A notícia de que seria o novo pároco da Paróquia Nossa Senhora da Boa Viagem, na favela da Rocinha, no Rio de Janeiro, deixou o frei gasparense, João Fernandes Reinert, apreensivo.
O tamanho do local - cerca de 120 mil pessoas residem na favela - e o perigo do tráfico foram a causa da apreensão, que sumiu logo nas primeiras semanas em que o frei chegou na favela, em abril deste ano. "Fui muito bem recebido pela comunidade e, por incrível que pareça me sinto muito mais seguro aqui do que em outras localidades do Rio, pois aqui há união, o tráfico é muito forte, mas as pessoas se defendem", conta Frei Nando, como é carinhosamente conhecido pela comunidade gasparense.
Frei Nando chegou na Rocinha há cerca de dois meses, porém, só foi empossado pároco no último final de semana, durante missa realizada pelo bispo auxiliar do Rio de Janeiro, Dom Antônio Augusto. Familiares de Frei Nando viajaram de Gaspar ao Rio de Janeiro para acompanhar a posse do frei gasparense, que será o responsável pela Paróquia Nossa Senhora da Boa Viagem e suas oito comunidades, todas instaladas dentro da favela.
"Aqui a gente tem tudo. A Rocinha é praticamente uma cidade", conta o frei, que assume o trabalho com o desafio de promover programas sociais para a juventude e as famílias. O trabalho será realizado com o apoio dos freis Róbson de Castro Guimarães e Plínio Gande da Silva, que já estavam na favela antes da chegada de Nando. "Muitos trabalhos já são realizados por aqui. Além da parte física, que precisa de algumas melhorias, vamos criar o Ciclo Bíblico para as famílias e formar grupos de juventude", conta Frei Nando.
Segundo o frei, muitos moradores da favela são nordestinos, que deixam suas cidades à procura de melhores condições de vida na capital carioca. "Os nordestinos são um povo muito religioso, por isso o trabalho da Paróquia e das comunidades é muito forte por aqui. Realizamos quatro missas por domingo na Paróquia e em todas a igreja fica lotada", revela Nando.
Franciscanos
Neste ano a Paróquia Nossa Senhora da Boa Viagem completou 70 anos. A Paróquia sempre foi administrada pelos Diocesanos, porém, em outubro do ano passado, os Franciscanos assumiram a comunidade. Segundo frei Nando, a provincial dos franciscanos mostrou interesse em assumir a paróquia da Rocinha, pois os franciscanos têm o foco de trabalhar junto às comunidades periféricas. O pedido foi aceito pelo arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Eusébio Scheidt, que repassou a Paróquia aos Franciscanos, que agora trabalham muito mais focados em trabalhos sociais.
Desafios são vencidos com confiança e fé
Conhecida como a maior favela da América Latina, a Rocinha está localizada no morro Dois Irmãos, que separa os bairros de São Conrado e Gávea. A origem do nome da Rocinha é atribuída às plantações de legumes e verduras dos primeiros moradores, que vendiam os seus produtos na cidade.
É considerada uma das favelas mais urbanizadas do Rio de Janeiro, com cerca de 120 mil habitantes. Tem diversos atrativos, muito peculiares, além de sua localização privilegiada: mata verde, morros de pedra lisa, praia, e um forte sentimento de comunidade. Apesar das belezas, é uma das favelas mais perigosas do Rio de Janeiro, onde o tráfico de drogas atua com liberdade e autoridade.
É neste cenário que o gasparense Frei João Fernandes Reinert está morando há cerca de dois meses. Em uma conversa informal, ele contou à nossa equipe de reportagem como é a vida na favela da Rocinha.
JCV - Como é a vida na favela? As pessoas se conhecem, são unidas?
Frei - Desde que cheguei percebi que muitos nordestinos vivem aqui. Eles são um povo muito acolhedor, recebem muito bem todos os novos moradores e há uma união muito forte entre os moradores da favela.
JCV - E como a comunidade vê a questão do tráfico?
Frei - O tráfico é uma realidade muito presente na favela da Rocinha, porém a comunidade se defende, não há perigo aqui dentro.
JCV - Mas e os tiroteios?
Frei - Desde que cheguei presenciei apenas um tiroteio, que ocorreu durante um confronto entre duas facções. Ouvimos tiros a noite toda. A comunidade já está acostumada. Cada um vai para sua casa e fica tudo bem. Eu fiquei apreensivo, torcendo para que os tiros caçassem. Graças a Deus ninguém ficou ferido.
JCV - Há muita briga entre a polícia e os traficantes?
Frei - Não, segundo os moradores a polícia não entra no morro desde novembro do ano passado.
JCV - Qual é a sua impressão sobre a vida na Rocinha e qual a expectativa para os trabalhos religiosos que começam a ser desenvolvidos?
Frei - Minha impressão mudou totalmente. Eu estava apreensivo para vir para cá e agora me sinto bem, fui muito bem recebido. Sobre os trabalhos religiosos nossas expectativas são ótimas, este povo é muito religioso e através dos trabalhos sociais pretendemos atingir muitas famílias e muitos jovens.
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