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Mais um retrato torto e eficiente que avança em Gaspar - Jornal Cruzeiro do Vale

Mais um retrato torto e eficiente que avança em Gaspar

05/08/2019

O agente Silva, da Ditran, está sendo punido pelo governo Kleber e constrangido ao ‘exílio’ no pátio de carros apreendidos porque denunciou negligência e irresponsabilidade do seu chefe.

Pedro Silva está “encostado” e isolado nesta sala do pátio terceirizado de carros apreendidos em Gaspar porque denunciou que carros apreendidos estavam sendo liberados sem a solução dos problemas que deram origem à apreensão

A história da perseguição é simples. Mais uma. Envolve um dos mais antigos, atuantes e poucos agentes de trânsito que sobraram na inexplicavelmente esvaziada e que serve de cabide de empregos políticos, a Diretoria de Trânsito – Ditran: Pedro Silva.

Ele é especialista em gestão, direito e educação no trânsito. Possui formação técnica. Coincidentemente, Silva é marido da funcionária pública e ex-presidente do Sindicato dos Trabalhadores no Serviço Público Municipal de Gaspar, Lucimara Rosanski Silva, que sempre denunciou fatos semelhantes contra os servidores municipais na atual administração.

Advogado e os que cercam Silva enxergam no gesto tomado contra ele, o troco e a perseguição do governo de Kleber Edson Wan Dall, MDB, e Luiz Carlos Spengler Filho, PP, vejam só, um agente de trânsito e que desfalca o departamento, justamente por ser vice-prefeito. Ao perceber a inércia da Ditran, Silva se socorreu do Ministério Público para demonstrar as irregularidades e pedir correção diante de grosseiro benefício não permitido na lei. E por isso, Kleber e os seus resolveram puni-lo

A HISTÓRIA

Um veículo foi autuado e recolhido ao pátio terceirizado (AC Kar). É que ele estava sem o devido licenciamento, além de outras irregularidades.

O superintendente da Ditran, o comissionado, sem qualquer experiência no assunto – antes já tinha passado rapidamente por outros cargos, incluindo no Samae, Salésio Antônio da Conceição, PP, conhecido como “Nem Conceição”, mapeado pelo partido para ser candidato a vereador (foi candidato em 2012 e não se elegeu, fez 301 votos pelo PPS em 2016 e não se elegeu outra vez), resolveu bancar à liberação do veículo. Nas ruas de Gaspar, o veículo foi abordado outra vez. Desafiava e continuava com os mesmos problemas. Entre eles com o licenciamento atrasado.

No “livro parte”, documento oficial da Ditran e onde se anota as irregularidades do ambiente do órgão, o agente Silva relatou o fato. Nenhuma providência. Silva estranhou e inconformado, resolveu denunciar o fato ao Ministério Público e que cuida da Moralidade Pública, na Comarca de Gaspar. Trata-se omissão, ou negligência, ou irresponsabilidade ou até de prevaricação.

Antes, o que é prevaricação? “Crime cometido por funcionário público quando, indevidamente, este retarda ou deixa de praticar ato de ofício, ou pratica-o contra disposição legal expressa, visando satisfazer interesse pessoal”.

A RETALIAÇÃO

Continuo. Sabedor da atitude do agente Silva, a secretaria da Fazenda e Gestão Pública, governada pelo prefeito de fato de Gaspar, presidente do MDB, o advogado Carlos Roberto Pereira, no oficio 84/2019, de cinco de julho, solicitou ao prefeito eleito Kleber que se instaurasse um Processo Administrativo visando à apuração da responsabilidade do agente Silva. Segundo o documento, Silva teria informado o MP às “supostas” irregularidades na Ditran, sem antes as ter levado ao conhecimento do seu superior, no caso o Salésio.

O detonou tudo isso, deixou o secretário furioso e com sede de vingança contra Silva? O ofício do dia 26 de junho da promotora Andreza Borinelli, a que cuida na Comarca da Moralidade Pública, pedindo explicações detalhadas como ocorre o processo apreensão, guarda e liberação de veículos apreendidos pela Ditran de Gaspar, para instruir os Autos da Notícia de Fato que havia recebido do agente Silva.

Então a prefeitura de Gaspar em vez de agir contra o superintendente que a deixou exposta, incluindo o prefeito que é em última instância o responsável pelo ato se for tipificado algum crime, resolveu abrir um processo Administrativo contra Silva. Qual a alegação? De que ele não teria comunicado ao superintendente os fatos e supostas as irregularidades do veículo que foi recolhido ao pátio e liberado com os mesmos problemas.

Bobagem. Foi justamente o comunicado e o registro no tal “Livro Parte” do acontecido, e por não ter gerado nenhuma providência que o caso foi parar o MP. Agora, a prefeitura está com novo problema. O Ministério Público acaba de receber outra denúncia do agente Silva: assédio moral por constrangimento inexplicável a que estão lhe submetendo por apenas ter exercido o seu dever de agente público. Se tivesse sido omisso, estaria de bem como todos do poder.

Silva foi deslocado compulsoriamente lá para o pátio de carros apreendidos, sem que lá se tenha algum lugar adequado para ele ficar e sem mesmo que o contrato firmado entre a prefeitura e a AC Kar preveja tal situação.

A transferência imposta – ou autorizada - pelo secretário Carlos Roberto Pereira que cuida da gestão administrativa não especifica qual a “nova” função do agente Silva no exílio do pátio. O agente, no próprio memorando que recebeu e assinou pediu o secretário para especificar quais as suas novas atribuições no posto no pátio, mas até o momento em que fecho este comentário, nada havia oficialmente sido esclarecido ao agente Silva.

Silva está numa salinha improvisada. Depende de favores para ir ao banheiro, ter acesso a água, dispor de alimentos etc, segundo ele relata.

PROPAGANDA ENGANOSA

Este tipo de retaliação ou ameaça em retaliar – o que é o pior de todos -, tem se tornado frequente no governo de Kleber, Luiz Carlos e Roberto. E não abrange só os funcionários comissionados – os quais vivem do faz de conta de trabalhar ou do medo em perder seus empregos políticos – mas, atinge também os efetivos com estabilidade.

O constrangimento e intimidação também se amplia aos que se manifestam publicamente nas redes sociais, aplicativos de mensagens. Na imprensa, os críticos perdem as verbas publicitárias públicas oficiais e dos supostos “apoiadores” do governo, isto sem falar em processos montados na tentativa de censurar notícias, fatos e até opiniões.

Outro alvo de desqualificação sistemática do governo Kleber são os vereadores de oposição – hoje em minoria com a debandada do então líder oposicionista Roberto Procópio de Souza, PDT, para dentro do governo de Kleber. Quando esses vereadores se lançam à simples questionamentos via requerimentos têm reiteradas dificuldades para receberem respostas.

O governo chegou a desafiá-los não respondendo esses questionamentos oficiais e ferindo assim, a Lei Orgânica. Obrigado pela Justiça – que não tinha outra alternativa -, a prefeitura passou a usar o expediente, permitido, para as sucessivas prorrogações ou então a de enviar respostas incompletas para adiar ao máximo o esclarecimento de assuntos aparentemente simples.

Na maioria dos casos, não há explicações e se elas vierem podem se estabelecerem em provas contra à própria administração municipal. Os constrangimentos são de toda a ordem, entre eles, o mais comum é o de esconder a falta crônica de planejamento para as obras. Elas são paralisadas por meses, levando ao sacrifício parte da população como foi o caso da drenagem e asfaltamento da Rua Frei Solano, no Gasparinho. Esqueceram de fazer à licitação da pavimentação, mas na Câmara culpavam a oposição que está atrás das dúvidas da drenagem e que não conseguiu até hoje nem o projeto e nem os esclarecimentos pedidos

CAMINHOS DE FISCALIZAÇÃO

Vários sãos os mecanismos oficiais de fiscalização que podem estar sujeitos uma administração municipal. Os mais comuns são a própria Câmara de vereadores, o Ministério Público e o Tribunal de Contas do Estado.

A Câmara só teve esta ação efetiva no tempo em que foi presidida por Silvio Cleffi, PSC, e a bancada oposicionista foi majoritária e liderada por Procópio. E foi num ocaso isso aconteceu. Ele foi provocado pela arrogância e à falta de diálogo do próprio governo Kleber sob a coordenação política de Roberto Pereira.

Ele quis impor a candidatura à presidência da Casa em 2017, para o exercício de 2018, da mais jovem vereadora de Gaspar e que nem fazia parte do governo, Franciele Daiane Back, PSDB. Perdeu. E para Silvio, médico, funcionário público municipal, evangélico e pasmem, cria do próprio Kleber.

O que os vereadores não conseguiram via a Câmara, por mandado de segurança na Justiça, também pouco conseguiram nas denúncias que fizeram ao MP. Já no Tribunal de Contas começam se avolumar os problemas contra a gestão de Kleber, Luiz Carlos e Roberto Pereira e sob o olho severo do MP daquela instituição. O TCE vem monitorando o que está acontecendo por aqui.

É no TCE que se vai aos poucos desmanchando o discurso dos políticos no poder de plantão em Gaspar do tal corpo fechado para os questionamentos.

O CALCANHAR DE AQUILES

O MP de Gaspar, tanto o que cuida Infância e Juventude, do Meio Ambiente e da Moralidade surpreenderam nas suas decisões. Por muito pouco, quase se permitiu o fechamento a Casa Lar que se manobrava via a secretaria da Assistência Social.

No meio ambiente, o MP usava a técnica de pedir à prefeitura a confirmação das denúncias, como bem acreditar nas alegações oficiais, ao invés de instaurar inquéritos. Eles além não deixarem expostos os denunciantes e que sofreram retaliações, evitariam danos ao próprio MP. Foi só o “olho” da Ouvidoria do próprio órgão que restabeleceu à veracidade processual da denúncia, a priori, refutada com base nas alegações da prefeitura.

No que tange à Moralidade Pública esta Denúncia do Fato feito pelo agente Silva é mais um desses retratos. Nele o denunciante fica exposto e fragilizado diante da máquina pública política no poder de plantão.

Soma-se, que a Oposição política ao atual governo quase não existe. A que está de pé – e com voz na Câmara - está atrelada ao PT, mas prejudicada com amplo desgaste na imagem nacional. Sobra o vereador Cícero Giovane Amaro, PSD, também um servidor municipal, sob intenso tiroteio do poder de plantão para desqualifica-lo e só não está na geladeira por ter imunidade parlamentar. Ele também está incomodado com o desamparo do MP da Comarca para com seus apontamentos.

Se não bastasse isso, na mesma Comarca, há tratamentos diferentes entre o que acontece em Ilhota e Gaspar. Lá quase tudo se estabelece em Inquérito Civil Público e alguns com diligências pedidas à Polícia.

Isto facilita à própria vida do MP e dá mais segurança para seguir adiante, seja para negar ou propor uma Ação Civil Pública por falta, ou presença de elementos que possam tipificar crimes dos agentes políticos e administrativos denunciados, na maioria dos casos, feita por gente anônima e que só faz dessa forma – mesmo não sendo funcionário público – para não sofrer perseguições.

É um assunto delicado. Pois as denúncias também podem ter cunho de vingança dos adversários ou atingidos pelas leis comuns, contra a administração. E isso, pode estimular o excesso de zelo do MP, em relação a Gaspar, especialmente.

Por outro lado, pode-se admitir ao MP com essa prática de pedir antes “explicações” aos gestores, por economicidade investigativa e processual, se o denunciado está ou não, desrespeitando os preceitos legais que são resultados de denúncias. Mas, quando descoberto que ele – com fé pública - mentiu, ludibriou ou omitiu informações, fatos e resultados, a ação e a consequente punição, deveriam vir com mais rigor, acompanhadas do método de constatação, confirmação ou apuração.

O que se verifica é que tudo se restabelece em punições que não atingem os agentes públicos, como foi o caso da invasão da APP do Ribeirão Gasparinho, com a construção de um prédio no Bairro Sete de Setembro.

O agente público quando inquirido disse autorizou algo legal, mas não fiscalizou. O MP não viu problemas. Só quando provocada a Ouvidoria do MP entrou no caso é que o agente público reconheceu o problema que não tinha “visto” anteriormente. E o único punido foi o empreendedor. O agente público, por enquanto, saiu ileso. Então, ele se sente à vontade para não “enxergar” os problemas. Um dia, se pego, tudo vai para a mesa de negociação e quem paga é um terceiro... E se estabelece um ciclo de vícios. Acorda, Gaspar!

TRAPICHE

A Ditran é um poço de problemas há muitos anos. Não é a primeira vez que gente de dentro dela ou do gabinete do prefeito interfere diretamente para atender amigos, aliviar punições e fugir da lei. Ela está com quadro insuficiente de agentes públicos. Há anos não se faz concursos. Não há equipes completas para atender à cidade, laudos, eventos, acidentes, férias, folgas e licenças.

