Por Herculano Domício - Jornal Cruzeiro do Vale

Por Herculano Domício

01/12/2008

Referência
O portal do jornal Cruzeiro do Vale é a referência moderna, ágil, atualizada e séria de comunicação nesta enchente. Equipe e abnegados se superaram. Textos, fotos e filmes além das nossas fronteiras. O virtual superou as estradas intransitáveis, as barreiras e as inundações limites para a edição impressa. Tudo percorreu o mundo e foi fonte para diversos veículos de comunicação. Um exemplo de jornalismo. Gaspar entrou no mapa. Infelizmente de uma forma que não era a desejada. Pelo menos documentamos o pedido de socorro.

 

A chuva
O tema da coluna de hoje seria outro. Mas, a teimosa, volumosa e sem precedentes chuva de leste sobre nós, expôs as fraquezas de infra-estrutura, logística, planejamento, integração, prevenção, respeito e consciência. A cidade, cidadãos e cidadãs tornaram-se vítimas das mazelas dos políticos eleitos ou pagos por nós para criar soluções. Por outro lado, ficou claro que o Vale do Itajaí é parte do problema, todavia ele pode ser também o gerador da solução. Não há como não mais discutir tudo isso. Estamos num contexto metropolitano. Estamos sendo enrolados. Quando não somos engolidos, soterrados, inundados, isolados e desprovidos da vida e dos bens.

 

São Pedro?
Com a BR-470 comprometida, com a ameaça de desabamento de parte do morro da Igreja Matriz sobre a Avenida das Comunidades, com uma única ponte limitada e sob risco, com a Rodovia Jorge Lacerda deslizando para o Rio, a vida das pessoas ficou um caos. Gaspar e o Vale ficaram quase isolados; já os políticos escondidos ou arrumando desculpas e culpados (entre eles e principalmente São Pedro, coincidentemente o nosso padroeiro protetor). Era só o que faltava para quem não se previne, é míope, não planeja e é irresponsável com o futuro de todos nós. Esse pessoal vive esperando milagres, promoção barata e compreensões divinas. E muitos de nós também. Triste sina. Doentia conivência. Estranha paralisia. Acordem.

 

Políticos
Os políticos vivem de bravatas, promessas, mentiras e sorrisos em época de campanhas. Discurso fácil para mentes vazias e os oportunistas de plantão. Depois de eleitos fecham o cenho, irritam-se facilmente, constroem desculpas e nomeiam culpados para não cumprir o discurso. O mau tempo, a imprensa, a crise (anote isso no seu caderninho), a oposição, o corte do orçamento e por aí vão as antigas e "criativas" desculpas de sempre para o que não vem, pelos menos por aqui.

 

Repeteco
Entretanto, não desanime. Tudo poderá ser diferente ou se repetirá ou então aperfeiçoará na próxima campanha. Pelo menos na bravata, na promessa, na mentira e na esperança. É que esses políticos vão precisar de votos e dinheiro para sustentar o poder, a estrutura, a mamata, o novo discurso e a cara de pau. Eles vão até trocar, aceitar ou criar "novos convenientes amigos" e você, mais uma vez, vai acreditar neles. Ou não, se exigir primeiro o que eles prometem para depois. Se eles vierem com desculpas, acusando-lhe ainda como parte do problema, você poderá trocar de político, de representante. Dependerá de você. Acordem eleitores.

 

Infra-estrutura
A ausência da segunda ponte em Gaspar sobre o Rio Itajaí Açu, a falta de um Anel de Contorno para o Vale e a inexistência de um Hospital referência são alguns frutos desse descaso, da irresponsabilidade, disputa, manobra, jogo político e também da fraqueza de alguns que se dizem nossos líderes. E não é de hoje. É o resultado da falta de cobrança responsável e contínua dos eleitores sobre os seus políticos. Quantas chuvas como a que experimentamos nesses dias serão necessárias para provar no Senado, na Câmara Federal, nos governos Federal e Estadual ou nas prefeituras da urgência destas obras para o Vale do Itajaí, e não apenas para Gaspar como querem presumir e diminuir alguns?

