Racionais não extremistas - Jornal Cruzeiro do Vale

Racionais não extremistas

26/10/2012 07:00

Recentemente recebi de um amigo judeu, A.N, uma carta de repúdio da comunidade judaica européia sobre uma onda de anti-semitismo nas cátedras universitárias e em discursos políticos em nome de uma posição crítica ao fascismo cometido pelo estado de Israel. Ao que tudo indica, movimentos acadêmicos e políticos ligados a correntes filosóficas, religiosas e científicas marxistas e conservadores, que em nome da argumentação anti guerra entre essas nações, caem facilmente no conto do antissemitismo.

Durante duas semanas buscamos analisar algumas postagens em redes sociais, blogs,sites e discursos políticos do Brasil, Argentina e Europa, ficou evidente que é comum a argumentação do anti de forma extremista, do global ao local.

Como assim anti? Bom, a exemplo: é óbvio que ninguém de respeito ao próximo declara apoiar dito conflito, no entanto, o que nos chama atenção é para o fato da contínua e progressiva assimilação do anti-guerra ao antissionismo, antissemitismo, ao anti islã, anti EUA... como algo natural.

O sionismo é um movimento religioso dentro do judaísmo que prega a existência de uma nação formada pelos judeus na terra santa, historicamente contextualizada no antigo testamento e responsável pela ideia que deu origem ao estado de Israel. O antissionismo, é a aversão dessa ideia  que hoje tem como principal ?alvo? o ?partido da Liberdade? de extrema direita e que governa Israel e que é conhecido por sua prática de neo fascismo.

Ninguém em sã consciência e de respeito ao próximo deveria apoiar o fascismo, que prega que a ?identidade enquanto nação? seja determinada pela unidade de raça, língua, cultura e território. Devemos lembrar do terrível período histórico em que esses ideais tiveram êxito na Itália, França, Espanha entre outros, tendo na Alemanha sua projeção mais acentuada com o nazismo.

No entanto, ser contra essa política de guerra não implica ser contra aos judeus assim como também não justifica ser contra a ideia da criação do Estado de Israel por mais polêmico que possa resultar tal reflexão. A criação do estado da Palestina também está na sua condição de direito. Se buscarmos na história, grandes intelectuais, artistas e políticos judeus proclamaram-se contra a política fascista do Estado de Israel assim como hoje o fazem muitos israelenses e palestinos.
  
Acontece algo semelhante em outras pontas: islâmicas, muçulmanas e neo-pentecostais com orientação política, onde também é possível encontrar políticas extremistas que resultam igualmente no privilégio de recursos em nome de ?guerras? sem fim, que resultam em uma lógica financeira e industrial de apropriação de recursos questionável! Guerras que são sustentadas em parte pela projeção de ideias de diferenciação humana, através de valores em que se julgam ?superiores? e ?inferiores?, ?civilizados? e ?não civilizados? em razão de crenças, cor de pele, orientação sexual, porte físico etc...

Dentre todas as crenças mencionadas e igualmente nas não mencionadas, encontramos os flâneurs, que observam aos demais e as cidades, produtos de sua sociedade e acabam sendo ?vítimas? do resultado de suas próprias observações.

Durante nossas conversas chegamos a argumentações semelhantes ao que ouvi no Brasil, de uma freira muito querida que anda país afora, algo como: ?É preciso deixar Deus em paz, e resolvermos nós mesmos nossos problemas, e dessa forma o faremos mais presente?.

Muito além de identificar verdadeiras ?injustiças?, a política do anti, pode resultar num perigo aos não anti, que apenas querem viver suas vidas com direitos e respeito. Estes que embora não atacam, são socialmente atacados, sofrem a contra partida, na qual dentre outros males o menor, uma pressão ao posicionamento extremista e pouco racional.

Observações interessantes e básicas:

1)A fé se propõe a contribuir para o crescimento humano interior e pessoal, para assim resultar em melhor sociabilidade entre os mesmos.

2) A ciência comprometida se propõe a explicar, identificar, analisar, organizar e outros verbos mais, a fim de proporcionar melhores técnicas e/ou soluções para nossas vidas.

3) A política, quando se propõem a algo, o faz em nome da resolução de problemas, através da administração dos recursos materiais e humanos disponíveis, a fim de brindar maior desenvolvimento. 

Utópico, verdade? Afinal todas elas podem ser usadas para resultar naquilo a que se propõe, em parte daquilo  a que se propõe ou em contra a que se propõe, as relações de poder podem determinar seus caminhos.

Isso tudo parece nos remeter a psique que produz o mito simbólico de Caim e Abel, em que o primeiro ao não saber lidar com a ?diferença? de seu semelhante desenvolve argumentos e táticas que resultam na escolha da ?não aceitação?, ?dominação? e ?destruição? daquele que é o Outro, entendendo a ?diferença? como ?ameaça? e não como possibilidade de ?reconhecer-se?, pensar em si mesmo e no Outro. Uma odisseia humana.

Tema complexo! Difícil e sem solução! Poucos assim interpretarão por que isso causará instabilidade aos preconceitos, aos egos e certezas. Como resultados dessa lógica os chamariam de loucos, de flâneurs e também os excluiriam. No quadro atual, a regra soa como um ?perigo pessoal eminente? da qual as pessoas devem evitar ao máximo.

Evidente ou não, se conceberia que é justo e necessário maior cuidado para não crucificarmos, com ou sem a argumentação do anti, mais gente inocente, afinal não era judeu aquele perseguido a pouco mais de dois mil anos? Não eram cristãos os perseguidos no Império Romano? Não eram muçulmanos pós 11 de Setembro de 2001? Não eram as mulheres, não eram negros, não eram homossexuais, não eram índios... Eram ou ainda são? O mito da diferença de Caim e Abel parece ainda mais vivo que o da Torre de Babel em tempos de globalização!

Victor José Caglioni, sociólogo. Buenos Aires. Argentina.

Edição 1435

Comentários

Alexandre
14/11/2012 10:25
Fé e ciência não se misturam, são contraditórios.
Fé e Política, infelizmente se misturam, quando deveriam ficar bem longes um do outro. Os países Islâmicos, que adotam a Charia como lei, nos dão exemplos disso todo dia.
Ciência e Política? Hmm, infelizmente os ramos relevantes da ciência se afastam da politíca. Enquanto uma é a busca pela verdade, a outra se tornou a manipulação dela.

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