A Ditran não é um órgão técnico. Ela própria não segue a legislação que impõe, corretamente aos outros. Gente sem estar devidamente habilitado e regularmente licenciado dirige veículos com exigências específicas. A Ditran, inclusive, já foi tocada por quem nem habilitado para dirigir estava.

Há poucos dias, seus veículos estavam todos na oficina. A compra de um novo veículo tinha sido cancelada apesar da notória necessidade. Carros da Ditran já foram usados particularmente para compra em supermercados e deslocamento de seus agentes entre a residência e o trabalho, denuncia que foi parar no MP e só devido a ele, foi possível afastar os envolvidos após longo processo.

A Ditran tem sido um local dirigido na maioria dos casos por gente curiosa, ou então para os governantes de plantão pagarem suas contas políticas nas alianças que fazem com partidos e empregando cabos eleitorais, pré-candidatos....

A prestação de contas da aplicação das multas, toda ela orientada pela Conselho Nacional de Trânsito é um caso típico de falta continuada de transparência com a sociedade. Há reiterada suspeita de uso incorreto delas.

O estacionamento rotativo (Área Azul) já parou por falta de blocos de folhas para a marcação dos horários aos usuários. A falta de planejamento mínimo impediu-se à impressão no devido tempo desse material. Houve também desperdício: imprimiram-se tanto de um tipo de marcação – para dez minutos – derrubado por lei, que milhares deles foram parar numa fornalha de uma empresa local.

A Área Azul de Gaspar parou mais uma vez. É que à falta de agentes de trânsito, obrigou a Ditran desviá-los da função e se utilizar os monitores do estacionamento rotativo no desvio da Rua Nereu Ramos, o qual desbarrancou para o Rio Itajaí Açú

Aliás quem quiser conhecer a realidade da Ditran de Gaspar e o que aconteceu com a interdição da Nereu Ramos deve ir ao site da Transparência da prefeitura: mais de R$20 mil reais em horas extras para um pequeno grupo num único mês, além de despesas de alimentação e restituição de combustíveis.

Pelo menos dois agentes saltaram de R$3 mil de salários para mais de R$8 mil bruto. Na Área Azul, quem ganhava em torno de R$1,2 mil, chegou quase a R$4 mil. Apesar disso, não conseguiram evitar, apesar de proibidos, que caminhões passassem pelo desvio e até tombassem lá, e lá ficassem atrapalhando o que já estava improvisado e congestionado.

E para encerrar o retrato da Ditran, da gestão eficiente e que avança em Gaspar, mas que quer punir quem quer a lei igual para todos e não apenas para os amigos dos que estão no poder de plantão.

Um exemplo prático: esta placa colocada pela Ditran está colocada em cima de uma faixa para pedestre – e não é de hoje. A faixa deveria estar livre para a circulação dos pedestres. No caso do desvio da Nereu Ramos, nem a placa oficial de limitação de toneladas e proibição de caminhões conseguiram implantá-la para evitar os abusos e oficialmente agir. Acorda, Gaspar!

 

 

 

 

 

 

 

Comentários

Prestus
06/08/2019 20:43
Nos proximos dias tem algumas bombas prestes a estourar na area da educacao. Aguardemos.
Herculano
06/08/2019 18:29
GAVETA

Do senador gaúcho Lasier Martins, Podemos, no twitter:

"Os pedidos de impeachment de juízes são engavetados e a Mesa Diretora do Senado nem sequer se reuniu neste ano. Temos de nos perguntar se estamos correspondendo às expectativas dos eleitores."
Herculano
06/08/2019 18:25
TIRAR RECEITA DE JORNAIS SUBITAMENTE NÃO É MELHOR SOLUÇÃO, DIZ MAIA SOBRE MP EDITADA POR BOLSONARO

Conteúdo da Agência Reuters. O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), disse nesta terça-feira que tirar receita subitamente dos jornais não é a melhor decisão, ao comentar medida provisória editada pelo presidente Jair Bolsonaro que tira obrigatoriedade de empresas de capital aberto publicarem seus balanços financeiros em veículos de comunicação impressos.

Em entrevista a jornalistas, Maia avaliou que os jornais impressos ainda são instrumento importante para garantir a liberdade de imprensa e comentou declarações dadas mais cedo por Bolsonaro, que disse que a MP era uma retribuição dos ataques que afirma ter sofrido da imprensa.

"Eu acho que a imprensa não está atacando ele. A imprensa está divulgando notícia. Se é contra ou a favor, essa é uma avaliação que cada um de nós tem que fazer quando é criticado ou elogiado pela imprensa. Não acho que o presidente tenha tomado a decisão de editar a medida provisória por isso", disse Maia.
Miguel José Teixeira
06/08/2019 14:55
Senhores,

Da série "há algo mais sob à toga preta"

. . ." O segundo filtro, feito sobre a base anterior, buscou contribuintes com receita superior a R$ 10 milhões e rendimentos isentos acima de R$ 2.500 milhões. Apareceram 134 pessoas nessa situação. Uma delas é ministro do Supremo Tribunal Federal. . ."

Crise sobre crise
ANDRÉ GUSTAVO STUMPF, Jornalista, hoje - 06/08/19, no Correio Braziliense

A Receita Federal, por meio de sua auditoria, lançou uma rede digital sobre 800 mil contribuintes ocupantes de cargos públicos. Foram selecionadas pessoas que declararam rendimentos isentos acima de R$ 500 mil e patrimônio acima de R$ 5 milhões. Nesse primeiro filtro, foram identificados 799 contribuintes, que deverão apresentar as devidas explicações. É o trabalho normal e cotidiano dos fiscais daquela instituição.

O segundo filtro, feito sobre a base anterior, buscou contribuintes com receita superior a R$ 10 milhões e rendimentos isentos acima de R$ 2.500 milhões. Apareceram 134 pessoas nessa situação. Uma delas é ministro do Supremo Tribunal Federal. Os técnicos afirmam que o processo de seleção foi transparente e impessoal. O responsável pelo trabalho é o auditor Marco Aurélio Silva Canal, que está recebendo homenagens e cumprimentos de seus colegas. Ele se transformou no herói inesperado neste início de semestre em Brasília.

O Brasil experimentou crises políticas de vários tipos e tamanhos. Aqui, presidente da República renunciou, Congresso foi fechado em nome de aperfeiçoamento constitucional e até caminhoneiros conseguiram parar o país. A principal consequência de tanta inconsequência é a perda de tempo. O país se distancia cada vez mais do mundo desenvolvido. Nos dias que correm, o presidente da República diz o que quer sem ponderar sobre o que vem depois. Anuncia que colocará seu filho na Embaixada do Brasil em Washington. Se não puder, fará dele o ministro de Relações Exteriores. Simples assim. Além disso, desafia o bom senso no trato do meio ambiente.

Essas são crises usuais. O país está acostumado a viver com elas. No entanto, no momento oportuno, sempre aparece uma palavra sensata, um líder inesperado, o país contorna a beira do abismo e volta a viver breve normalidade. Agora, contudo, ocorre crise diferente. Os ministros do Supremo Tribunal decidiram, eles mesmos, criar mecanismo por meio do qual investigam, produzem provas e julgam os culpados, em processo rápido e inescapável. Ninguém está infenso à decisão do magistrado de mais alto nível do sistema judiciário brasileiro.

Alguns ministros não gostaram de constar em conversas gravadas do procurador Deltan Dallagnol e do ex-juiz e atual ministro da Justiça, Sérgio Moro. As gravações foram obtidas por meios ilegais. Não constituem prova, conforme a jurisprudência do próprio STF. Porém, o ouvido humano foi feito para ouvir e não distinguir o ilegal do interesse próprio. O ministro Luiz Fux decidiu que cópias integrais das gravações devem ser remetidas para o tribunal, onde ficarão a salvo da curiosidade alheia. Os ministros se envolveram em assunto de primeira instância. Esse é um problema. O outro é a investigação conduzida por auditores da Receita Federal. Pegou gente graúda no STF.

Alguns ministros partiram para o ataque. É a primeira crise que o Supremo Tribunal Federal, o reino das excelências, figura como protagonista ativo de uma crise. Ministros do mais alto tribunal brasileiro assumem posições de destaque em função de ideias, pareceres ou votos revolucionários. No mais das vezes, são senhores discretos, recatados, até engraçados, mas sempre ciosos da gravidade de suas intervenções. Muito tempo atrás tive como colega, em curso de eletrônica básica, o ministro Vitor Nunes Leal. Ele chegava ao colégio dirigindo seu carro, sem segurança, e se comportava como um aluno qualquer. Discutia em sala de aula, pedia conselhos e ajuda para concluir a tarefa, que era montar um rádio. Ele conseguiu. E nunca deu uma palavra sobre suas tarefas no Supremo. Bom colega.

Essa nova crise é complicada e profunda. Inédita. O ataque direto aos principais personagens da Operação Lava-Jato pode produzir a dissolução desse grupo de procuradores da Justiça que conseguiu colocar o pessoal de colarinho branco na cadeia. E arrecadou apreciável quantidade de dinheiro recuperado da corrupção. Além disso, há a ameaça permanente de acabar com a prisão em segunda instância. A consequência direta de uma decisão desse calibre seria a libertação do ex-presidente Lula. E a consequência da consequência seria elevar muito o confronto entre direita e esquerda no país.

E o pessoal da Receita Federal corre o risco de entrar na linha de tiro das excelências. Continua a haver mais iguais entre os iguais no Brasil do século 21. O país resiste à possibilidade de modernização e democratização. Subdesenvolvimento não se improvisa.
Herculano
06/08/2019 12:58
RETRATO DE GASPAR NA NSC

Estou de alma lavada mais uma vez. Depois sou eu que exagero.

A reportagem mostrou a ausência da Ditran, da secretaria de Planejamento Territorial e principalmente da secretaria de Obras e Serviços Urbanos, Jean Alexandre dos Santos, o aparentado.

Enrolou e não disse quase nada, mas diretamente disse que a culpa é do gabinete do prefeito que está para resolver as questões e ainda não fez reuniões para tal. Normal.

Sobre o caminhão pipa para amenizar à situação, o engenheiro na sua sabedoria disse: "olha, eles estão fazendo horas extras além da hora". Como? Acorda, Gaspar!
Herculano
06/08/2019 12:29
JOGA PEDRA NA GENI

De Guilherme Fiuza, no twitter:

Não tem esporte mais seguro no Brasil que jogar pedra em governo. O Plano Real foi criado e implantado apesar dessa coreografia fantasiada de resistência. É um vidão. Qualquer idiota se transforma em personagem cívico sem precisar construir nada - e detonando quem quer construir.
Herculano
06/08/2019 12:09
A PAUTA QUE INTERESSA, editorial do jornal O Estado de S. Paulo

Os arroubos presidenciais não têm abalado o ambiente no Congresso, que retoma seus trabalhos hoje, para tocar os projetos de interesse do País

O Congresso retoma seus trabalhos hoje, depois de 20 dias de recesso, tendo em sua pauta diversos temas de grande relevância para o País. A Câmara pode encerrar o segundo turno de votação da reforma da Previdência já nesta semana, encaminhando a matéria para o Senado. Também estarão em discussão propostas para uma reforma tributária, além da revisão do marco regulatório para o saneamento básico.

Tudo isso está sendo negociado com escassa participação do governo federal. No período em que o Congresso não funcionou, o presidente Jair Bolsonaro não tocou em nenhum dos assuntos que serão apreciados pelos parlamentares. Passou as últimas semanas a dar declarações polêmicas sobre as mais variadas questões, com entrevistas e manifestações públicas diárias, causando mal-estar aqui e no exterior em diversos momentos.

Em condições normais, tal comportamento por parte do presidente da República poderia tumultuar o processo legislativo, especialmente diante de uma agenda tão politicamente espinhosa como a que se apresenta agora para os parlamentares. Pelo que se observa até aqui, no entanto, os arroubos presidenciais não têm sido capazes de abalar de modo significativo o ambiente no Congresso nem o empenho das lideranças parlamentares em tocar os projetos de interesse do País.

É uma situação peculiar. Algumas das grandes crises nacionais do passado se deram em razão da dificuldade de superar impasses entre Executivo e Legislativo, momentos em que a agenda política foi dominada por interesses imediatistas e particulares em detrimento do coletivo e do longo prazo. Hoje, aparentemente, não existe esse impasse, pela simples razão de que a relação entre Executivo e Legislativo é pouco menos que protocolar, ainda que sujeita a alguns acidentes.

Desde a posse de Jair Bolsonaro, ficou claro que o Executivo, por decisão do presidente, não teria nenhuma base no Congresso. Bolsonaro até ensaiou uma aproximação com os presidentes da Câmara, Rodrigo Maia, e do Senado, Davi Alcolumbre, e também com os líderes de partidos potencialmente governistas, mas a maioria dessas tentativas se revelou desastrosa. Em lugar de construir pontes para facilitar a aprovação dos projetos de interesse do governo, tais reuniões serviram para deixar claro aos parlamentares que Bolsonaro não estava disposto a dividir com eles o ônus da aprovação de medidas que exigirão sacrifícios da população.

