12/12/2008
A volta ao Morro do Baú
Quarta-feira acordei cedo para ir com um grupo de desabrigados até o Alto Baú, considerada a Área Negra da catástrofe. O grupo era formado por dez pessoas, entre elas havia um padre. O objetivo era encontrar dois soterrados da família Silva. O trajeto sinistro ao epicentro dos desmoronamentos se deu de carro até o Belchior, depois sobre um caminhão trucado e traçado até a Cascanéia, onde ficamos atolados. Abandonamos o caminhão e pé na estrada. Cruzamos Arraial, Cascata Berlim, contornamos montanhas destruídas, precipícios, cruzamos por picadas pela mata virgem e finalmente chegamos ao Alto Baú, nosso destino. O trajeto demorou em torno de duas horas e meia. Para reforçar as energias, café com pão e lingüiça. Em seguida arregaçamos as mangas e nos dirigimos à casa destruída com duas vítimas fatais em busca dos corpos. Não tinha ninguém da Defesa Civil e muito menos bombeiros por lá. Depois de mais de duas horas de serviço retirando escombros, um helicóptero sobrevoou o local e pousou num campinho de futebol bem próximo. Desceu o capitão Helton de Souza, do Corpo de Bombeiros. Ele reuniu a equipe de voluntários e pediu para que não removessem mais os escombros para não atrapalhar as buscas. Disse que já estavam a caminho 25 bombeiros para continuar as buscas aos falecidos.
O trágico registro das imagens
Eu somente registrava o que via, através de fotos e vídeos. O capitão foi embora, a turma obedeceu a ordem e todos resolveram percorrer um trajeto de três quilômetros no meio dos entulhos, casas destruídas, carros amassados e soterrados, empresas que desabaram, troncos de árvores retorcidos e entre vítimas desaparecidas. Cenas de terror e guerra. Este local foi o mais afetado pela catástrofe. Eu já havia ido ao Alto Baú após o desastre, mas em outra região bem próxima daquela que eu estava. Consegui chegar à Igreja Luterana daquela comunidade. Ela não foi afetada. Apenas o Salão de festas foi destruído e o cemitério foi soterrado quase na sua totalidade. Aliás, a catástrofe respeitou todas as igrejas do Baú (sete no total), apenas a pequena Assembléia de Deus ficou destruída.
Novas buscas, velhos problemas
Ao meio-dia, para não ser diferente, o almoço foi novamente pão com lingüiça. Ao terminarmos de almoçar, o grupo combinou de retornar às buscas às vítimas, já que os bombeiros não chegaram. Foi neste momento que o barulho de um helicóptero anunciava a chegada de mais bombeiros. Passava das 13h. Vieram bem equipados e começaram nova busca pelos escombros. Com a ajuda de um caminhão que sobreviveu aos desbarrancamentos, com um cabo de aço a distância, vigas, lajes, paredes da casa eram içadas para desobstruir os acessos até os corpos dos desaparecidos. Os bombeiros removiam entulhos, barro, mobília da casa a procura dos falecidos. Os cães farejadores ajudavam nas buscas. Às cinco horas a procura naquela casa foi suspensa. A criança de oito meses e o senhor de 62 não foram encontrados. Um outro grupo de bombeiros, que buscavam outras vítimas na Área Negra, encontrou naquela tarde, por volta das 15 horas, o corpo de uma senhora. O helicóptero da Polícia Militar transportou-o até o IML.
A angústia e o risco do resgate
Por volta das 18 horas, o grupo de voluntários e bombeiros deixaram o Alto Baú. Bombeiros retornaram de helicóptero; os voluntários pelos precipícios. O grupo voluntário que está indo até o Alto Baú apenas quer encontrar as vítimas. Não há como conter esta angústia dos parentes e por isso arriscam suas próprias vidas. O retorno demorou quase três horas. O medo tomou conta em vários momentos. O registro estará hoje no portal do Cruzeiro do Vale através de vídeo. E, infelizmente, a constatação que fica é que nunca mais o Alto Baú será o mesmo e, na minha opinião, aquela região não poderá mais ser habitada.
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