16/12/2008
Vergonha I
Manchete de jornais e portais nacionais na quarta da semana passada: "Divergências entre parlamentares atrasam a votação de MP para socorro às vítimas de Santa Catarina". Ela era entre os nossos próprios parlamentares. E os de outros estados querendo nos ajudar. Era só o que faltava. No centro da divergência: a senadora Ideli Salvatti, PT (por uma verba sem "carimbos") e o deputado Federal, Paulo Bornhausen, DEM (por verbas "carimbadas", ou seja, com destino certo, como o porto, por exemplo). No centro da emergência o povo, os eleitores de ambos, empreendedores, trabalhadores, cidadãos e cidadãs sufocados pela tragédia, mas obstinados para recomeçar e reconstruir sob todos os sacrifícios.
Vergonha II
Inacreditável a tentativa de canetaço, em gabinetes, para (re)federalizar o porto de Itajaí liderada pelo itajaiense, ex-prefeito de Blumenau e atual deputado federal, Décio Lima PT. E no pior estilo: aproveitando-se de uma desgraça e da necessidade de reconstruí-lo emergencialmente para todos. Era a vingança urdida para servir de bandeja ao futuro prefeito Jandir Belini, PP e que derrotou Volnei Morastoni, PT na sua tentativa de reeleição. Se não era vingança era coisa pior, como por exemplo, a preservação da galinha dos ovos de ouro como revelou uma escuta telefônica interceptando com amparo um dirigente do porto, fato que custou caro ao próprio Décio, em Blumenau e ao Morastoni, em Itajaí.
Vergonha III
Neste episódio o próprio PT saiu dividido. Políticos, entidades empresariais, comunidades e sindicatos se manifestaram contra a idéia da (re)federalização, um retrocesso sem tamanho. Quase uma unanimidade. Entre os que assinaram a favor de Itajaí, do Vale do Itajaí e de Santa Catarina para o porto ser gerenciado pelo município como hoje, estava deputado Federal Cláudio Vignatti e a senadora Ideli Salvatti, ambos do PT. Quando soube da atitude dos dois, Décio a julgou como sendo de mau caratismo, insinuando com isso que os dois roeram a corda de algo que já estava acertado. Agora a senadora arrumou um novo desgaste: reaproximar-se mais uma vez da família Lima ao plano que Ideli tem de ser a candidata de consenso do PT ao governo do estado em 2010. A senadora precisa se benzer.
Articulada I
Articulada e força política a partir do Palácio do Planalto, a senadora Ideli Salvatti tem e já a demonstrou inúmeras vezes. Também é o mínimo que o Planalto poderia ter com ela como reciprocidade depois ser exposta em tantas frias e bravatas criadas pelo seu partido, a base aliada, ministros e o presidente nestes três anos como líder. Contudo, em alguns casos fica evidente que voluntarismo, o determinismo e o discurso se sobrepõem à organização, o pragmatismo e um time ajustado para a velocidade das suas angústias, promessas e decisões. Isto ficou claro mais uma vez na reunião de terça-feira em Brasília entre autoridades e entidades catarinenses com o ministro Guido Mântega e seus técnicos.
Articulada II
O que era para ser uma reunião de anúncios, resultados de impactos e comprometimentos, virou um "encontro" de esclarecimentos com burocratas. E ai sobraram queixas para todos os lados. Ora, se o presidente da República queria retornar a Santa Catarina para se redimir, excelente. Se era importante ele anunciar as medidas de impacto (desde que elas se concretizem de verdade), ótimo e faz parte da comunicação para ser percebido e se corrigir percepções . E se isso podia ser conciliado na folga de trabalho em Brasília da senadora, outros parlamentares e a vinda de sete ministros, nada contra. É justo. Compreensível. Se é campanha? Não sei, mas teve todas as características pelas exclusões feitas.
Articulada III
Ideli tem se interessado pelo tema e pelos catarinenses há muito e como poucos. Isto é indiscutível. Não se retira este mérito. E por conta desse crédito a senadora, e principalmente a sua assessoria deveriam ter abortado a reunião dos catarinenses com o ministro na terça. Economizava-se tempo e dinheiro. Melhor: não se produzia os desgastes que se produziram gratuitamente e mais uma vez. O show e o uso da mídia devem ser seletivos. Espera-se que não se use a desgraça, desesperados e o amparo digno mínimo como factóides de campanha partidária. O dinheiro que o governo diz dispor é de todos nós, dos caros impostos que pagamos religiosamente, independente de cor partidária. Ou o que aconteceu no Sesi, em Blumenau, na sexta-feira a tarde, pode ser um mau presságio e ao mesmo tempo revelador. Acordem políticos.