O resultado disso foi a mobilização dos parlamentares, capitaneada por Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre, para que o Congresso passasse então a ser o protagonista das reformas. Nesse processo, aliás, não foram poucas as vezes em que os líderes reformistas tiveram que enfrentar o próprio presidente da República quando este procurou defender os interesses de corporações para preservar privilégios no sistema de aposentadorias.

Assim, se não ajuda, o presidente Bolsonaro poderia se esforçar um pouco para atrapalhar menos. No curto período de recesso parlamentar, o presidente ofendeu governadores do Nordeste e os nordestinos, vilipendiou a memória de um perseguido pela ditadura militar, atacou a imprensa e prejudicou a imagem do Brasil no exterior na área ambiental, entre outros desatinos. Tal comportamento, naturalmente desagregador, não costuma render votos no Congresso.

Felizmente, ao que parece, o Congresso tem se mostrado indiferente aos rompantes do presidente. Mais do que isso: tem enfrentado as grandes questões nacionais sem esperar as propostas do Executivo ?" que, quando finalmente são encaminhadas, ou chegam tarde, ou vêm carregadas de irregularidades.

É evidente que essa situação sui generis não pode perdurar. Num regime presidencialista, é o presidente da República que conduz o debate político, porque foi eleito com uma plataforma de governo apoiada pela maioria dos eleitores. No entanto, se o presidente se ausenta desse debate, ou se prefere intoxicá-lo com impropérios e temas de pouca relevância, resta torcer para que o Congresso continue a fazer sua parte, a despeito da desorientação dos governistas, da vocação fisiológica dos oportunistas de sempre e da escassez de uma oposição digna do nome.
Herculano
06/08/2019 12:05
UM EXEMPLO DE COMO MINISTROS DO STF E POLÍTICOS TRABALHAM A FAVOR DOS CRIMINOSOS. SEM OS DADOS E A INTELIGÊNCIA DO COAF E DA RECEITA FEDERAL NÃO SERIA POSSÍVEL ESTA MANCHETE E ESTA AÇÃO

OPERAÇÃO EM 7 ESTADOS CONTRA NÚCLEO FINANCEIRO DE FACÇÃO CRIMINOSA PRENDE 28 PESSOAS

Investigação identificou que grupo controlava arrecadação de dentro da Penitenciária Estadual de Piraquara, na Região Metropolitana de Curitiba.

Conteúdo do portal G1, Paraná. A Polícia Federal deflagrou na manhã desta terça-feira (6) uma operação com o objetivo de desarticular o núcleo financeiro de uma facção criminosa com atuação nos estados do Paraná, São Paulo, Minas Gerais, Pernambuco, Mato Grosso do Sul, Acre e Roraima. Segundo a PF, 28 pessoas foram presas - 26 por mandados e duas em flagrante.

Inicialmente, a Polícia Federal havia informado que 32 pessoas tinham sido presas, mas depois afirmou que quatro mandados de prisão ainda não foram cumpridos.

Oito dos mandados de prisão foram cumpridos contra pessoas que cumprem penas em presídios do Paraná, São Paulo e Mato Grosso do Sul. Foram cumpridos também 55 mandados de busca e apreensão.

Segundo a PF, uma investigação identificou a existência de uma espécie de núcleo financeiro do Primeiro Comando da Capital (PCC) dentro da Penitenciária Estadual de Piraquara, na Região Metropolitana de Curitiba.

O foco da operação de hoje é atuar no sufocamento dessas atividades dessa facção criminosa", afirmou o superintendente da Polícia Federal no Paraná, Luciano Flores.

De acordo com a polícia, o núcleo é responsável por recolher e gerenciar contribuições para a facção em todo o país. A polícia informou que cerca de 418 contas bancárias controladas pelo grupo foram bloqueadas.

A investigação apontou que os pagamentos eram repassados ao grupo por contas bancárias de maneira intercalada para dificultar o rastreamento por parte de órgãos de fiscalização.

Segundo a PF, cerca de R$ 1 milhão por mês circulavam nas contas mantidas pelo núcleo.

"São contas de passagem, utilizadas para administrar valores, e não para manter grandes quantias em depósito", afirmou o delegado da PF e coordenador da operação, Martin Bottaro Purper.

De acordo com a PF, o dinheiro arrecadado era utilizado para a compra de armas e drogas e bancar transporte e estadia de familiares dos presos próximo aos presídios onde os membros do grupo estão detidos.

"Eles arrecadam valores dos seus comparsas através de 'rifas', por exemplo, cobrados de dois em dois meses ou por mensalidades. Esse valor sai das bases e chega até os líderes, que são quem arrecadam o dinheiro", disse Purper.

Segundo a polícia, a comunicação do núcleo era feita por meio de bilhetes levados por parentes dos presos.

Os mandados foram cumpridos por 180 agentes em 23 cidades diferentes.No Paraná:Piraquara,Curitiba,São José dos Pinhais, Paranaguá,Centenário do Sul,Arapongas,Londrina,Umuarama,Pérola,Tapejara,Cascavel,Guarapuava

Em São Paulo: São Paulo,Praia Grande,Itapeva,Osasco,Itaquequecetuba e Hortolândia

Em Minas Gerais: Uberlândia

No Mato Grosso do Sul: Dourados

No Acre: Rio Branco

Em Roraima: Boa Vista

Em Pernambuco, Caruaru

A ação foi batizada de Operação Cravada e foi deflagrada em conjunto com o Departamento Penintenciário Federal, Ministério Público do Paraná, Secretaria de Administração Penitenciária do Estado de São Paulo e Polícia Militar de São Paulo.
Herculano
06/08/2019 11:55
SENADOR PETISTA E "JUÍZES PARA A DEMOCRACIA", VEJAM Só, DEBATEM PACOTE ANTICRIME DE MORO debatem pacote

É quase uma piada: o líder petista Humberto Costa comanda nesta manhã uma audiência pública, na CCJ, sobre o pacote anticrime de Sergio Moro.

O senador pernambucano, claro, só convidou sua turminha para debater a proposta.

Tem até representante da tal Associação Juízes para a Democracia, aquela entidade de caráter político-partidário que acha que o Brasil está sendo "soterrado por uma plutocracia fascista", diz que Lula é um "preso político" e tem restrições à democracia burguesa.
Herculano
06/08/2019 11:51
O PRESIDENTE DESINFORMANTE, por Carlos Andreazza, editor de livros, no jornal O Globo

Ele estica a corda do ultraje ao máximo para testar fidelidades

O presidente da República mente. Não terá sido o primeiro. Em Bolsonaro, porém, a mentira é estratégia, método mesmo, e está a serviço da desinformação. A desinformação como política de governo. Aliás: que um revolucionário da cepa de Jair Bolsonaro - um desconstrutor reacionário - tenha podido se inscrever no imaginário político brasileiro como um conservador é a própria afirmação da influência da operação desinformante.

Repito: a desinformação é política de governo. Não exagero. Está em curso, desde o Planalto, um programa de relativização absoluta da verdade, de flexibilização daquelas balizas levantadas a partir do estudo, processo que depaupera o valor do acúmulo de experiências, o rebanho de saberes sobre os quais assentamos o erguimento da civilização ?" o que, conforme o espírito do tempo, deságua, aí está, em desapreço por expressões fundamentais de nosso pacto social contra a selvageria, donde, na prática, os ataques dirigidos e estimulados às instituições que encarnam a democracia representativa, a defesa do contraditório e a guarda da Constituição.

A imposição do bolsonarismo investe numa blitz cujo ímpeto destruidor de princípios resulta em que se considere equivalentes dados objetivos, colhidos com ciência, e a negação autoritária destes, sem qualquer base técnica que os refute.

Tanto a fala cretina sobre a morte de Fernando Santa Cruz quanto aquela, mistificadora, relativa ao desmatamento têm lastro numa modalidade de discurso impostor que consiste em desqualificar permanentemente a história, as estatísticas, os mapeamentos empíricos, as comprovações científicas etc. Há uma intenção narrativa: desqualificar o conhecimento e a fiscalização, jornalismo incluído, de modo a que sobre tudo paire suspeição. Trata-se de um movimento consciente na direção de deslegitimar, isto para que tudo quanto seja incômodo possa ser também rebaixado ?" desacreditado ?" como produto de uma armação ideológica contra um governo em busca da verdade. Registre-se que tal modus operandi também serve para diluir atenções ante a "velha política" praticada pela nova corte e sua fome patrimonialista.

O presidente é um desinformante, um dos caráteres constitutivos da mentalidade bolsonarista por meio do qual se cultiva a forja de conflitos, de crises artificiais, que anima o fenômeno político reacionário, essencialmente ressentido, que alavancou e sustenta a liderança carismática de Bolsonaro. Ele só surpreende o ingênuo que supunha que seu avanço, uma vez eleito, pudesse ter outro norte senão o da radicalização, do acirramento de cismas institucionais, de rachas nos princípios republicanos, de polarizações, de multiplicações de novos "nós contra eles", cujo evidente objetivo é escalpelar - devastar - o terreno onde o centro político poderia se rearranjar. Desnecessário dizer que onde não há centro não haverá estabilidade.

O presidente trabalha para desequilibrar; estica a corda do ultraje ao máximo para testar fidelidades e firmar a bolha eleitoral que o manterá competitivo.

Suas manifestações estúpidas recentes não são exceções, mas previsíveis desenvolvimentos de um texto iliberal que promove um projeto autoritário de poder ancorado numa modalidade de campanha permanente para a qual é imprescindível a eleição constante de ameaças e inimigos conspiradores - em face dos quais o único caminho é recrudescer. O Brasil está - pelo menos desde 2013 - em depressão política aguda; doença de que Bolsonaro é a mais alta febre.

Há quem possa conviver com isso - com a mentira, com o esgarçamento do tecido social, com a depredação do ambiente de convívio político, com a intimidação do dissenso - porque, afinal, as reformas evoluem. A esses lembro ?" pois já havia advertido - que a última escalada autocrática de Bolsonaro é decorrente da sensação de liberdade que a aprovação da nova Previdência lhe dá. Temos um presidente que despreza o Parlamento - e do qual agora se crê menos dependente. Ele vai pra cima.

Boa política econômica - está provado - qualquer tirania pode encaixar. Incontornável é proteger os marcos democráticos; de resto, a única garantia de durabilidade para qualquer programa liberal. Que os cínicos não se percam disto. E tampouco do quão improvável é que reformas estruturais profundas possam se plantar num terreno de imprevisibilidade semeada pelo próprio presidente.

A história é cheia de exemplos de para qual destino pende o liberal que imagina poder instrumentalizar um autoritário populista: é clarear um tantinho o horizonte de curto prazo, afrouxar um pouco o nó fiscal, por meio do que o governo retome alguma capacidade de investir, para logo se tornar dispensável.
Herculano
06/08/2019 11:47
UMA NOVIDADE PROMISSORA, editorial do jornal O Estado de S. Paulo

Atual legislatura do Congresso é diferente da anterior

A ampla renovação do Congresso Nacional ocorrida nas eleições do ano passado trouxe a expectativa de um Poder Legislativo mais probo, mais responsável e mais eficiente ?" em suma, mais cônscio de seu papel para a sadia evolução dos negócios do País. Junto a essa lufada de esperança, havia certa de dúvida. Por mais alta que tivesse sido a taxa de renovação, não se sabia se a mudança de nomes representaria uma efetiva mudança das práticas políticas, que é o que realmente importa. Em muitas eleições passadas, caras novas no Parlamento serviram apenas para dar continuidade a velhos e deploráveis costumes.

Decorridos mais de seis meses da nova legislatura é possível afirmar que ela é muito diferente da legislatura anterior. E não apenas os nomes são novos. As práticas de fato mudaram. Trata-se de uma novidade realmente espetacular, seja pelo que essa mudança pode proporcionar ao País, seja porque foi uma alteração profundamente democrática, originada das ruas.

O que se observa no Congresso é resultado direto do voto depositado nas urnas. Ou seja, as eleições de outubro de 2018 mostraram que, ao contrário do que tantas vezes se ouve, o voto individual pode mudar os rumos da política e do País. A democracia não é uma enganação coletiva. Quando se quer ?" quando de verdade se quer ?", é possível mudar. Não convém desperdiçar essa lição tão positiva das eleições passadas: o voto individual é decisivo e merece ser escolhido com a máxima responsabilidade.