 

Ponte do Vale
Que desastre e quantas mortes serão ainda preciso acontecer para provar que isto não é coisa de empresários, presidentes de entidades, imprensa e choro de desassistidos? Será necessário desabar a já comprometida e obsoleta ponte Hercílio Deeke para se construir duas? Falta, na verdade, respeito e vergonha na cara dos administradores públicos para com as pessoas, para com seus eleitores, para com as comunidades e principalmente para com uma região rica que produz, gera substanciais tributos para a União e o Estado e que no fundo sustenta essa massa de políticos interesseiros. Agora, como contrapartida falta-lhes até como escoar e circular a riqueza que se produz. Um escândalo. E tem gente que teima ou finge, desgraçadamente, em não enxergar isto. Acorda Vale do Itajaí.

 

Lição I
Há duas sextas-feiras, quando havia raro sol brilhante, a Senadora Ideli Salvatti, PT, esteve por aqui. Veio agradecer, paparicar, avalizar perigosamente as jogadas da patrulha do PT e dos seus novos "cumpanheiros" locais. Na oportunidade, a Senadora foi "surpreendida" por uma manchete deste "Cruzeiro do Vale". Ela dava conta que, mais uma vez, a Ponte do Vale não tinha entrado nas possibilidades de se tornar algo real para todos nós. Desta feita a ponte não encontrou eco nas emendas individuais ou coletivas da bancada parlamentar catarinense, e de cujo Fórum a Senadora é presidenta no sistema de rodízio. Ideli não gostou do que leu, quis consertar enrolando e ensinando jornalismo em plena coletiva de imprensa, coisa que não ousaria em Brasília, São Paulo e Florianópolis, por exemplo.

 

Lição II
"Não é a senhora que vai me ensinar como fazer jornalismo", retrucou de imediato e firme o fundador há mais 18 anos, editor e proprietário deste "Cruzeiro", Gilberto Schmitt, presente na coletiva. Ele, gasparense da gema, tem uma história comunitária e luta por resultados reconhecidas em Gaspar. Hábil e inteligente, a Senadora então tentou minimizar e esclarecer o que a sua assessoria não fez, apesar de ter sido procurada para tal pelo próprio jornal como manda o bom jornalismo.

 

Lição III
Para a Senadora, a Ponte do Vale pode estar incluída indiretamente, veja bem, indiretamente, no projeto do Anel de Contorno de Gaspar como um todo, este sim aprovado como uma emenda de bancada. Ou seja, pode, não vai ou está incluída, ou vai ser construída. Concluindo: é pura parolagem de palanque fora de época. É coisa de mágico: aparenta uma delícia para a platéia, contudo se sustenta num truque bem feito e que poucos conhecem. Estava certa a manchete do jornal e foi correta a intervenção do editor. Chega de enrolação. E cobrança ( principalmente pela imprensa séria, persistente, com memória e comprometida com a comunidade) é a única coisa que político não quer, ainda mais quando se é candidato ao cargo de governador, como é o caso da Senadora.

 

Lição IV
A Senadora já devia estar escaldada com este assunto e o jogo ou incompetência da sua assessoria em bem informar. No dia 17 de março ela esteve Itajaí reunida com as Associações Empresarias de diversos municípios do Vale do Itajaí. Eu estava lá. O documento das entidades incluía a Ponte do Vale. Foi lido e ela recebeu uma cópia. Ouviu (e penso que ela prestou bem a atenção). Leu (acho que entendeu, pois não pediu esclarecimentos e nem contestou). Ela fez, no mínimo, um silêncio comprometedor se já sabia da decisão, algo condenável; se não sabia, não defendeu a obra no momento que devia fazer. Por outro lado, a sua assessoria comeu mosca, fato que tem conserto. Até hoje, todavia, não se esclareceu a dúvida.

