21/05/2020
Antes tarde do que nunca, mas convenhamos, está tarde demais. Precisamos mudar esse mau hábito de rotular os nossos ícones e deixá-los num labirinto da memória. Eles estão acima das nossas estimas e dúvidas pessoais, políticas e até ideológicas. Nesses ícones, está o pioneirismo, a vitalidade, a dificuldade da verdadeira história que forja a nossa cidade. Refiro-me ao reconhecimento tardio ao joinvilense neto de suíços Leopoldo Jorge Theodoro Schmalz (1909/77, morto na Suíça, quando fazia justamente as suas primeiras férias do trabalho da sua vida), fundador em 1938 da referência “Linhas Círculo”. Ele (na foto ao lado) vai nominar o “novo” prédio do Arquivo Histórico Documental de Gaspar. O Arquivo vai ficar na antiga sede do Besc, na Aristiliano Ramos, aqui no Centro. Mas, para que isso acontecesse, antes, foi preciso uma “ginástica” para se aceitar esta necessária homenagem. A apropriada lei que impede de que se dê o mesmo nome a mais de um bem público, foi modificada. É que o “seo Leopoldo” já era nome de uma “pracinha” ali defronte à Câmara. E continuará a dar nome nela. A articulação legislativa foi do vereador Francisco Hostins Júnior, MDB. A aprovação foi unânime dos vereadores.
Nenhum demérito à iniciativa e homenagem feita em 1995 no tempo do ex-prefeito Luiz Fernando Poli, então no PFL, ao já cidadão honorário de Gaspar desde 1970 (era o governo do ex-prefeito Paulo Wehmuth, Arena, o que permitiu a vinda da Ceval para cá e marcado por isso pelos adversários), mas o “seo Leopoldo” é muito mais na história para Gaspar e os gasparenses do que aquela “desconhecida pracinha”. Melhor do que eu, a historiadora Leda Maria Baptista pode pontuar esse contexto de importância. Resumindo: Gaspar teve – ao meu ver - três eixos industriais: a usina de açúcar São Pedro (da marca Angorá), dos Krauses, que já se foi; as Linhas Círculo, que está desafiando mercados, modismos, tecnologias e planos econômicos; e a Ceval, que já se foi e perdeu o brilho.
Por outro lado, a “Linhas Círculo” foi para dezenas de milhares, repito, dezenas de milhares de gasparenses o primeiro emprego, para outros o único, às mulheres, então, à oportunidade ímpar. Gaspar saiu do rural para o industrial. Do ponto de vista social, empregabilidade e desenvolvimento econômico na Gaspar que tentava à sua identidade e autonomia em meados do século 20, a “Linhas Círculo” foi decisiva, ousada, teimosa e desafiadora sob a discrição arrojada “seo Leopoldo”, formado na Alemanha neste ofício (ao lado, jovem e com os primeiros produtos). São mais de 80 anos de legado.
O nome de Leopoldo Jorge Theodoro Schmalz faz bem e dá sentido ao prédio do Arquivo Histórico e Documental de Gaspar por outro aspecto, muito mais relevante. Trata-se de uma homenagem em vida a duas pessoas que resistem às narrativas dos donos das meias-verdades daqui. Com isso, preserva-se intacta de interesses dos poderosos e “vencedores” a nossa memória. A primeira é ao próprio filho do “seo Leopoldo”, que o sucedeu na liderança do empreendimento: Leopoldo Adolfo Schmalz, ou simplesmente, “Leopoldinho”. Ao criar a Fundação Frei Godofredo na década de 1980, foi um baluarte. Adotou Gaspar como poucos, naquilo que é à essência da cidade. Ou seja, de forma técnica e metódica, com profissionais experimentados para o ofício, resgatou e documentou a memória da nossa cidade. Bancou tudo. Em 2018, o acervo, catalogado, foi todo ele doado à prefeitura. E nela, a segunda, homenagem: à historiadora Leda Maria Baptista, a principal a curadora desse acervo e base da história de Gaspar para os gasparenses acessarem, ampliarem e se orgulharem. Acorda, Gaspar!