A atual legislatura tem três características especialmente positivas, que a tornam muito diferente das antecedentes, especialmente da imediatamente anterior. Em primeiro lugar, vê-se que o Congresso trabalha a partir de uma agenda de prioridades. Esse trabalho coordenado, especialmente importante num Poder colegiado, ficou muito evidente pelo modo como as reformas da Previdência e do sistema tributário são tramitadas. A despeito de suas dificuldades típicas, assuntos complexos vêm sendo enfrentados de forma operativa, com a formação dos necessários consensos e maiorias.

A segunda característica está relacionada ao fato de que a atual legislatura se mostra muito mais sintonizada com o interesse público. As atuais prioridades do Congresso são temas popularmente difíceis, que de modo algum podem ser classificados como populistas ou de interesse particular dos parlamentares. Observa-se, tanto na Câmara como no Senado, uma clara preocupação com o País.

Não menos importante é a terceira característica da atual legislatura. Ela é mais proba, não se movendo primariamente em função do toma lá dá cá. Pelo que se viu no primeiro semestre, a Câmara e o Senado não foram transformados num balcão de negócios.

Talvez essa maior probidade não tenha sido suficientemente notada por um equívoco dos próprios parlamentares que estão fora das extremidades do espectro político. Apesar das evidentes diferenças com o que ocorria na legislatura anterior, esses políticos continuam denominando seu lugar político de "centrão", o que inexoravelmente remete, entre outras tristes lembranças, aos costumes do sr. Eduardo Cunha, ex-presidente da Câmara.

Tão enganoso quanto não ver as melhoras ocorridas na atual legislatura, seria achar que no atual Congresso não há gente interesseira ou desonesta. É imperioso continuar com o saneamento da política, que é renovação dos costumes e dos critérios de atuação. A continuidade desse processo virtuoso se deve dar nas eleições municipais do ano que vem, quando o eleitor terá condições formais de promover uma profunda melhoria da política local, com a escolha de representantes honestos e competentes para o Executivo e para o Legislativo. Tal passo é decisivo, seja para que o cidadão incorpore cada vez mais a necessidade da responsabilidade na hora de votar, seja para que partidos e políticos também tomem consciência de que o eleitor, com o seu protagonismo, está mudando a política. Há espaço - e cada vez deve haver mais - para gente honesta e competente. A atual legislatura confirma tal realidade.
Herculano
06/08/2019 11:45
O ETERNO DUELO, por Merval Pereira, no jornal O Globo

Lula criticou o Ministério do Meio Ambiente, comandado por Marina, e disse que não se poderia culpar a agropecuária

O embate entre desenvolvimentistas e ambientalistas é constante nos últimos dez anos, e não importa se o governo é de esquerda ou de direita. As discussões são recorrentes, a disputa entre a agricultura e o meio-ambiente persiste, e os problemas e soluções são semelhantes.

O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) sempre foi uma pedra no sapato dos governantes. A crise gerada pelos números sobre o desmatamento da Amazônia, que levou à demissão do presidente do INPE, é uma repetição do que ocorreu em 2008, quando o então presidente Lula desacreditou os números do órgão, negando que o país estivesse passando por um novo surto de desmatamento. Não chegou a demitir seu presidente, mas atribuiu ao órgão números errados que colocou "sob investigação".

Para o presidente, houve "alarde na divulgação dos números". Lula criticou o Ministério do Meio Ambiente, que era comandado por Marina Silva, e as ONGs, e disse que não se pode culpar a agropecuária, os produtores de soja e os sem-terra assentados pelo aumento do desmatamento na Amazônia. Lula afirmou ainda que pretendia " comprar briga" com as organizações não-governamentais (ONGs) se elas insistissem em ligar o crescimento da agricultura ao desmatamento.

O desenvolvimento da região sempre foi uma preocupação de Lula, que a certa altura, em discurso na inauguração de uma usina de biodiesel no Mato Grosso, afirmou que queria levantar todos os "entraves que eu tenho com o meio ambiente, todos os entraves com o Ministério Público, todos os entraves com a questão dos quilombolas, com a questão dos índios brasileiros, todos os entraves que a gente tem no Tribunal de Contas, para tentar preparar um pacote, chamar o Congresso Nacional e falar: 'Olha, gente, isso aqui não é um problema do presidente da República, não. Isso aqui é um problema do País". As diversas organizações ambientalistas, daqui e do exterior, criticaram Lula por opor o meio-ambiente ao desenvolvimento.

Na assinatura da concessão para a construção da Usina de Belo Monte, Lula disse: "Vocês nem imaginam quantos discursos fiz contra a construção de Belo Monte. "E é exatamente no meu governo que ela acontece". O presidente lembrou na ocasião diversos casos de obstáculos a obras na região, desde uma caverna que seria inundada para a construção da usina Tijuco Alto, uma "machadinha" que sinalizaria um sítio arqueológico ou a "perereca" que atrasou as obras de duplicação da BR-101, no Rio Grande do Sul. Sem falar dos bagres do Rio Madeira, que tanto incomodavam Lula na construção das hidrelétricas de Jirau e Santo Antonio.

O ministro do Meio Ambiente de Bolsonaro, Ricardo Salles, queria usar o Fundo Amazônia para indenizar proprietários rurais em unidades de conservação, para fazer a regularização fundiária. Os críticos o acusam de estar favorecendo os grileiros em áreas protegidas. Pois o então ministro Mangabeira Unger, do Planejamento Estratégico, quando assumiu o Programa da Amazônia Sustentável (PAS), teve a mesma proposta. Aliás, o fato de Lula ter dado a Mangabeira o projeto para a Amazônia foi a gota d'água para a saída da ministra do Meio-Ambiente Marina Silva, assim como, anteriormente, o então deputado federal Fernando Gabeira havia deixado o PT devido a divergências, especialmente pela política ambientalista.

Foi editada uma medida provisória que regularizava a posse de terra na Amazônia, muito criticada como nociva à preservação ambiental. Para Mangabeira, "nada na Amazônia vai avançar, nenhum aspecto do desenvolvimento sustentável includente, se não resolvermos o problema da terra". Mangabeira tinha à época o mesmo argumento que Salles tem hoje: "Vamos poder regularizar a situação de 500 mil famílias urbanas e 400 mil famílias rurais. Essa é a população que construiu a Amazônia, que está construindo a Amazônia". Mangabeira Unger dizia que chamá-los de grileiros é o mesmo que chamar de grileiros os que ocuparam e construíram os Estados Unidos ou a Austrália.

A disputa entre Agricultura e Meio-Ambiente é outra situação recorrente. Lula chegou a ter na sua base de apoio o governador do Mato Grosso Blairo Maggi, o maior plantador de soja do mundo, a quem a ONG Greenpeace concedeu a Motoserra de ouro pelo desmatamento da Amazônia, e Marina Silva no Meio-Ambiente.
Herculano
06/08/2019 11:43
da série: é histórico. O que salva ou faz um governo num regime democrático afundar mais rapidamente é a geração de empregos, a desenvoltura da economia e à percepção de oportunidades do sonho de realização de cada um na sociedade minimamente juridicamente estável e segura

A ECONOMIA DEVE SALVAR BOLSONARO DO IMPEACHMENT, por Pedro Menezes, no site Gazeta do Povo, Curitiba PR

"Dilma Rousseff não sofreu impeachment por praticar pedaladas fiscais. Petistas adoram esse argumento, mas esquecem do complemento natural: Collor não caiu pelos esquemas de PC Farias, assim como Richard Nixon não foi derrubado pelo escândalo Watergate. Crimes de responsabilidade costumam ser coadjuvantes nesses processos. O que realmente determina um impeachment é a combinação destrutiva de crises política e econômica.

Nos tempos do impeachment de Dilma, muitos cientistas políticos foram à imprensa comentar por que um presidente cai. Três fatores foram os mais citados: crise econômica, impopularidade e base parlamentar frágil.

A base parlamentar de Bolsonaro não é das melhores, mas o clima no parlamento é muito distinto daquele que caracterizou os últimos dois processos de impeachment. A esta altura de 2015, o Congresso Nacional trabalhava ativamente para atrapalhar o governo. Sob Bolsonaro, o parlamento trabalha com independência e foco numa agenda econômica alinhada ao governo. A atual insatisfação difusa dos deputados não se compara com a hostilidade aberta que precedeu o último impeachment.

É claro que tudo isso pode mudar nesse front. O presidente parece disposto a isso quando ameaça nomear seu filho Eduardo como chanceler, caso o Senado rejeite sua indicação para a embaixada em Washington. Esse tipo de chantagem não costuma acabar bem.

Na popularidade, o presidente também vai mal. Seus índices de aprovação caem consistentemente desde janeiro em todos os institutos de pesquisa, enquanto a rejeição cresce. No primeiro Ibope do ano, 49% dos eleitores avaliavam o presidente como ótimo ou bom em janeiro e 11% o viam como péssimo ou ruim. Ou seja, haviam quatro bolsonaristas e meio para cada antibolsonarista. Na última pesquisa, essa razão era de um para um: 32% da população acha o governo como ótimo ou bom e o mesmo percentual o avalia como péssimo ou ruim.

Nesse campo, apesar de ir mal, Bolsonaro também está melhor que Dilma e Collor. Os 33% de rejeição do atual presidente no último Datafolha contrastam com os quase 70% que rejeitavam os dois antecessores que forem chutados do cargo.

Apesar de fraco no diálogo com o Congresso e cada vez mais impopular, o presidente passa longe de Dilma e Collor. O problema é que o terceiro elemento do tripé ?" uma crise econômica ?" tem potencial para enfraquecer o presidente simultaneamente nos fronts parlamentar e popular. Se a economia afundar, o presidente pode perder apoio e corre risco de cair.

O crime de responsabilidade é juridicamente importante, mas factualmente secundário num impeachment. Os casos de Dilma e Collor tiveram um contexto econômico similar, combinando profunda recessão e inflação.

Em 1990, o PIB brasileiro caiu 4,35%. Em 2015 e 2016, a queda ficou em 3,55% e 3,31%. Nos dois primeiros anos do governo Bolsonaro, segundo expectativas de mercado registradas no último boletim Focus do Banco Central, o PIB deve crescer 0,82% e 2,1%.

Sobre o PIB, a diferença de contexto pode ser vista no gráfico abaixo. Nele, o crescimento da economia sob Dilma e Collor é comparado com as projeções do Boletim Focus para o governo Bolsonaro. A conclusão é evidente: o desempenho é melhor e a trajetória esperada é de retomada, e não de crise como nos casos anteriores.


Cabe também notar que tanto o impeachment de Dilma quanto de Collor ocorreram em contextos de inflação alta e acelerada. O IPCA chegou a 10,7% em 2015 e 6,3% em 2016. Já o governo Bolsonaro começa sob inflação baixa, abaixo de 4%, e a expectativa atual do Boletim Focus é de continuação desse cenário até 2022.

Vale notar que a alta nos preços também aparece nitidamente no impeachment de Richard Nixon nos EUA, em 1974 ?" ano em que a inflação americana atingiu um dos maiores níveis da sua história, chegando a 11,1%. Já Bill Clinton, julgado pelo Congresso em período favorável para a economia, foi absolvido.

Um cenário de aceleração da inflação e volta da recessão, hoje, pode acontecer de duas formas. A primeira seria por crise internacional, que levaria à alta do dólar, elevando os preços e o desemprego. Essa é uma hipótese que segue em aberto, mas é cada vez menos provável ?" assim como Bolsonaro teria maior facilidade para se livrar da culpa por um problema global.

Por outro lado, a segunda possibilidade seria um colapso das contas públicas devido à não aprovação do ajuste fiscal. Com a reforma da Previdência andando, esse cenário fica cada vez menos provável. É curioso que as conversas sobre impeachment tenham voltado à tona logo após a aprovação do projeto em primeiro turno, justamente quando um afastamento de Bolsonaro se tornou menos provável.

É claro que crimes de responsabilidade importam. Ao abrir a boca sem qualquer cuidado, o presidente se expõe desnecessariamente a argumentações sobre a Lei de Impeachment. Mas todos os presidentes eleitos no Brasil tiveram algum pedido de impeachment apresentado contra si. Só dois caíram.

O presidente, boquirroto nato que não faz noção do que é democracia, parece se esforçar para incentivar debates sobre impeachment, mesmo num país tão fragilizado quanto o Brasil pós-Dilma. Apesar disso, Paulo Guedes segue no cargo e o resto do mundo continua crescendo. Os juristas odiariam admitir, mas, nestas condições, não há quebra de decoro que derrube Jair Bolsonaro antes de 2022."
Herculano
06/08/2019 07:48
ATRÁS DO DINHEIRO QUE SUSTENTA AS ORGANIZAÇÕES CRIMINOSAS

Conteúdo da Band newsA Polícia Federal deflagrou, na manhã desta terça-feira (06), a Operação Cravada visando desarticular núcleo financeiro do Primeiro Comando da Capital (PCC). São cumpridos 55 mandados de busca e apreensão, 30 mandados de prisão, expedidos pela Vara Criminal de Piraquara-PR.
Herculano
06/08/2019 07:40
GOVERNADORES QUEREM COLOCAR O NORDESTE "CONTRA O RESTO DO BRASIL", DIZ BOLSONARO

Conteúdo de O Antagonista. Acusado por seus adversários de adotar um discurso que divide o país, Jair Bolsonaro afirmou que a maioria dos governadores do Nordeste age, hoje, para colocar a região "contra o resto do Brasil".

