Indignação
Quando perdemos um ente querido sempre nos questionamos: era a hora? Por que não levei antes? Não tínhamos mais o que fazer? O que eu poderia ter feito, além do que fiz? Enfim, procuramos culpados a fim de minimizar a dor da perda. Passei por um fato semelhante no último dia 5, com a morte de meu irmão. Não quero aqui questionar e culpar os profissionais que o acompanharam durante os seis dias em que ficou internado, pois percebi que foi feito o impossível. Ao contrário, quero aproveitar e agradecer em especial aos plantonistas: Dr. Francisco e enfermeira Rosilene, os quais não mediram esforços para fazer o melhor diante do estado clínico do paciente. Porém, ao fazer jus ao título acima, eu, como cidadão, não posso me calar diante de alguns momentos vivenciados durante este curto tempo em que estive pernoitando como acompanhante.
O hospital de Gaspar, apesar de possuir uma magnífica estrutura física e excelentes profissionais, carece de materiais, e valorização dos mesmos. Apesar dos esforços, é nítida a insatisfação salarial dos mesmos e a falta de materiais indispensáveis para um trabalho digno. Poderia aqui enumerar uma série de observações, mas vou citar como exemplo quatro situações: 1ª - FUNCIONAMENTO DO AR-CONDICIONADO. Permaneceu durante todos os dias em 20 graus com um paciente com pneumonia necessitando regular a temperatura a pedido médico. Por que não foi feito? Falta de pilha no controle. Mesmo levando as pilhas não foi possível regular a temperatura, já que do dito controle somente os profissionais tinham posse. 2ª ? TROCA DE LEITO. Determinado profissional, ao iniciar o turno e dar início à medicação, teve a feliz ideia de perguntar o nome da paciente que estava prestes a medicar. Constatou que a mesma estava no quarto e leito errados e que aquela medicação era de outra paciente. 3ª ? Nº DE PROFISSIONAIS. Na última noite, ou seja, quando ocorreu o óbito, a ala toda com 12 pacientes, entre eles um em estado terminal, o posto de enfermagem possuía somente um profissional, já que seu colega havia faltado. Ou seja, estava sobrecarregado, não tinha condições de fazer um bom trabalho. 4ª E ÚLTIMA SITUAÇÃO ? FALTA DE ROUPA LIMPA ? Ao solicitar a troca de roupas de cama, ouvia-se dizer que não tinha.
Das quatro situações exemplificadas, vou reforçar a terceira, que considero mais grave. A desmotivação é muito grande. Os profissionais precisam ser mais valorizados. Faltar ao trabalho é comum em todos os segmentos, porém é preciso organizar remanejamentos, o que não foi feito. E se este profissional resolvesse abandonar o posto de trabalho? Será que a equipe de interventores sabe como está funcionando o hospital em relação aos profissionais e outros itens? Ou só interessam números como 8 milhões de dívidas. Nos seis meses em que estiveram à frente, melhorou ou piorou? Qual era o principal objetivo da intervenção? Melhorar? Piorar? Achar culpados pelo mau funcionamento? Acharam? Vão continuar? Como será nos próximos seis meses? A insatisfação dos usuários é muito grande. A melhor maneira de avaliar, além dos números, é ir in loco, conversar com os profissionais os pacientes, os acompanhantes. A comunidade aguarda melhorias. Como e quando serão feitas, é uma incógnita! Só nos resta uma coisa: medo. Muitos, como eu, têm medo de ir ao hospital.
Irineu José Ortúnio | Gaspar
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