Igualzinho I?
Ouço autoridades, líderes empresariais e políticos dizendo que trabalham ou desejam que tudo em breve volte, e seja igual para como antes da tragédia ambiental e que se abateu sobre nós. Será? Se isto não uma desatenta e desconexa expressão de estímulo, ela encerra um grande equívoco. Crises, acidentes e desastres são duros e reais avisos. Eles nos pedem atenta observação, drásticas mudanças, sacrifícios, adaptações, proteções e proibições. Nada será como antes. Se insistirmos em refazer, reconstruir com os mesmos erros e pessoas ou fechar os olhos para os resultados do trágico, teremos mais mortes, mais perdas; aumento da pobreza e do medo, mais pesadelos, fim de sonhos e mais vidas marcadas para sempre. A correção é técnica, legislativa, visão, liderança, execução, comportamento e atitude de todos, incluindo políticos, empresários, líderes e promotorias públicas.
Igualzinho II?
Trabalhei para grandes empresas e ainda faço consultoria para outras. Para elas, a segurança era ou é algo ligado à sua própria sobrevivência. Todo incidente e acidente é um aprendizado. Tudo é investigado e é feito para não se repetir. Criado a nova rotina (e que se aperfeiçoa constantemente), não tem presidente que a modifique. Um simples operário, instruído, é autônomo e toma a melhor decisão para preservar a vida e o patrimônio, inclusive a de parar uma fábrica ou qualquer procedimento a qualquer momento que julgar perigoso para si, para seus colegas, a comunidade e à própria empresa. Até porque, parte do salário dele e do presidente, normalmente, está diretamente ligado a não ter acidentes, à sua menor gravidade e as novas soluções. Custos disto? Nós consumidores pagamos. Ou você prefere consumir algo barato fruto de ambientes de trabalhos hostis, causadores de humilhações, lesões e mortes?
Igualzinho III?
Por isso, não é possível entender como o poder público, determinadas entidades corporativas e os políticos relutam, negociam e permitem leis que desprotegem o futuro, patrimônios, meio ambiente e vidas; permitem e regularizam loteamentos e ocupações irregulares e em áreas proibidas, zonas de riscos, nas barrancas, nas encostas, nos baixios; fecham os olhos aos amigos, aos pobres e aos poderosos tudo pelo voto, discurso, a prédica e platéia fácil. Pior mesmo neste contexto de gente esclarecida, é ver entidades ligadas ao mundo empresarial abonar tais idéias que por lei, norma, consciência ou cultura elas próprias não a praticam nos seus negócios. É hora de acordar. E acordar para a vida, para a preservação do futuro de nossos filhos. É hora do ministério Público agir de forma mais incisiva.
Tereza I
A líder comunitária, ex-PT e licenciada do PP, funcionária de carreira da Saúde do município, vereadora licenciada e atual secretária da Saúde, Tereza da Trindade, quem diria, está com um pé nos Democratas. Padrinho? O deputado Paulo Bornhausen. Tereza, fiel, foi uma das poucas pessoas que fez Gaspar funcionar antes e durante a catástrofe ambiental numa secretaria vital para as pessoas: a saúde, suprindo a falta de um hospital que continua fechado e agora voltou a ser motivo de uma disputa de vaidades, de ações políticas e interesses corporativos pequenos.
Tereza II
Tereza tem vôos e personalidade própria. A burocracia, os interesses familiares e pequenos do PP deixaram-na órfã. Há muito, Clarindo Fantoni, vice-prefeito, candidato a prefeito derrotado e presidente do partido perderam o controle da estrutura e da renovação partidária. Tereza é uma estranha no PP. Serviu para fazer o jogo da maioria na Câmara de um governo que se auto-desmanchou em sucessivos erros estratégicos, operacionais e de assessoria.
Maioria
O prefeito eleito Celso Zuchi, PT, já tem a maioria na nova Câmara de Vereadores. Os vereadores José Hilário Melato, PP e o novato Claudionor Souza, PSDB, garantirão esta maioria. Por enquanto, nada partidário. Um é ajuste pessoal. O outro segue a cartilha de um grupo de apoiadores. Por conta disso, a eleição da mesa já está definida bem como a sua presidência.
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