Segundo o presidente, quem começou a apostar na divisão entre os brasileiros foi o PT.

"O PT lançou a divisão entre nós. E nós temos de nos unir. Agora mesmo estão tendo indícios de que, se não todos, a maioria dos nove governadores do Nordeste quer começar a implementar a divisão do Nordeste contra o resto do Brasil", afirmou Bolsonaro em entrevista ao Estadão.
Herculano
06/08/2019 07:17
SOBRE O ANARCOCAPITALISMO, por Joel Pinheiro da Fonseca, economista e mestre em filosofia, no jornal Folha de S. Paulo

O Estado precisa melhorar, não se ausentar

Ideias antes tidas por absurdas e indignas de consideração agora ocupam espaço no debate público. Isso é consequência da democratização promovida pelas redes sociais; não vai mudar. Aqueles que defendem ideias e valores mais normais - e com mais respaldo científico e acadêmico - terão de aprender a travar esses debates em pé de igualdade. As credenciais contam muito pouco. Fingir que as ideias bizarras não existem não reduz sua influência.

O anarcocapitalismo - investigado em reportagem de Fabio Zanini para a Folha - é uma dessas opiniões. É a proposta de que o Estado deixe de existir, mas não a propriedade privada. Ele nos desafia a voltar aos conceitos básicos e indagar: por que o Estado é desejável?

O Estado brasileiro é notoriamente ineficiente. O caos tributário, a má vontade regulatória, a multiplicação de estatais e a má qualidade do serviço público tornam compreensível o apelo de uma utopia anárquica.

A propriedade privada e a livre iniciativa, que dão origem ao processo de mercado, são instituições brilhantes por harmonizar o interesse individual ao coletivo: mesmo o mais egoísta se vê obrigado a oferecer algo de valor aos demais para receber deles algo em troca. Com o uso da moeda, esse processo gera preços que, por sua vez, transmitem informação sobre a escassez relativa dos diversos bens e serviços, de maneira muito mais dinâmica e aberta à correção constante do que qualquer planejador central seria capaz.

Mas isso não dá conta de todos os nossos problemas. A proteção ao meio ambiente é um deles. Há interesses para destruir e poluir, gerando lucros astronômicos para alguns (e, sim, preços mais baixos) no curto prazo. Mas e o preço pago pelos afetados pela poluição e pelo desmatamento? E as gerações futuras pagarão por essa escolha? Isso não é contabilizado no mercado.

A existência de um mercado dinâmico, que gere empregos, é condição necessária para a ascensão social das classes mais baixas. Mas sem um sistema que garanta acesso à educação, saúde e um mínimo de condições de vida, essa ascensão fica muito mais sofrida e incerta. O Brasil já viveu sem que o Estado se preocupasse em universalizar a educação: o resultado era o analfabetismo geral. Ele precisa melhorar, não se ausentar.

Em séculos passados, a teoria da propriedade proposta por John Locke (se um pedaço de terra não tem dono, o primeiro que se apropriar dele com seu trabalho vira o dono) justificou a tomada violenta de terras comunitárias na Inglaterra e de territórios indígenas nas colônias americanas. Hoje, justificaria o desmatamento da Amazônia.

Afinal, é o aparato estatal que age ilegitimamente ao obstruir o trabalho de madeireiros, garimpeiros e grileiros sobre terras sem dono.

Há ainda o problema da desigualdade. O capitalismo desenfreado sem nenhum anteparo estatal partiria da desigualdade de riquezas e oportunidades tal como ela é nos dias de hoje. E o processo histórico que gerou essa realidade desigual não se pautou, nos últimos 500 anos, pelas regras da livre concorrência e da meritocracia...

Qual o valor de defender uma liberdade abstrata se essa defesa resultará, na prática, em muita liberdade para poucos privilegiados enquanto muitos carecem do básico e, portanto, da liberdade de se desenvolver? Por que a liberdade que depende da redistribuição vale menos do que a que depende da manutenção da propriedade atual? Menos Estado não significa necessariamente mais liberdade.
Herculano
06/08/2019 07:11
da série: a imprensa catarinense dá pouca importância, mas, finalmente, um esquema de corrupção montado a partir do governo de Luiz Henrique da Silveira, MDB, já falecido, Leonel Arcanjo Pavan, PSDB, mas perpetuado no governo de Raimundo Colombo, PSD, e Eduardo Pinho Moreira, MDB, começa a ser desembrulhado. As pressões são terríveis e de todos os lados para que nada saia do papel e às ruas.

O que contribuem para isso? A mudança do governo que não era fruto do esquema de poder político; a saída da RBS de Santa Catarina que mantinha o monopólio da in formação; o clima de caça as bruxas; e a falta de dinheiro para o governo bem como a resistência do velho esquema em deixar o atual governo se estabelecer na governabilidade.

CHOQUE DA CIVIL, por Carlos Prisco Paraíso

Depois das duas bombásticas operações federais em Santa Catarina no primeiro semestre, tendo a PF na linha de frente, ontem (sexta-feira dia dois) foi a vez da Polícia Civil deflagrar a Curto-Circuito, baseada em mais de dois anos de investigações sobre desvios milionários na Celesc. O montante surrupiado dos cofres da companhia chega a R$ 17 milhões em valores corrigidos.

Os agentes cumpriram 20 mandados. Três pessoas estão presas, mas os nomes não foram divulgados.

O esquema criminoso, segundo a polícia, funcionou por longos oito anos, de 2009 a 2017. Ou seja, se iniciou na transição dos governos de Luiz Henrique da Silveira e Raimundo Colombo.

Alcance

A partir da minuciosa investigação, que culminou com as prisões e apreensões de documentos, equipamentos eletrônicos e até dinheiro, certamente os Civis terão todas as condições de desbaratar a quadrilha inteira, caso existam mais envolvidos.

Fio da meada

Neste primeiro momento, tudo leva a crer que os detidos ontem são aquilo que se chama de café pequeno. Haveria peixes grandes por trás de mais esta engrenagem criminosa.

Sofisticação

Quem acompanha mais de perto o desfecho da Operação Curto-Circuito tem se impressionado com a engenharia de corrupção montada por essas figuras já identificadas e detidas. Também causa estupefação o fato de o setor contábil da Celesc ter permanecido oito anos sem identificar os desvios milionários.

Déjà vu

O modus operandi da quadrilha que começa a ser desbaratada pela Polícia Civil lembra um caso mais antigo, que remonta à época em que o MDB voltou a governar SC com Luiz Henrique da Silveira (2003-2010), e que foi batizado de Monreal. Era o nome da empresa contratada para fazer medições da Celesc. Mais de R$ 100 milhões teriam sido roubados naquele período. E até agora não houve desfecho, nem policial, nem judicial a respeito.

Duas frentes

O caso Monreal motivou dois processos judiciais. Uma Ação Civil Pública e outro processo no contexto da moralidade pública. Segue tudo no ar. Os inquéritos foram esquecidos, dormitam em alguma gaveta e não se tem notícia de movimentações processuais acerca das ações judiciais embora já tenha havido até indisponibilidade de bens de figuras proeminentes, do alto escalão da política Barriga-Verde.

Abrasel alerta

A Abrasel, Associação Brasileira de Bares, Restaurantes e Similares, também engrossa o movimento empresarial que pretende rever os aumentos de ICMS que impactam no varejo e no agronegócio catarinense. Segundo a entidade, "a comida dos catarinenses está sob ameaça de ficar mais cara, seja em casa ou nos bares e restaurantes. Produtos essenciais, podem sofrer aumento expressivo de carga tributária (ICMS)," assinala o texto.
Herculano
06/08/2019 06:56
E O PT?, por Hélio Schwartsman, no jornal Folha de S. Paulo

Não poupei nem Lula nem Dilma quando eles estavam no comando

Toda vez que faço críticas a Jair Bolsonaro ou ao governo ?"o que ocorre com uma frequência maior do que gostaria?", leitores cobram-me um posicionamento em relação ao PT. "No tempo do Lula é que era melhor, não é mesmo, seu esquerdopata?" e outras frases do gênero, muitas vezes adornadas por adjetivos que prefiro não reproduzir aqui, tomam conta de minha caixa de mensagens.

O presidente Jair Bolsonaro - Adriano Machado/Reuters
O que tenho a dizer a essa gente é que a fila anda. Não poupei nem Lula nem Dilma de duras críticas quando era o PT que estava tomando conta da lojinha. Estou longe de ser uma figura querida no QG do partido. Mas, desde 1º de janeiro, é Bolsonaro que está no comando. Ainda que não possamos considerar o atual presidente culpado pelo descalabro econômico que vivemos, é dele que devemos cobrar soluções, assim como exigir que os projetos do governo para outras áreas estejam ao menos baseados em fatos.

Minha sensação é que bolsonaristas reproduzem os mecanismos de defesa de que petistas abusaram no passado, atribuindo tudo o que não funcionava bem na gestão, incluindo seus próprios erros, a uma suposta "herança maldita" de Fernando Henrique Cardoso. Admito que, no caso dos bolsonaristas, a queixa contra o antecessor faz mais sentido do que no caso dos petistas, mas, mesmo assim, o foco de qualquer administração deve estar em encontrar soluções e não em buscar culpados. Vale lembrar que Bolsonaro só chegou ao poder porque a gestão Dilma foi um desastre.

A imprensa, nunca é demais repeti-lo, tem na crítica a governantes sua razão de existir. Não é que nunca possa elogiar, mas ela cumpre seu papel institucional quando revela o que autoridades gostariam de esconder, aponta incongruências nos projetos oficiais e indica alternativas. Obviamente, essa disposição até meio niilista para desconstruir precisa aplicar-se a todas as administrações, independentemente de sua coloração ideológica.
Herculano
06/08/2019 06:46
O CASO DO AGENTE SILVA RELATADO NESTA COLUNA PODE VIRAR NOTÍCIA NACIONAL
Herculano
06/08/2019 06:45
UM PAÍS BOM PARA DELINQUIR

De Diogo Roberto Ringenberg, procurados público no Tribunal de Contas de Santa Catarina, no twitter, reagindo à manchete de que Deltan Delhanol pode ser agastado pelo Conselho Nacional do Ministério Público por conta das relações dos hackers

O país em que um membro do ministério público corre o risco de ser afastado, por um órgão do MP, com base em "evidências" obtidas por criminosos, de forma criminosa, é um país bom, apenas, para delinquir.
Herculano
06/08/2019 06:37
ENTULHO BUROCRÁTICO, editorial do jornal Folha de S. Paulo

Governo acerta ao simplificar normas obsoletas que regulam segurança no trabalho

A tarefa de reduzir o custo de fazer negócios no Brasil e facilitar a geração de empregos é multidisciplinar. Pode depender de reformas de grande envergadura, como a trabalhista, mas no mais das vezes pequenas alterações, acumuladas, fazem a diferença.

Depois da ampla flexibilização da CLT, ainda em sedimentação na jurisprudência e na prática cotidiana, o governo agora se debruça num esforço de simplificação do cipoal de dispositivos infralegais que regulam as relações entre empresas e contratados.

O plano passa pela modernização das 36 Normas Regulamentadoras (NR), que tratam de saúde e segurança e dão margem a mais de 6.000 possibilidades de autuação, pela consolidação de 160 decretos em quatro textos apenas e pela revisão de centenas de instruções normativas e portarias.

Em relação às NR, o governo anunciou alterações em duas delas, 1 e 12, que dispõem, respectivamente, sobre regras gerais e normas relativas a máquinas e equipamentos. Também foi revogada a de número 2, que exigia inspeção prévia de fiscais do trabalho em novos estabelecimentos.

As mudanças, em termos gerais, buscam adaptação aos novos tempos e redução de custos de conformidade, sem prejuízo para a segurança. Exigências ineficazes e pouco racionais foram revistas.

No caso da NR 12, havia distanciamento em relação a padrões internacionais - que encareciam a implantação de maquinário importado, mesmo o mais sofisticado.

Segundo o governo, apenas a revisão desses regulamentos permitirá economia de R$ 68 bilhões em dez anos. Ainda que cálculo tão grandiloquente deva ser encarado com cautela, não resta dúvida quanto às vantagens que podem resultar de um esforço sistemático de remoção de burocracias.

Pode parecer que ganhos desse tipo implicarão prejuízos para a segurança do trabalhador. Quando se observam algumas das exigências agora eliminadas, contudo, a impressão se desfaz.

