pressionada pela força da cultura local, as grandes empresas de comunicação passaram a dedicar espaços mais generosos ao noticiário das regiões e localidades brasileiras.
Esse fenômeno foi explicado por Manoel Castels, o notável sociólogo catalão, que opôs à globalização o neologismo glocalização (síntese de global e local), no famoso livro ?A Sociedade em rede?, que editou na capital francesa, quando lecionava no campus de Nanterre, da Universidade de Paris.
No Brasil, a leitura de jornais ainda é um privilégio maior das classes mais abastadas, e, assim, com mais acesso à educação. Na classe A, 78% das pessoas lêem jornal. Esse percentual cai para 65% na classe B; 46% na classe C; 28% na classe D; e apenas 18% na classe E.
Homens e mulheres se equilibram na leitura de jornais: aqueles com 51% e estas com 49%. Assim, o hábito da leitura jornalística se equilibra entre os sexos, mas predomina entre os ricos.
Feito por pequenas equipes, movidas por um grande entusiasmo (às vezes, até, voluntárias), os pequenos jornais são mais baratos e, assim, são os mais lidos pelos mais pobres. Normalmente ele está lá, no bar, na barbearia, na venda da esquina, na farmácia, no posto de saúde, onde é lido por quem tem dificuldade de comprá-lo.
A supremacia da importância da notícia local sobre a mundial é objeto de um caso clássico do jornalismo brasileiro: o caso Jornal do Brasil.
Um leitor do JB ligou para a redação daquele jornal carioca para denunciar que seu automóvel havia caído num buraco da rua Toneleros (a famosa rua onde Carlos Lacerda sofreu aquele atentado, em que morreu o Major Vaz, levando o Presidente Getúlio Vargas ao suicídio).
O editor respondeu que a redação toda estava envolvida na invasão dos tanques russos, para abafar o levante tcheco-eslovaco, que ficou conhecido como ?Primavera de Praga?.
O leitor, revoltado, mas sem afastar seu humor carioca, repondeu: -- podem vir logo, que os tanques soviéticos vão demorar a chegar aqui...
Aquele fato mudou a orientação do JB. Na sua essência, está aí a raiz e a lógica do pequeno jornal, que é o jornal do cidadão.
Edição 1502
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