02/04/2020
O Hospital de Gaspar, desacreditado e há anos sob intervenção municipal, mostrou-se despreparado na hora mais crucial para a comunidade e ajudá-la a superar a Covid-19
“Quando a esperteza é demais, ela come o dono”, repetia o político mineiro, ex-primeiro ministro do Brasil [sim, olhem a história], um dos fundadores do MDB e presidente eleito indiretamente e nunca empossado, Tancredo de Almeida Neves (1910/85). Bastou uma pandemia – nunca prevista no mundo do faz de conta dos políticos - para mostrar que a Saúde Pública e o Hospital de Gaspar não só não possuem uma UTI, mas são eles que estão na UTI. E ao invés de assumirem as suas irresponsabilidades nas escolhas das prioridades que fizeram nos mais de três anos de governo, os políticos à beira de prestarem contas disso nas urnas – e por isso torcem por uma virada de mesa e adiamento para 2022 -, estão orando por milagres. Em Gaspar, esta situação à nu tem nome e sobrenome: governo de Kleber Edson Wan Dall e a coligação que lhe apoia MDB, PP, PDT, PSDB e PSC.
Não vou repisar naquilo que já escrevi várias vezes aqui e que a cidade inteira está careca de saber. Ou não é isso que nos diz os quatro secretários de Saúde em apenas três anos de governo Kleber, ou no mesmo período, as cinco gestões no Hospital, cujo dono ninguém sabe quem é, sob intervenção marota da prefeitura inventada pelo petista Pedro Celso Zuchi? O Hospital é um poço sem fundo comendo, sem o devido retorno, por anos afio, milhões de R$ do bom e escassos e pesados impostos dos gasparenses. Prestação de contas? Pouco! Esta montoeira de “administradores” é uma verdadeira conspiração contra qualquer planejamento, gestão e resultado para a sociedade. Também não vou escrever à falta de atendimento na assistência básica nos postinhos. Vou lhes contar, que sem agenda, num estalo para transferir o foco das cobranças, incentivado pelos “çabios” e marqueteiros de campanha, e diante da desgraça iminente, Kleber anunciou na segunda-feira nas redes sociais que iria a Florianópolis. Fazer o que? Pedir dinheiro para a Saúde e uma UTI de cinco leitos – quando o mínimo recomendado é dez. Manobra. Só para se tornar vítima e passar a conta da sua inércia com a cidade e os cidadãos na Saúde para o governador Carlos Moisés da Silva, PSL. Nem agendamento tinha.
Exagero mais uma vez nesse tema? Apenas a um exemplo sobre ele. A cria política e irmão de templo evangélico, o médico cardiologista, funcionário público municipal e vereador Silvio Cleffi, PSC, é dono de dois Projetos de Lei para dar em doação parte dos descontos do IPTU deste ano e outros daqui em diante. É para formar um fundo. É para montar a UTI no Hospital de Gaspar. Então só porque a ideia não veio dos “çabios” que rodeiam o prefeito e ele, movido pela vingança política, por Silvio ter se desgarrado no cabresto político do governo de plantão – agora os dois dizem terem feitos as “pazes” –, esses projetos foram bombardeados e o dinheiro, prioritariamente neste fundo, está destinado ao Pronto Atendimento. Ou seja, naquilo que devia ter sido melhorado pelo próprio Kleber, como interventor, na dinheirama que colocou lá. E só no caso de “sobrar” recursos da melhoria do PA é que se vai estudar à criação da UTI. Ou seja: enrolação contra os doentes, vulneráveis e agora os da Covid-19.
Quer saber o tamanho do desprezo deste tema de Kleber e os seus até aqui? Os projetos emendados de Silvio foram aprovados. O governo não estimulou os gasparenses à doação naquilo que se descontou no pagamento antecipado do IPTU. Nenhuma campanha. Nem aquelas entrevistas sem perguntas. Nem para o seu o PS ou a UTI do dr. Silvio, sabendo que ambos beneficiariam doentes. Nem o carnê do IPTU lembrou ou facilitou à doação. E passadas duas semanas, num ambiente digitalizado e de apuração em tempo real, nada se sabe do que foi arrecadado. Transparência de Kleber naquilo que é público, mais uma vez, zero. Um desrespeito com os pagadores de pesados impostos. Estimava-se ser possível arrecadar a cada ano de R$400 a 500 mil. Informalmente, deixa-se espaço para dúvidas e contra o próprio governo. Especula-se que se conseguiu menos de R$50 mil. Nem o autor da ideia teve acesso à informação. Então é falsa e são lágrimas de crocodilos, a reclamação de Kleber ao público para o governador dar uma UTI ao Hospital de Gaspar. Ela não “nasce” do dia para a noite. Se Blumenau, Brusque e Itajaí não deram conta dos doentes graves por Covid-19 de Gaspar, os políticos daqui vão lavar as mãos?