Não faz sentido, em exemplo mencionado pelo Secretário de Previdência e Trabalho, Rogério Marinho, que uma simples loja de roupas precise gastar R$ 1.500 a R$ 3.000 por ano em prevenção contra riscos químicos e biológicos.

Regras do gênero só beneficiam, até onde se percebe, firmas que fornecem o serviço fixado no papel.

Outra constatação importante é que as alterações promovidas não suscitam controvérsia. Ao contrário, resultam de entendimento unânime da comissão tripartite formada para analisar o tema, que reúne representantes de governo, empresas e trabalhadores.

Eis uma prova de que substituir regras obsoletas constitui agenda de interesse geral, de fácil aceitação, e que deve ser aprofundada.
Herculano
06/08/2019 06:18
DISPUTA

De Xico Graziano, no twitter:

Maldizer os agrotóxicos e combater o agronegócio é agenda comum entre grupos da geografia agrária/USP, da Fiocruz e da UFMT. Existe outra semelhança: todos são ligados ao PSOL e ao MST. Acompanho esse movimento político anticapitalista há anos. Obscurantismo puro. Elite da elite.
Herculano
05/08/2019 11:18
FALTA DINHEIRO NO GOVERNO, MAS SOBRA EM 220 FUNDOS, editorial do jornal O Globo

Engessamento orçamentário impede a transferência de recursos paralisados para áreas sem dinheiro

Com excesso de otimismo, o investimento público federal deverá alcançar R$ 40 bilhões neste ano. É pouco, sobretudo se for considerado o fato de que a despesa da União, descontados juros da dívida pública, será de R$ 1,4 trilhão.

Gasta-se muito, investe-se pouco. Na realidade, cada vez menos: o investimento público federal, em valores de hoje, é metade do que era cinco anos atrás.

Esse cenário indica a gravidade da crise fiscal, cuja perspectiva de solução no médio prazo depende da rapidez nas reformas estruturais do ambiente econômico.

Reflete, também, um legado de balbúrdia nas finanças públicas, resultante do engessamento do Orçamento da União a partir de interesses setoriais e corporativos.

Exemplos dessa herança dominam o cotidiano da Esplanada dos Ministérios, em Brasília.

Faltam cerca de R$ 60 milhões no caixa do Ministério da Infraestrutura para obras em rodovias essenciais ao escoamento da safra agrícola. No entanto, existe um conjunto de fundos públicos na órbita da Infraestrutura que superam R$ 30 bilhões, segundo estimativa do ministro da Economia, Paulo Guedes.

O problema é que esses recursos estão "carimbados" no Orçamento. Como não podem ser remanejados, as estradas permanecem deterioradas até que se consiga o dinheiro necessário por outros meios.

Com estados impotentes, por virtual insolvência, a crise na segurança pública se agrava na guerra entre facções criminosas pelo domínio de presídios superlotados. O Ministério da Justiça até projeta um aumento do efetivo da Força Nacional, fundamental no socorro rápido. O custo previsto é de R$ 500 milhões, mas não há previsão orçamentária.

Existe um fundo penitenciário com disponibilidade de R$ 1,5 bilhões, mas esse também é um dinheiro "carimbado", impossibilitado de uso. Casos assim se repetem na União, nos estados e nos municípios.

Estima-se que existam 220 fundos federais, mas nem o governo sabe ao certo ?"há uma equipe do Ministério da Economia tentando mapeá-los. São poças de recursos dentro do Orçamento, criadas nas últimas cinco décadas e meia ao abrigo da lei (nº 4.320, de 1964).

Na prática, perdeu-se o controle do número e do valor desses fundos, todos "carimbados", como observou o secretário do Tesouro Nacional, Mansueto Almeida, em recente debate no Congresso.

É preciso liquidar com esses autênticos feudos orçamentários, e burocráticos, rapidamente.

Não há lógica política ou econômica em manter ilhas de ineficiência na gestão do dinheiro público, especialmente numa etapa financeira crítica, com sucessivos déficits projetados até 2026.

O Legislativo deveria acelerar a faxina nas leis sobre o Orçamento. A situação requer profunda revisão que privilegie a transparência.
Herculano
05/08/2019 11:17
DECÁLOGO DO BOM GOVERNANTE, editorial do jornal O Estado de S. Paulo

Um governante deve ser o primeiro a se mostrar aberto à conciliação das divisões políticas. É papel dele pacificar a sociedade, não estimular rupturas.

Governar é difícil. Governar o Brasil, por sua vastidão territorial, multiplicidade étnica e cultural, histórica desigualdade e deficiência crônica em áreas básicas para o progresso humano, é tarefa para quem, antes de tudo, enxergue essas questões como estímulo e, de forma empática, saiba liderar a Nação na busca por soluções para nossas mazelas.

As variáveis que levaram os eleitores a escolher Jair Bolsonaro como presidente da República em outubro do ano passado já não importam, senão para a historiografia. A democracia não corre o risco de embolorar quando a sociedade se mostra capaz de aprender as lições deixadas por cada pleito. Aliás, é dessa abertura dos cidadãos ao aprendizado cívico que vem o oxigênio que mantém a democracia viva. Ora avançando, ora retrocedendo, o que importa é o constante apuro do discernimento dos eleitores.

Os cidadãos serão mais uma vez convocados às urnas no ano que vem para escolher os prefeitos e vereadores dos 5.570 municípios do País. É uma escolha muito importante porque é o município a base do sistema político brasileiro. É no município que acontecem os fatos que mais afetam a vida de milhões de homens e mulheres no País. Trata-se, pois, de mais uma excelente oportunidade para os eleitores buscarem informação confiável, sopesarem seus interesses e necessidades e identificarem no rol de candidatos aqueles que julgam estar preparados para melhorar suas vidas.

Já dissemos que governar é difícil. Um governante, pois, para dar conta da responsabilidade de influenciar a vida de milhões de pessoas, deve estar munido de uma série de atributos que o qualifiquem para o desafio.

Em Do institutions matter? (As instituições importam?, em tradução livre), publicado em 1993, R. Kent Weaver e Bert A. Rockman enumeraram as dez capacidades que seriam indispensáveis a todos os governantes, seja qual for o sistema político-eleitoral de um país. É um bom decálogo para orientar o processo decisório dos eleitores.

A primeira é a capacidade de definir prioridades diante da miríade de interesses coletivos em jogo, muitos deles contraditórios. Uma vez definidas as prioridades, é fundamental que um governante saiba empregar os recursos humanos e financeiros para atingir tais objetivos eficazmente.

A terceira capacidade é a de inovar quando os modelos até então tentados se mostram ineficazes para o atingimento daqueles objetivos. A quarta é a capacidade de construir um "todo coerente" a partir da coordenação de projetos conflitantes. A quinta capacidade indispensável a um governante é a de impor perdas a grupos poderosos. Não raro os interesses desses grupos se contrapõem ao interesse nacional. A um governante cabe fazer a justa distinção.

A sexta capacidade que os eleitores devem enxergar em seus escolhidos é a de saber representar "interesses difusos e desorganizados" ao lado de "interesses concentrados e mais bem organizados". Definido um programa de governo, cabe ao governante, por óbvio, cuidar de sua execução, avaliando eventuais mudanças que possam se interpor no caminho. Este é o sétimo atributo básico enumerado pelos autores.

Os governantes também devem assumir compromisso com a estabilidade política, de modo a criar as condições para que as ações do poder público possam surtir os efeitos delas esperados. O mesmo vale para os compromissos assumidos no plano internacional, área em que devem estar divididos claramente os interesses de governo e de Estado.

Por fim, mas não menos importante, um governante deve ser o primeiro a se mostrar aberto à conciliação das divisões políticas a fim de garantir que a sociedade "não degenere numa guerra civil". Ou seja, é papel de um governante pacificar a sociedade, não estimular rupturas.

Tanto melhor seremos uma nação quanto os eleitores estiverem dispostos a observar a presença de tais atributos nos que lhes suplicam o voto. É um processo que não levará mais ou menos tempo a depender do grau de amadurecimento da sociedade entre um pleito e outro.
Herculano
05/08/2019 11:15
DATA VÊNIA, por Cláudio Prisco Paraíso

Data venia

O Diário Oficial de Justiça no dia 31 de julho trouxe uma informação estarrecedora. Assustadora. Quase inacreditável. A publicação noticiou a quem interessar possa que o ?"rgão Especial do TJSC havia sido convocado para reunir-se no dia 7 de agosto, às 9h. Em pauta, um pleito inominável: aprovar a isenção de Imposto de Renda incidente sobre as férias usufruídas e a licença-maternidade de juízes e juízas!

Medida que retroagiria 10 anos, levando os cofres públicos a devolverem aos magistrados os valores atualizados com juros e correção monetária! Isso chegaria à casa dos milhões de Reais no passivo requerido e isentaria os senhores e senhoras juízes de pagar o IR futuramente nestas duas situações, elevando exponencialmente a conta.

O pleito partiu, vejam só, da Associação dos Magistrados Catarinenses (AMC). Diante da grande repercussão negativa nos bastidores do poder estadual, a tal proposta já teria sido retirada da pauta. Mas dá calafrios só de imaginar que tal intenção evoluiu para chegar ao ponto de ser pautado para o ?"rgão Especial do TJSC!

CONTENCIOSO

O Imposto de Renda é tributo federal. Caso o TJSC venha a apreciar em algum momento e a aprovar essa isenção inaceitável, certamente entraria numa celeuma jurídica da União. Tendo a AMC numa das pontas. Tomara que o assunto fique mesmo fora da pauta do Tribunal ad aeternum. Até porque isso veio à tona no momento em que o governador do estado trava uma batalha política para reduzir o valor mensal repassado aos demais poderes, Judiciário incluído (o chamado duodécimo), visando a ter melhores condições de investir na ponta, no atendimento ao cidadão.
Herculano
05/08/2019 11:07
MAIS PROTEGIDO

De J.R.Guzzo, de Veja, no twitter:

A vida do brasileiro estará mais segura quando Marco Aurélio sair do STF no fim de 2020. Ele é hoje o protetor máximo dos assassinos e autores dos crimes mais cruéis que o ser humano pode praticar. Se dependesse dele, todos os bandidos estariam soltos - e tentando matar você.
Herculano
05/08/2019 11:06
PELO EM OVO

de Mário Sabino, da revista eletrônica Cruzoé, no twitter:

Deixe ver se entendi: baseada em mensagens roubadas por estelionatário, que repassou a muamba a um gringo que publica material de hackers para soltar Lula, a Folha acusa @moro de não registrar no TRF4 palestra pública cujo cachê foi doado para beneficência. Volto para a soneca.
Herculano
05/08/2019 11:00
CORDIAIS CORTADORES DE CABEÇA, por Fernando Gabeira, no jornal O Globo

O que se coloca pela frente não é apenas brigar com Bolsonaro. O essencial hoje é pensar em como sobreviver à sua passagem

Nossa geração foi educada na crença de que os brasileiros são cordiais. Um profeta popular como Gentileza e sua frase "gentileza gera gentileza" pareciam confirmar essa tese. Se acreditasse nisso, estaria, como algumas senhoras da minha idade, postando fotos do sol nascente com a frase "mais um dia maravilhoso em nossa vida".

Ultimamente, temos decapitado muito. Constatei isso em Pedrinhas, no Maranhão, em Manaus e, agora, dizem os jornais que dos 58 mortos em Altamira 16 foram decapitados.

Não conheço lugar do mundo em que isso aconteça com tanta intensidade. O Estado Islâmico, que usou a decapitação como espetáculo, parece que encerrou a temporada. Lembro-me de alguns casos no Haiti, mas isso num período de intensa luta política.

A novidade no caso é que o presidente do país não condena essas execuções e aconselha a pensar nas vítimas dos decapitados, e não nas suas cabeças cortadas. Isso nos dá uma sensação de barbárie. Mesmo os defensores da pena de morte a aceitam depois de um julgamento legal. No Brasil de hoje, as grandes organizações criminosas acabam ganhando o direito de matar, após um julgamento sumário.

Na mesma semana, Bolsonaro resolveu, sem nenhuma base, desenterrar um morto para desonrá-lo. Todos os que acreditam no respeito humano protestaram.

Ao remover o passado para soprar as cinzas e fazer algum fogo, Bolsonaro questiona um dos fundamentos do nosso processo de democrático. Ele se fez num quadro conciliatório de anistia geral. Os atores radicais da época perceberam que estavam envoltos nas turbulências da Guerra Fria e expressavam internamente aqueles conflitos da época.

De agora em diante, muitas divergências não desapareciam, mas a novidade é que seriam resolvidos pacificamente num processo democrático. Mais ainda: apesar das divergências que eventualmente sobrevivem, havia um imenso campo em que, apesar delas, trabalhar lado a lado para resolver alguns problemas do Brasil.

Por que Bolsonaro revolve as cinzas de uma fogueira extinta e sopra tentando reanimar as chamas? Não estamos mais naquela época, ele mesmo sabe.