Mais uma semana e nada do prefeito Kleber Edson Wan Dall, MDB, falar em diminuir temporariamente do seu salário de R$27.356,69 – um dos mais altos de Santa Catarina - como uma maneira de contribuir contra a crise dos cofres públicos, como fizeram entre outros, o de Blumenau e que ganha menos do que ele.
Na outra ponta, a enrolação é idêntica. Na Câmara de Gaspar, os dois projetos do vereador Roberto Procópio de Souza, PDT, com a mesma intenção sobre as verbas dos vereadores, entrou em modo de espera, torcendo pelo esquecimento dos eleitores e eleitoras.
Finalmente a UTI provisória montada no Hospital de Gaspar e só para doentes graves de Covid-19, ganhou na quinta-feira a habilitação para receber pacientes, depois de três semanas se pagando caro aluguel, com ação direta do senador Dário Berger, MDB, conforme explico na área de comentários. Espera-se que os políticos não usem o primeiro doente grave para fazer sessão de fotos, como aconteceu na montagem dela..
Esta terça-feira termina parte da novela da CPI das dúvidas das obras de drenagens e pavimentação da Rua Frei Solano. O relatório oficial – se for o do relator Cícero Giovane Amaro, PL, ou de um dos vereadores do governo que são maioria para isso, é o que menos importa neste momento. O governo luta para que não seja reaberta esta chaga no Ministério Público, ou que nada da documentação e depoimentos gravados cheguem ao Ministério Público Federal, Gaeco e TCE.
A CPI provou que foi projetado, licitado, contratado, fiscalizado e pago uma coisa, mas feita outra. A prefeitura reconhece isso, entretanto, insiste que se tratam de meras mudanças em técnicas construtivas e que elas deram em vantagens econômicas à prefeitura. Mas, nos cálculos se enrola. Se procurar bem, vereadores e investigadores verão que há outras vantagens ilícitas, como a dos tributos. É hora de ir atrás disso. E não é de hoje.
Na reunião de segunda-feira da CPI com a assessoria técnica, o engenheiro Ricardo de Freitas, funcionário concursado da prefeitura, que fiscalizou parte da obra e foi nomeado como representante interveniente técnico nos interesses do município da CPI, peitou várias vezes o presidente e relator da CPI, respectivamente, Dionísio Luiz Bertoldi, PT e Cicero. Acusou-os de serem tendenciosos, parciais e seletivos.
Intimidação. Quando Cícero observou de que o engenheiro Ricardo parecia as vezes estar defendendo os interesses das empresas e não os do município, Ricardo pulou no pescoço do vereador. Disse que iria processar por injuria e difamação. Circo, até porque Ricardo não deve entender o que seja uma CPI e nem a função do vereador nela.
Outra. Os vereadores do governo – que não são engenheiros - ao serem confrontados com cálculos apresentados ao MP, dizem que acreditavam em funcionário especializado e com fé pública. É aí que reside a dúvida.
A oposição na CPI acha que a fé pública é a que permitirá à tipificação de crimes quando se falseia ou se dissimula oi se omite dados ou informações essenciais aos órgãos de fiscalização. Isso não é novidade por aqui. É só olhar o que aconteceu com aquela construção ao lado do Ribeirão Gasparinho, no bairro Sete. A prefeitura informou ao MP que tudo estava regular. Quando instada na Ouvidoria, a própria prefeitura reconheceu que tinha “se equivocado” e “confiado”, nos executores dos empreendedores do imóvel.
Afinal, quem da imprensa mandou excluir o comunicador Miro Sávio, da Rádio Comunitária Vila Nova FM, da lista de whatsapp da prefeitura de Gaspar? Quem é este coletivo coleguinhas que pediu tal discriminação e censura odiosa? Até agora, a superintendente da comunicação Amanda Elisa Weber, não se explicou. Então... Acorda, Gaspar!
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