Se o prefeito preenche cargos técnicos com políticos e curiosos pensando em votos, empregos públicos para cabos e reeleição – e o prefeito de fato Carlos Roberto Pereira – interina e acumulativamente voltou para a Saúde -, se ele se lança à cotidiana vingança, por outro lado não se pode culpar Kleber de não ter injetado dinheiro na Saúde daqui. Foi a cântaros e acima do orçado. Curiosamente, o Hospital, livre de fiscalização e cheio de reclamações, sem UTI, com uma retaguarda de PA comprometida, foi o destino da maior parte desse excesso. Se houve dinheiro e o resultado é ruim, houve desperdício. Como registrei na coluna deste 23 de janeiro, em 2019 a Saúde de Gaspar consumiu R$57,5 milhões contra um orçado de R$43,4 milhões sugados dos R$256,8 milhões do Orçamento Anual. Este ano, a rubrica da Saúde já prevê de cara quase R$52 milhões de R$296 milhões. Alguém tem dúvida que a rubrica será maior do que a prevista num ano eleitoral, mesmo com a arrecadação comprometida pela Covid-19? Faltam prioridade, profissionalismo, competência e transparência. Sobram erros, dúvidas, vinganças e espertezas. Acorda, Gaspar!
O desespero toma conta dos empresários de Gaspar e Ilhota. Acig, CDL, Ampe e Sindilojas não têm mais a quem recorrer. As contas e impostos estão por vencer e esse há como esticar, mas a parte da informalidade é o problemão. Clientes escassos, inseguros e descapitalizados. O crédito comprometido. Fluxo de caixa inexistente.
Resumo: quase todos parados e sem perspectivas. Produzir é outra temeridade: vai se ficar com o estoque de produtos e outros micos na mão; prejuízos. Estamos em uma guerra. Todos ficarão mais pobres. Esta é a realidade sem meias palavras.
É a hora dos verdadeiros geradores de impostos – trabalhadores, desempregados, empresários, investidores, empreendedores - e que sustentam os políticos e os governos se unirem. Devem exigirem à redução da máquina pública cara, empregatícia, sacana e ineficiente que trabalha contra eles e seus empregados. Nem mais, nem menos. É hora de mudar.
O sacrifício não pode ser apenas de um lado da balança. Chega! Crise é feita para isso: ela nos tira do conforto e nos obriga a arrumar a casa. É a vez dos três poderes. Não apenas no Executivo. O Legislativo, Judiciário e no Ministério Público estão carregados de privilégios inaceitáveis para os dias de hoje, do futuro e num país cheio de desigualdades.
Outra da “esperteza quando ela é demais, come o próprio dono”. Os prefeitos da região olham à pandemia como um problema. Não para os cidadãos, mas para os seus projetos de reeleição. Querem passar a conta e a culpa para Brasília; querem se livrar da parte que lhes cabe.
Para eles, a desgraça é uma oportunidade. Os congressistas, por exemplo, entre outras, por ampla maioria aprovaram uma ajuda de custo de R$600 a cada mês, por três meses, para autônomos e para quem está na informalidade.
Mais do que depressa, os políticos daqui estão discursando e usando as redes sociais para se vangloriar. Alguns estão fazendo “cadastros” como se a iniciativa tivesse sido deles, e o dinheiro que vai cobrir hoje e amanhã tudo isso não fosse dos impostos do próprio povo. Pior, estão quase que comprando votos antecipadamente.
Mais. Perguntar é necessário nesta hora: quanto os prefeitos vão cortar de seus próprios vencimentos? Kleber ganha R$27.356,69 por mês, por exemplo. E os vices, secretários e cargos comissionados, antes de exigirem os sacrifícios dos pagadores de pesados impostos – mesmo desempregados e com suas empresas à beira da falência? É essa gente que arrisca e verdadeiramente perde dinheiro para sustentar a viciada máquina pública.
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