Bolsonaro tem Trump como ídolo, e parece que seu guru é Steve Bannon, cuja visão é a de promover uma guerra contínua a partir do próprio governo.

Na esquerda, já se discutiu isso em outro contexto e outro nível de profundidade, quando Troski defendia a tese de uma revolução permanente.

Muitos afirmam que as táticas de Trump e Bolsonaro têm uma grande eficácia eleitoral. Isso ainda não foi demonstrado, uma vez que não houve nova eleição.

A situação do Brasil é diferente. Vivemos ainda numa grande crise econômica, o presidente não tem um Partido Republicano no Congresso. E, finalmente, o fator subjetivo: nosso temperamento é diferente não só pela cultura como pelo fato de não termos enfrentado tantas guerras como eles.

É muito possível que a tática de Bolsonaro o leve à sua verdadeira dimensão política: o líder de uma ala radical da direita longe de ser aprovado pelos 57 milhões de eleitores.

Ele não só rompeu com uma espécie de acordo no qual o presente e o futuro importam mais que o passado. Busca destruir uma política ambiental de quase três décadas. Não é perfeita, tem lacunas imensas como o saneamento básico, mas ainda merecia respeito internacional.

A tese dos que veem eficácia na guerra permanente de Bolsonaro não levam muito em conta o potencial de seus eleitores compreenderem seus erros.

O que se coloca pela frente não é apenas brigar com Bolsonaro. O essencial hoje é pensar em como sobreviver à sua passagem, construindo um horizonte que passa pela reconstrução econômica, mas vista como algo maior. Não é possível crescer sem uma política adequada de educação. Muito menos com uma visão destrutiva do meio ambiente.

Esses temas não têm um condão mágico. Mas quem os subestima abertamente tende a um isolamento relativo, entra em confronto com a ciência, nega valores humanos, flerta com a barbárie.

E acaba contando apenas com a ideia de uma guerra permanente. Umberto Eco, no seu livro "O fascismo eterno", revela com ironia: "Em maio ouvíamos dizer que a guerra tinha acabado. A paz me deu uma sensação curiosa. Tinham me dito que a guerra permanente era a condição normal de um jovem italiano."
Herculano
05/08/2019 10:58
MINERANDO O SONO, por Ronaldo Lemos, ddvogado, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro, no jornal Folha de S. Paulo

Tecnologia começa a ocupar o sono e pode virar novo território para coleta de dados

Um amigo comprou há pouco uma dessas pulseiras digitais que são usadas o tempo todo para monitorar dados de atividade física (quantos passos você deu etc.) e também a quantidade e a qualidade do sono de cada noite.

Enquanto você dorme, a pulseirinha fica analisando a hora exata em que você apagou, quanto tempo ficou rolando na cama, quantas horas teve de sono profundo, de sono leve e de REM ("Rapid Eye Movement", fase dos sonhos mais intensos).

Depois de analisar tudo isso, o aplicativo da pulseira faz um ranking de quem dormiu melhor naquela noite, comparando todos os usuários. No caso do meu amigo, na sua primeira noite com o aparelho, ele tinha dormido melhor que 98% de todas as pessoas no país.

Considerando que ele estava na China, fiquei impressionado com sua capacidade de dormir bem e, na mesma medida, preocupado com a conquista do sono como novo território para a coleta de dados.

O fato é que as tecnologias de monitoramento do sono não estão só nas pulseirinhas. Há também uma onda de colchões inteligentes, conectados à internet. Um exemplo é o Eight Sleep. A ideia é um colchão que manipula os ciclos do sono, permitindo que o dorminhoco possa dormir menos e descansar mais, ganhando tempo para fazer mais coisas acordado.

O colchão monitora cada movimento, virada ou variação de temperatura do corpo. No momento em que a pessoa está adormecendo, ele aquece. Quando a pessoa adormece, ele diminui um pouco a temperatura, aprofundando assim o ciclo de sono profundo (de acordo com o fabricante).

Para acordar, o colchão usa um alarme térmico: ele resfria o corpo a até 12ºC para acelerar os batimentos cardíacos, levando ao despertar sem ficar grogue. Tudo isso usando inteligência artificial.

O preço? Vai de US$ 2.000 a US$ 5.000 (de R$ 7.800 a R$ 19,5 mil). Em uma entrevista à jornalista Arielle Pardes, da revista Wired, o inventor da geringonça disse que o colchão permite dormir apenas seis horas por noite, gerando "seis anos a mais acordado durante a vida".

Os mais radicais podem optar talvez por um produto como o Dreem, uma faixa cheia de sensores para ser usada na cabeça no estilo tenista dos anos 1970. O aparelho promete "precisão de laboratório" no monitoramento do sono.

Em vez de alterar a temperatura, o Dreem tem outra estratégia. Usa efeitos sonoros para aprofundar o ciclo do sono. Por exemplo, produz o "pink noise" (ruído rosa), que, segundo alguns estudos, é capaz de ampliar as ondas cerebrais durante o sono profundo.

Todos esses produtos têm por característica o fato de transformar a experiência privada do sono em um território público. Os dados coletados por meio deles podem ser compartilhados, agregados, processados e assim por diante.

Mais do que isso, trazem competição ao sono. Quem dorme melhor? Como estou dormindo comparado aos meus vizinhos? Em outras palavras, a tecnologia não só ocupa cada momento em que estamos acordados mas começa a ocupar também o sono.

Acertou na mosca Jonathan Crary no livro "24/7: Capitalismo Tardio e os Fins do Sono", boa reflexão teórica sobre o tema, que ficou para trás em face das práticas atuais. Preciso perguntar a meu amigo se ele continua dormindo bem. Não vai ser surpresa se sua qualidade de sono tiver deteriorado desde que comprou sua pulseirinha.

READER

Já era?
Hambúrguer e ovo só de origem animal


Já é?
A onda do hambúrguer vegetal

Já vem?
O ovo vegetal
Herculano
05/08/2019 10:53
PRESOS, SERGIO CABRAL E LULA CONTINUAM FILIADOS, por Cláudio Humberto, na coluna que publicou nesta segunda-feira nos jornais brasileiros

Apesar de estar condenado a quase 216 anos de cadeia, Sérgio Cabral continua filiado ao MDB. É o mesmo caso de Lula, que já cumpre pena por corrupção e lavagem de dinheiro, mas continua filiado ao PT. Os estatutos dos partidos preveem expulsão de filiados condenados por crimes. Há casos até de expulsões apenas por desobediência ao partido, mas corruptos condenados são mantidos. Em ambos os partidos, a sentença transitada em julgado é pré-requisito da expulsão.

MAIS 'INFAMANTE' IMPOSSÍVEL

Artigo 231 do estatuto do PT prevê expulsão em caso de "condenação por crime infamante". No MDB, o art. 13 prevê as mesmas condições.

IMAGINA O PIOR

Então presidente da Assembleia Legislativa do Rio, Jorge Picciani disse em 2016 que Cabral é "o melhor quadro que o PMDB tem".

FICOU NISSO

A ala jovem do MDB chegou a ameaçar pedir a expulsão de Sérgio Cabra no início do ano passado, mas a ação não prosperou.

CASO ÚNICO

Nos últimos anos, o MDB expulsou apenas Kátia Abreu (TO), que votou contra o impeachment de Dilma e a reforma trabalhista de Temer.

PEC DO PITO NO STF É 'REAÇÃO' DO CONGRESSO

Pronta para votação no Senado nesta terça (6), a proposta de emenda à Constituição que proíbe decisões liminares monocráticas de ministros do Supremo Tribunal Federal em todos os processos que afetem políticas públicas ou suspendam a tramitação legislativa é "reação ao ativismo judicial" e "limitação dos poderes" do STF imposta pelo Congresso. É como define o especialista em Direito Constitucional Fábio Monteiro Lima. É um "aviso político do Senado ao STF", diz.

EXEMPLOS GRAVES

Lima cita exemplos de liminares que são "casos graves": afastamentos do presidente da Câmara, do Senado, retirada da linha sucessória etc.

O OUTRO LADO

Segundo o advogado constitucionalista, a PEC pode prejudicar decisões urgentes, e pode "gerar um engessamento do STF".

ALERTA

Se a Corte só puder agir por colegiado, diz Fábio Monteiro Lima, "o STF muitas vezes não vai poder proteger direitos.

EMPREITEIRA DA LAVA JATO

Em maio, a Camargo Corrêa Infra venceu a licitação de R$ 424 milhões para construir a extensão de um trecho do metrô de Salvador. É o primeiro contrato de obra pública da empreiteira pós-Lava Jato. O valor representa mais de 30% do acordo de leniência com as autoridades.

E A PERSEGUIÇÃO?

Gustavo Kuster foi nomeado Diretor de Avaliação da Conformidade do Inmetro, mesmo tendo declarado votos em tipos como Fenando Haddad. E ainda reclamam de "perseguição" do governo Bolsonaro.

UMA COISA É UMA COISA...

O presidente da Câmara, Rodrigo Maia, disse ser "a favor da liberdade de imprensa em qualquer circunstância", mas em 2018, quando ainda era pré-candidato ao Planalto, queria "regulamentar" as redes sociais.

CINCO MIL CORRUPTOS

Desde o início da contabilização da Controladoria-Geral da União, mais de 5 mil servidores públicos federais foram demitidos por "atos de corrupção". São quase 66% das 7.588 expulsões do serviço público.

NINGUÉM RECLAMOU?

Entre o final de 2014, quando venceu a disputa pela reeleição, e os primeiros meses de 2015, a petista Dilma Rousseff passou quase três meses sem dar uma entrevista sequer. Teve quem comemorou.

PIB EM 2019

O Relatório Macro da Anbima (entidades financeiras e de capitais) diz que a despeito do encaminhamento da reforma da Previdência, o Brasil apresenta restrição fiscal no curto e médio prazo, o que compromete o crescimento. O cenário econômico mundial também não é "dinâmico".

GESTÃO BRASILEIRA

Após uma espera longa e desnecessária, o serviço 0800 da TAP, em Lisboa, informou mentira a um leitor que queria despachar malas na véspera do embarque de volta ao Brasil. Disseram-lhe que não poderia, mas o serviço é oferecido pela empresa aérea de Portugal.

OS MAIS CITADOS

Os perfis mais citados entre parlamentares nas redes sociais nos últimos dias foram do presidente Bolsonaro, @jairbolsonaro, e em seguida o jornalista Glenn Greenwald, diz o Congresso Data Room.

PERGUNTA NO LEGISLATIVO

Se o STF terá cópias das mensagens e gravações obtidas ilegalmente por hackers, o Congresso também pode pedir suas próprias cópias?
Herculano
05/08/2019 10:48
NOVOS TEMPOS, NOVAS REGRAS, por Rogério Marinho,secretário especial de Previdência e Trabalho do Ministério da Economia, no jornal O Globo

A Previdência precisa se atualizar diante das transformações demográficas, sociais e econômicas

O Brasil é um ponto fora da curva em relação às pensões por morte. A despesa pública com esse benefício gira em torno de 3% do Produto Interno Bruto (PIB). A média no âmbito dos países da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) é de 1% do PIB.

Entre as nações que integram a OCDE, 12 gastam menos que 0,5% do PIB com pensões; entre elas, Suécia, Noruega e Reino Unido. Trata-se de uma comparação com países que possuem sistemas de proteção social que estão entre os melhores do mundo.

A Previdência precisa se atualizar diante das transformações demográficas, sociais e econômicas que ocorrem ao longo do tempo. Muitos países têm se adaptado a essa nova realidade, redirecionando recursos para ações que combatam a pobreza e a desigualdade.

No Brasil, a maioria dos beneficiários de pensão por morte é formada por mulheres, pois vivem mais do que os homens. Entretanto, uma mudança cultural tem chegado ao sistema de proteção social: cada vez mais as mulheres conseguem a própria aposentadoria, diminuindo a dependência em relação à pensão.

De acordo com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, entre 1992 e 2015 o percentual de pensionistas que acumulavam esse benefício com aposentadoria aumentou de cerca de 10% para um terço do total. E a tendência de alta deve ser mantida, pois são inúmeras as pensionistas que ainda não atingiram a idade e/ou o tempo de contribuição necessários para aposentadoria.

De fato, no âmbito do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), as mulheres já são maioria não apenas de pensionistas, mas também de aposentadas. Dos 20,9 milhões de aposentados ativos em maio de 2019, 10,5 milhões eram mulheres (50,2%). Se forem considerados apenas os aposentados por tempo de contribuição, idade e invalidez, a participação das mulheres chega a 51,1% do total.

Conforme a Pnad, a cobertura dos trabalhadores já era maior entre as mulheres do que entre os homens. Nesse novo contexto, o valor das pensões por morte deve considerar se os cônjuges têm filhos menores e se possuem outras fontes de renda, até como forma de evitar diferenças de tratamentos não justificáveis e de alocar os recursos escassos da melhor forma. Pelo texto aprovado na Câmara em primeiro turno, em nenhuma hipótese o segurado receberá menos que o salário mínimo no total de suas rendas formais.

