04/11/2008
Eleições I
Hoje é dia de eleições. Ah, sim, nos Estados Unidos. É um dia de trabalho normal por lá e não há a obrigatoriedade de se votar como aqui; muitos (uns 25 milhões) temendo as filas e para não faltar ao trabalho, já votaram. É.Em alguns estados foi permitida a votação antecipada. Inscreveram-se para votar 218 milhões de americanos. Escolhe-se indiretamente o novo presidente entre democrata Barack Hussein Obama II (47) e o republicano John Sidney McCain III (72); diretamente os 538 delegados é quem votam no colégio eleitoral. Quem tiver a maioria dos delegados, leva a eleição. Dependo do estado, vota-se em muitas outras coisas também. A apuração começa hoje. Sem a nossa tecnologia e exemplos, ela poderá demorar até três dias. Um grande intervalo para o espetáculo e o exercício do jornalismo, como se fazia por aqui até a década de 1980.
Eleições II
Obama desistiu de receber recursos públicos para a sua campanha. Esperto. Conseguiu quase US$700 milhões privados, o dobro do seu rival, McCain. Com esse dinheiro, pode ele ao luxo de na quarta-feira veicular em várias redes nacionais de TV (NBC, CBS, Fox, MSNBC, a hispânica Univision, além das BET e a One para o público negro), um programa de meia hora, atrasando inclusive uma transmissão de baisebol (o World Series)pela RNC. O custo de tudo isto? Mais de US$5 milhões.
Eleições III
A tática arrecadadora de Obama foi surpreendentemente eficaz. Fugiu do tradicional. Como um jovem integrado ao seu tempo ele usou pela primeira vez todo o potencial da internet como uma ferramenta de negócio. Sensibilizou milhões de pessoas. Isso mesmo, milhões de doadores, que doaram a partir de US$30 (e ainda ganharam uma camiseta via correio). Só para comparar, Lula quando eleito presidente, declarou que seus doadores de campanha eram pouco mais do que 1.800 pessoas físicas e jurídicas. Como o lema de Obama é "mudanças, nós podemos", na prática, pelo menos uma delas concretamente ele já fez: a mobilização da geração dele via internet para sustentar uma causa nacional.
Eleições IV
E ai você me pergunta: o que nós temos a ver com isso? Quase tudo. A crise financeira, cria da falta de regulação do estado (neoliberal) e da ganância dos executivos por altos ganhos para si (capitalismo egoísta para poucos), tornou-se a irmã gêmea da crise de crédito e da desconfiança dos investidores no mercado. Esta crise vai complicar a nossa vida, a dos prefeitos eleitos. A eleição de um ou de outro candidato a presidente dos Estados Unidos pode minimizar ou piorar esta crise lá, no mundo e aqui. Ou seja, alongar ou encurtar a nossa agonia. E a nossa tem data para ser testada: outubro de 2010. Acorda Lula.
Comemoração I
Se Barack Obama vencer a eleição americana, Washington DC poderá ter a primeira grande festa popular do século. Será um dia incomparável, penso. A posse está marcada para o dia 20 de janeiro, uma terça-feira, provavelmente gelada. Na segunda-feira, os americanos terão o feriado em memória do líder pacifista negro Martin Luther King, assassinado em 1968.
Comemoração II
A posse é na mesma Washington do memorável discurso "I Have a Dream", um lugar cheio de simbolismos das liberdades. Ali tem-se a arrepiante e monumental visão de King no discurso que fez a milhares a partir do Abrahan Lincoln National Memorial. Dele, enxerga-se ao fim o Capitol Hill e antes, onde se comprimiram aos milhares no Constitution Garden ladeado pelas Constitution e a Independece Avenues. Haverá uma coincidência histórica e emocionalmente impressionante. Já não há quarto de hotel vago cidade. Tem gente pedindo até US$ 3.000 por cinco dias num apartamento de dois quartos na capital estadunidense.
Contagem
Como a coluna de hoje viaja fora da aldeia, então filosofar é preciso. Com os resultados da eleição daqui no domingo dia quatro de outubro, começou também fim do governo de Luís Inácio Lula da Silva. Começou a campanha de 2010. Valha-me Deus.
Especulações I
Enquanto alguns se dedicam as especulações de nomes para a "nova" administração municipal, efetivamente correto, a coluna prefere surfar em prováveis cenários conjunturais. Eles sim poderão ser determinantes nos resultados de 2010 e 2012.
Especulações II
Dizia-se que o apoio de um presidente com 64% de aprovação (Ibope/CNI) elegeria até um poste. Terminada a apuração, pode-se dizer com toda a segurança que depende do poste, da cidade onde se planeja elegê-lo e da conjunção de forças locais, todas orientadas pelo horizonte de 2010. Embora o PT tenha aumentado seu número de prefeituras em 40%, foram poucas as vitórias em grandes centros. Em Santa Catarina, só Joinville salvou esta lavoura.
Especulação III
Será precipitado, todavia, extrair deste pleito municipal a conclusão de que Lula não transferirá votos e popularidade para o seu candidato em 2010. O jogo é outro, noutro campo e entre equipes cuja escalação apenas começa a se definir a partir de agora. E se Lula não colocar a economia à mão de ferro e de forma ortodoxa, confiando nos técnicos, em 2009 não a terá politicamente na mão para usufruí-la a seu favor em 2010. Prematura conclusão, mas os postes eleitos serão outros e da oposição. Acorda PT.
Padrinho I
"Com maior gasto por voto do país, PT deve levar São Bernardo após 20 anos". Esta foi a manchete de um jornal paulistano às vésperas deste segundo turno. Em São Bernardo do Campo, Luiz Marinho, PT, sindicalista e ex-ministro de Lula, confirmou a manchete do jornal. Venceu com 237.617 a 170.728 votos dados a Orlando Morando, PSDB. Orçada em R$ 15 milhões, a campanha de Marinho foi, em termos proporcionais, a mais cara do país, com gastos avaliados de R$ 30 por eleitor.
Padrinho II
São Bernardo do Campo é o berço do PT, do "sindicalismo de resultado" e que agora ocupa a burocracia e alguns escândalos da República. É em São Bernardo que mora e vota o presidente Lula. Por isso, faz todo sentido a dedicação que ele deu à causa. Foi a campanha em que o presidente Lula teve maior participação. Ele foi a três comícios de Marinho, a uma carreata e fez três gravações de telemarketing e votou em e com Marinho a tira-colo. Foi lá que o palanqueiro Lula disse que era hora dos trabalhadores fazerem greve; que dinheiro tem em Brasília e o que faltava aos prefeitos era apresentar projetos; de que a crise lá fora era um tsunami, um problema do Bush e que por aqui ela nem marola faria, e por ai foi.
Padrinho III
Conclusão: santo da casa faz milagres, mas precisa de segundo turno, muito dinheiro, reza, padrinho e bravatas... Poste caro esse Marinho, sô. Transferência de votos ou a velha e disfarçada tão combatida compra de votos? Pode-se entender por vias tortas a razão pela qual São Bernardo ficou 20 anos sem o PT e o jugo dos seus sindicalistas.
Copyright Jornal Cruzeiro do Vale. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita do Jornal Cruzeiro do Vale (contato@cruzeirodovale.com.br).