 

Lição V
E só a Senadora pode fazer isso. É que no dia 12 de março, ou seja, cinco dias antes da reunião de Itajaí, a bancada catarinense na época presidida pelo deputado João de Mattos, PMDB, já tinha, de forma também silenciosa, decidido excluir a emenda de R$9.888.888,00 para a Ponte do Vale. Sabedor pela imprensa no dia 18, feriado e Dia de Gaspar, consultei a assessoria da Senadora sobre o assunto. Nada. Então, no dia 25 de março (há dez meses, portanto), sob as notas Ponte do Vale I a IX, relatei o fato nessa coluna. Para se inteirar, é só consultá-la nos arquivos. Como se vê, o fato, o tratamento, os personagens e as atitudes são recorrentes. O assunto na coluna, também. O "Cruzeiro" e o editor, estes sim, já estão escaldados com o tema e os envolvidos. Acorda Gaspar.

 

Exagero I?
Você acha que é um exagero meu em exigir mais responsabilidade dos políticos e das autoridades para conosco? Veja então o que diz o editorial da Folha de S. Paulo na edição deste dia 26 sobre a nossa tragédia. "Nada disso justifica, porém, o descuido com a preparação das cidades para tais desastres. Esse imperativo tende a se tornar ainda mais incontornável com a mudança climática prevista para este século, produto do aquecimento global. Entre as previsões dos pesquisadores está a probabilidade maior de eventos climáticos extremos, como secas severas e chuvas torrenciais."

 

Exagero II?
"Um sistema de alerta eficiente pode prevenir muitas mortes e prejuízos, se acionado em tempo hábil. Como as tempestades a cada primavera e a cada verão castigam o Sul e o Sudeste, ambas regiões densamente povoadas, um monitoramento precoce do nível dos rios - por exemplo- poderia dar aos habitantes de áreas vulneráveis tempo suficiente para se colocarem a salvo.

Alguns Estados e municípios já avançam nessa direção. Compete ao governo federal, contudo, coordenar um plano nacional de adaptação à mudança climática previsível que vá além dos trabalhos convencionais de Defesa Civil, em geral focados na mera remediação das tragédias -e que mesmo aí costumam demonstrar-se aquém dos desafios", conclui o editorial.

 

Amizades
O PT de Gaspar precisa abrir o olho com as novas amizades que exibe e se orgulha. Elas já elegeram Adilson Schmitt, PSB, quando estava no PMDB, apenas para vingar a administração Celso Zuchi e Albertina. Agora, resolveram se vingar do Adilson e seu vice Clarindo Fantoni, PP. Devem ter lá as suas razões. Mas, perguntar não ofende: com quem eles estarão na próxima eleição?

 

Emprego
Com o caos no trânsito de Gaspar o pessoal que assessorou Décio Lima, PT, fez fama em Blumenau e já deu uns palpites por aqui, tem emprego garantido depois da derrota de Volnei Morastoni, PT, em Itajaí. Acorda Gaspar.

 

Solução
A chuva trouxe desgraça para muitos e soluções para poucos. O Estado de Emergência será uma benção para o encontro de contas sob a luz da legalidade.

 

Responsabilidade
De quem é a responsabilidade pela permissão da construção de casas e prédios nas barrancas dos rios e ribeirões de Gaspar e Ilhota e que desabaram ou se condenaram? Primeiramente contrariaram a legislação. Segundo deram um jeitinho. Um jeitinho que está custando caro demais para todos nós. Acordem.

 

Solidariedade
Nós somos solidários e diferentes para enfrentar e superar as tragédias. Já provamos isso. Não esperamos sentados para recomeçar e com sacrifícios. Uma virtude. Alguns políticos sabem disso. Sabem mais que, depois não somos organizados e unidos para pedir, exigir e se ressarcir naquilo que é nosso direito. É hora de mudar esse segundo comportamento.

Comentários

Deixe seu comentário


Seu e-mail não será divulgado.

Seu telefone não será divulgado.