13/08/2020
Gaspar se tornou notícia estadual mais uma vez na pandemia da Covid-19. O primeiro paciente da UTI emergencial feita só para Covid-19 no Hospital de Gaspar, não tinha o novo corona vírus. Todos concordam. É técnico. Foi testado. Não há o que contestar. Entretanto, o Hospital – cujo dono ninguém sabe quem é e está sob intervenção municipal desde o governo petista de Pedro Celso Zuchi - foi à Justiça para que isso não seja registrado ou comentado por mim. O que alega? Que mancha a “boa imagem” do Hospital. É que estamos em tempo de campanha eleitoral e isso não fica bem, mas para a “imagem” dos políticos que tocam o Hospital. Só isso! Agora, o Hospital e principalmente a secretaria de Saúde, tentam se justificar na morte de Samuel Miranda de Oliveira (foto), de 12 anos, morador da Bateias, filho de gente humilde e negra. Pode ser que tenham razão. Mas, prova-se mais uma vez que a UTI não é a salvação daquilo que ainda mal funciona aos olhos dos que estão doentes, esperançosos, não têm para onde ir além do Hospital e do sistema de atendimento da secretaria do prefeito Kleber Edson Wan Dall, MDB.
O Hospital de Gaspar – que conheço bem desde 1984 - já fechou a pedido do seu Conselho por falta de condições financeiras e técnicas – nem fossa séptica tinha, doentes, mortos, visitas, funcionários e médicos entravam e saiam pela mesma porta. Fui o vice-presidente da Comissão que o reconstruiu fisicamente Hospital, liderada pelo então presidente da Acig, Samir Buhatem. Muita gente filantropa e comunitária esteve envolvida, principalmente a Fundação Bunge no suporte econômico. O corpo clínico bem distante. As novas ou modernas instalações não serão nunca nada, se à essência do Hospital não existir na alma dele que é o de acolher, diagnosticar corretamente, encaminhar, tratar, recuperar e devolver à vida aos doentes. São os doentes bem atendidos e recuperados que avaliam e avalizam o Hospital e seus profissionais. A “alma” do Hospital deve estar longe dos políticos, inclusive dos bem-intencionados. Tudo começa no Pronto Atendimento, foco dos problemas mínimos, básicos e rotineiros. As redes sociais estão cheias de reclamações e denúncias. As desculpas são sempre as mesmas: falta raio-x, tomógrafo, UTI, isso e aquilo. Eles estão chegando. E os problemas, por sua vez, continuam e até aumentam, quando deveriam diminuir. Então a ordem é abafá-los.
E saúde pública não se faz apenas no Pronto Atendimento do Hospital. Esse erro estratégico e funcional retrata bem à gravidade e a forma torta que se trata este grave problema. A saúde pública começa nos postinhos, na policlínica e nas farmácias básicas. É lá que a saúde pública está falhando contra os mais frágeis. Não se faz política pública de saúde séria trocando continuadamente de secretário de Saúde e gestão do Hospital sob intervenção como se viu e se vê no governo Kleber. Não se faz política pública de saúde calando o debate, o doente ou a família dele. O debate e a insatisfação não estão exatamente aqui neste espaço. Estão nas redes sociais e aplicativos de mensagens. São eles que estão fora do controle dos que mandam e marqueteiam na gestão de Kleber. E Samuel pode ser resultado de tudo isso. A própria prefeitura de Gaspar deu pistas na sua nota oficial. “O menino apresentou os primeiros sintomas suspeitos de corona vírus no dia 5 de julho e testou positivo para Covid-19 no dia 9 de julho”. Então, entende-se que Samuel deveria estar sendo monitorado – como manda o protocolo - pela secretaria de Saúde e como, no mundo o protocolo diz, a doença se expira em 14 dias, presumia-se que este “acompanhamento” da secretaria é que deu a alta, pois não se testou para ver a real situação de Samuel. Mas, ele continuava doente. E de Covid-19.
Emergência. E tarde! Sugerindo outra causa, a nota das 18.56 continuava: “o menino deu entrada no Pronto Atendimento do Hospital de Gaspar às 21h47 desta quarta-feira, dia 5 [ um mês depois que ele procurou atendimento na rede pública com sintomas de Covid-19], com quadro agravado de dificuldade respiratória. A equipe médica iniciou todos os procedimentos, porém, a criança não resistiu e, infelizmente, veio a óbito por volta das 2h45 dessa madrugada”. Nesta segunda-feira, dia 10, contra o que esperavam todos os envolvidos e os políticos, os exames provaram que Samuel morreu devido, ou com a Covid-19. “Era um menino alegre”, sintetizou a mãe em depoimento a NSC TV. “Eles não passaram nenhum remédio. Só isolamento”, escreveu a irmã mais velha naquilo que viralizou nas redes sociais. Os médicos choraram, registrou a mídia. Mas quem perdeu um filho e um irmão foram outros. Samuel é um caso de investigação científica, no mínimo. Ele é a prova de que sem diagnóstico e acompanhamento corretos, nenhum doente se cura em Hospital com paredes, aparelhos sofisticados e UTI novas. É preciso debater, sim, mais este caso. Abafá-lo como querem os políticos que devem explicações à cidade e aos mais vulneráveis, significará mais outros Samueis no futuro. Boa imagem se constrói, não se impõe sob o silêncio naquilo que se errou, ou estabeleceu como fatalidade. Acorda, Gaspar!
Apenas dois pré-candidatos a prefeito de Gaspar se comprometeram, até agora, a “secar” a teta de comissionados e diminuir o quadro de secretários da prefeitura de Gaspar, se eleitos: Rodrigo Boeing Althof, PL e Sérgio Luiz Batista de Almeida, PSL. Este até promete baixar o atual salário de R$27.356,69 do prefeito – um dos mais altos de Santa Catarina.
Kleber Edson Wan Dall, MDB, não pode mais fazer tais promessas. Inchou a máquina como poucos. E o PT, que já foi governo e teve as mesmas práticas, ainda não tem candidato declarado. Mas, se tiver, terá os mesmos defeitos de Kleber neste aspecto.
Enquanto isso, todos 13 vereadores de Gaspar continuam num silêncio sepulcral sobre dois Projetos de Resolução e de autoria do governista Roberto Procópio de Souza, PDT. Eles cortariam apenas 20% por só dois meses, além de não mais acessarem às diárias até o final do ano.
Os PRs deram entrada no dia sete de abril e estão empacados na Comissão de Legislação, Justiça, Cidadania e Redação, presidida pelo próprio Roberto.
Para comparar: os cincos projetos que reajustaram os salários do prefeito, vice, secretários, vereadores e deu 1% de aumento real para os funcionários em ano eleitoral, entrou, foi analisado, relatado e aprovado em seis dias.
Não tem jeito. O Samae, a secretaria de Planejamento Territorial, a secretaria de Obras e Serviços Urbanos e as empreiteiras não se falam. Mal uma obra é terminada, asfalto novinho, lá vem o Samae de Gaspar quebrando tudo. E para procurar registros tampados pelo asfalto. E o povo pagando duas vezes essa pesada conta.
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