Um argumento largamente utilizado contra as mudanças na pensão é que a perda de um membro da família não leva necessariamente à redução dos gastos pela existência de custos fixos. Contudo, também de acordo com dados da Pnad, 83,6% das mulheres aposentadas e pensionistas viviam em imóvel próprio já pago ou quitado. Quando se consideram as mulheres idosas, esse percentual se elevava para 84,8% do total.

A necessidade de ajustar as regras de pensão por morte no Brasil às melhores práticas internacionais foi reconhecida até mesmo por governos da esquerda, com o envio da Medida Provisória nº 664 em 2014, posteriormente convertida, com alterações que retiraram algumas medidas inicialmente propostas, na Lei nº 13.135/2015. Portanto, permanece plenamente válida a constatação de que é preciso reformular as regras desse benefício, de forma a redimensionar o seu impacto sobre as políticas da Previdência Social, considerando o desafio de se manter um sistema sustentável financeiramente e alinhado com questões demográficas.

As mudanças aprovadas até o presente momento nas regras de pensão por morte se enquadram na construção de uma Nova Previdência não apenas sustentável a médio e longo prazo, como também, na racionalização do uso dos recursos para aqueles que mais precisam, o que torna o sistema mais justo do ponto de vista social.
Herculano
05/08/2019 10:46
DODGE FAZ A LIÇÃO DE CASA PARA SER RECONDUZIDA POR BOLSONARO, por Leandro Colon, diretor da sucursal de Brasília do jornal Folha de S. Paulo

O subprocurador Augusto Aras é o preferido, mas atual chefe da PGR emite sinais para ficar

Raquel Dodge deu a senha a Jair Bolsonaro no dia 7 de junho. "Estou à disposição, tanto da minha instituição quanto do país, para uma eventual recondução", disse a procuradora-geral da República sobre o desejo de permanecer no posto.

Desde então, a chefe da PGR intensificou uma articulação nos bastidores, sustentada em alguns ministros do STF e parlamentares influentes. Em outra ponta, emitiu sinais para os pares no Ministério Público Federal, com os quais travou embates nos últimos dois anos. Não à toa, não quis disputar a lista tríplice da associação da categoria - provavelmente ela seria derrotada pelos colegas.

E Dodge fez o mais importante: aproximou-se de Bolsonaro,denunciado por ela por racismo e dono da caneta da indicação do próximo PGR.

Ao recorrer da decisão de Dias Toffoli (STF) que limitou o uso de dados do Coaf em investigações no país, Dodge deixou a porta aberta para manter parado o inquérito sobre Flávio, filho do presidente. Ela pede que Toffoli se limite ao caso do senador do PSL-RJ, que pediu a suspensão da apuração até análise em plenário, prevista para novembro. A procuradora-geral cumpriu o papel de recorrer, mas tomou cuidado para não incomodar o Planalto.

Depois de esnobar os colegas de Lava Jato em Curitiba por longo período, Dodge passou a bater bola com procuradores da força-tarefana reta final da sucessão na PGR.

A procuradora-geral, que evita a imprensa e o contraditório, faz vista grossa para a gravidade das mensagens trocadas por Deltan Dallagnol, pego atropelando regras de conduta, forjando a criação de empresa para levar dinheiro com palestra e usurpando competência ao estimular a investigação de ministro do STF.

Para Dodge, nada disso é preocupante, afinal ela precisa agora do respaldo de alas estratégicas da categoria, como a de Curitiba. No Planalto, o subprocurador Augusto Aras, que se mostrou pouco disposto a atrapalhar o governo na PGR, é o preferido. Mas Dodge tem feito direitinho a lição de casa para ser reconduzida.
Herculano
05/08/2019 10:41
TUDO PELA ECONOMIA? por Cida Damasco, no jornal O Estado de S. Paulo

Crença na retomada, apesar das loucuras do presidente, esbarra no investimento

A reforma da Previdência está bem encaminhada, as propostas para reforma tributária já mobilizam o Congresso e a equipe econômica, mal ou bem, tenta buscar algumas saídas para romper a estagnação. Quem gosta de tapar os olhos e os ouvidos para as loucuras de Bolsonaro tem tudo para se convencer de que a economia é um território isolado, onde investidores e empresas se abrigam para fazer negócios, bater metas e ganhar cada vez mais dinheiro.

Não é por acaso que, nas últimas duas semanas, enquanto se sucediam declarações e atitudes desastrosas do presidente, executivos de grandes empresas e dos mercados saíram a público para declarar que a economia vive um ciclo que "nunca antes" se viu nesse País. Sobre o destempero de Bolsonaro, ou o silêncio ou a consideração de que não compromete a economia.

Nos mercados, o bom humor é visível: a Bovespa se sustenta acima dos 102 mil pontos e o dólar abaixo dos R$ 3,90. No setor produtivo, os indicadores permanecem desfavoráveis, embora o discurso e a torcida de alguns analistas sejam de que finalmente a virada começou. Só como exemplo, a produção industrial está em queda generalizada e opera no nível de 2009. E o mercado de trabalho ainda frágil deixa à margem 28,4 milhões de pessoas, a chamada mão de obra subutilizada ?" que reúne desempregados, quem trabalha menos do que poderia e também quem não tem ânimo para sair de casa em busca de uma vaga.

A chave para aproximar esses dois mundos é o investimento. Há consenso de que um crescimento sustentado e não aos soluços, como tem ocorrido no Brasil, depende da retomada dos investimentos. Que estão, nesse momento, em 15,5% do PIB, bem abaixo do desejado e perto do fundo do poço da década, de 15% em 2017. E essa retomada, por sua vez, depende não só do fortalecimento da demanda existente como dos sinais de que País teremos mais à frente.

É justamente nesse ponto do roteiro que entra o Bolsonaro falastrão, do "sou assim mesmo" ?" aquele que parece governar com o fígado, mas no fundo mira a fidelização dos seus 30% de "consumidores". Dá para enumerar pelo menos três grandes contenciosos políticos e sociais, que poderão invadir aquele terreno aparentemente "isolado" da economia. Em primeiro lugar, os ataques de Bolsonaro ao presidente da OAB, Felipe Santa Cruz, e seus desdobramentos despertaram críticas inflamadas até nas fileiras dos aliados do Planalto dentro do Congresso, onde se encontram os principais projetos de interesse do governo.

Além disso, a investida contra o Inpe, em razão das estatísticas sobre o avanço do desmatamento, e a descortesia com a visita do chanceler francês ?" Bolsonaro trocou o encontro por um corte de cabelo ?" confirmam sua aversão às questões ambientais, decisivas para ampliar a inserção do Brasil e suas empresas no mercado internacional e, em particular, para garantir o aval ao festejado acordo entre Mercosul e União Europeia.

Em terceiro lugar, o "conjunto da obra" provoca reações contrárias no Supremo Tribunal Federal (STF), explicitadas na derrubada da MP de demarcação das terras indígenas e na manifestação dura do decano Celso de Mello. Reações potencializadas pelo cerco da turma de Curitiba aos ministros Dias Toffoli e Gilmar Mendes, exposto nos vazamentos da Lava Jato.

É claro que guerra de posts nas redes sociais, por si só, não afasta investidores interessados em licitações de estradas, aeroportos e outras obras de infraestrutura: segundo levantamentos do Estado, o programa de desestatização do governo Bolsonaro pode render mais de R$ 450 bilhões. Mas caso os embates do Planalto com o Congresso e o Judiciário resultem em obstrução de projetos, idas e vindas em decisões importantes, enfraquecimento dos instrumentos de controle e regulação, comandantes de grandes grupos pensarão duas vezes antes de colocar seu dinheiro no Brasil.

Por mais que o Congresso esteja disposto a levar adiante uma agenda econômica consequente - e tudo indica que isso está na cabeça de empresários e executivos -, não dá para imaginar que será possível passar ao largo das tempestades criadas pelo presidente. Um cenário que deixa à mostra a vulnerabilidade do "tudo pela economia". Inclusive na economia.
Herculano
05/08/2019 10:38
O HISTORIADOR SALEM ZOAR, por Luiz Felipe Pondé, filósofo, ensaísta e professor, no jornal Folha de S. Paulo

O que levaria ao suicídio do ser maior, o universo?

A negatividade em filosofia tem longa credencial. Negatividade é um nome chique para crítica, pessimismo, acosmismo (negação de que exista alguma ordem de sentido nas coisas ou que exista, sim, uma perversa), enfim, para concepções que retiram de nós a esperança.

A tragédia grega ática e o niilismo moderno são exemplos sofisticados. Uma de suas grandes forças é desmascararem negativos gourmets que andam por aí posando de pessimistas.

Entre essas formas de negatividade se encontram as distopias, como "1984", de George Orwell, "Admirável Mundo Novo", de Aldous Huxley, e "A Revolta de Atlas", de Ayn Rand.

Os gnósticos cristãos, no início da era cristã, o zoroastrismo persa, mais antigo, o maniqueísmo iraniano ?"uma forma de cristianismo influenciada pelo pessimismo cosmológico persa?", também do início da era cristã, são formas de espiritualidade negativa. Nos três casos, quem criou o mundo foi uma divindade
cruel. Agora, temos um gnóstico entre nós, o filósofo Carlos Malferrari, o discreto.

Sei que muitos seguidores das novas espiritualidades dizem que são gnósticos, mas, coitados, não sabem o que dizem.

Para ser um herdeiro verdadeiro do gnosticismo antigo (além de dever possuir um enorme repertório no gnosticismo antigo), você deve sustentar uma melancolia ontológica profunda que se manifesta numa desesperança assustadora.

A moçada das novas espiritualidades, em geral (com raras exceções), é gente infantil que crê na "força" em Thor e vê a Mulher Maravilha como a prova de que o mundo originalmente era matriarcal. Neste último caso específico, uma espécie de idiota de gênero sem doutorado.

Um exemplo de artista importante que já demonstrou possuir uma percepção gnóstica de mundo é o dinamarquês Lars von Trier, que sempre apanha por isso.

"O Delírio Filosófico do Historiador Salem Zoar", escrito pelo filósofo Carlos Malferarri, o discreto, ainda sem editora, é um exemplo primoroso desse estilo distópico, que guarda uma semelhança significativa com as cosmogonias gnósticas pessimistas em que o mundo é criação de um demiurgo idiota, orgulhoso e incompetente.

Só que nosso filósofo gnóstico paulista narra uma escatologia (o fim do universo), e não uma cosmogonia (origem do universo), de têmpera gnóstica, e seu agente é a estupidez humana. Nós somos os demiurgos. E o universo "desiste" de si mesmo por conta disso.

Importante não dar spoiler sobre o curso da narrativa de nosso "herói", o historiador
Salem Zoar, alter ego de Carlos Malferrari, o discreto. Salem, por si só, já é um nome que nos remete a Jerusalém, às bruxas de Salem ou mesmo a Matusalém ?"personagem bíblico famoso por viver mais do que o normal entre os homens.

Zoar, claramente, nos leva à cabala e a narrativas cosmogônicas típicas dessa espiritualidade judaica antiga. Mas é o delírio, enquanto tal, que nos importa e nos atormenta.

O livro de Malferrari é uma crítica à modernidade e sua "causa pelo progresso", que começa tornando o elétron livre um escravo na corrente elétrica.

Sua intuição inicial é cosmológica e só em seguida revela seu vínculo humano. O delírio se abre com a desistência do universo por si mesmo: ele para. Suas partículas "se suicidam". O movimento, causa profunda do universo ser o que ele é, cessa e daí as consequências que se seguem. O que levaria ao suicídio do ser maior, o universo? Evidentemente eu não vou lhe dizer.

Mas, entre tantas coisas, uma eu posso contar, para dar a você um gostinho da força dessa narrativa discreta acerca de nossa vaidade moderna. Num dado momento, antes do momento final do Ser, a humanidade atinge seu objetivo "científico" maior: a imortalidade. Entre tantas ferramentas possíveis para tal, duas chamam a atenção do leitor treinado no olhar negativo para com o momento contemporâneo.

A primeira é a "descoberta científica" de que células cancerosas podem ser uma grande ajuda para nos tornarmos imortais - basta lembrarmos da "tenacidade em existir" que caracteriza a célula como essa. Uma vez descoberto tal passo, as pessoas passam a induzir câncer em si mesmas, apesar do fedor e da deformação que elas causam.

A segunda é a maior de todas: a descoberta de que comer fezes, principalmente as próprias fezes, nos fazem imortais. A alimentação "saudável" muda e a ciência da nutrição passa a defender saladas feitas de cocô. Estamos quase lá, não? Merda é natural e orgânica, afinal de contas.

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